Um novo estudo revelou que a extensão do gelo marinho de inverno no Ártico teve a maior redução anual alguma vez registada, e que a tendência de desaceleração do degelo descoberta há dois anos inverteu-se. De acordo com Duo Chan, autor principal do artigo e investigador na Escola de Ciências Oceânicas e da Terra da Universidade de Southampton, citado pelo The Guardian, o que “parecia uma pausa no início da década de 2020 revela-se agora apenas uma desaceleração temporária dentro de um declínio a longo prazo”.
O artigo publicado na segunda-feira na revista científica norte-americana Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) revela os achados da combinação da observação remota por satélite, da análise de estatísticas e tendências de longo prazo e das simulações com modelos climáticos avançados. A principal descoberta foi a queda de 5,8% na extensão do gelo marinho do Ártico entre os picos de inverno de 2024 e o de 2025, um período no tempo que se assinala entre fevereiro e março e que habitualmente representa o momento de maior extensão de gelo da temporada.
Em contrapartida, a área de gelo marinho em setembro, altura do verão e quando a extensão atinge o seu mínimo anual, reduziu-se pela metade desde 1979, quando começaram as medições por satélite. De acordo com Alessandro Silvano, coautor do artigo na Universidade de Southampton, a queda acentuada em 2025 é “invulgar, mas fisicamente plausível” tendo em conta o atual aquecimento do Ártico, e “mais consistente com a redução contínua do gelo marinho no inverno do que com um regresso aos valores observados no início da década de 2020.”
Há cerca de dois anos um estudo constatou uma desaceleração no degelo marinho no Ártico. O artigo científico publicado no verão passado não encontrou nenhuma redução estatisticamente significativa na extensão do gelo marinho entre 2005 e 2024. Mesmo assim, os investigadores deixavam a ressalva de que as variações naturais nas correntes oceânicas que limitam o degelo provavelmente equilibraram o aumento das temperaturas globais, e que esta seria uma “trégua temporária”, destacando que “o derretimento provavelmente recomeçará a uma taxa cerca de duas vezes superior à de longo prazo em algum momento nos próximos cinco a dez anos.”
“A nossa descoberta da tendência de 20 anos aponta para uma modulação decenal da perda contínua de gelo no inverno, em vez de uma interrupção do declínio a longo prazo. Isto é consistente com uma análise de tendência numa escala temporal mais longa, de 30 anos, que também realizámos e que mostra um declínio ininterrupto. Motiva também estudos adicionais sobre a forma como a perda de gelo no inverno está a remodelar o ciclo sazonal do Ártico e a sua capacidade de recuperação”, assinala o estudo publicado recentemente.
A nível de alterações climáticas, numa altura em que a Terra nunca acumulou tanto calor, a redução do gelo marinho de inverno pode significar mais calor e humidade na atmosfera, o que de acordo com os autores, pode provocar o desenvolvimento de tempestades, com maior impacto a sul do globo. “As recuperações a curto prazo podem obscurecer temporariamente a direção a longo prazo da mudança no gelo marinho do Ártico. A baixa extensão do gelo marinho no inverno em 2025 e 2026 demonstra claramente que a perda de gelo marinho no Ártico não parou – continua num clima em aquecimento”, afirma Chan, que considera o estudo um alerta para a crise climática em curso. Em abril um estudo da Universidade de Cambridge já havia descoberto uma ameaça às plataformas de gelo na Antártida.
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