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O estado da Nação sem gritos

Os portugueses dizem que estão pior do que há um ano. Como o emprego e o rendimento têm crescido, as razões para esta visão está nos detalhes, onde encontramos em geral o diabo.

Helena Garrido
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Claro que no Parlamento se debateu tudo menos o estado da Nação, ainda menos quando assistimos a um ambiente de gritaria e bocas, com origem em praticamente todos os três grandes partidos, e que nos traz à memória as antigas tabernas. O que mais impressiona hoje no debate parlamentar é o poder que o Chega teve de contagiar PSD e PS e levá-los ao estado de mandar bocas constantes, cada vez que um adversário político está a falar. Sendo certo que o debate do estado da Nação nunca foi útil para conhecer o estado da Nação, este ano, com dois ministros estrela do Governo sob ataque cerrado, por razões diferentes, ainda menos conseguimos retirar dali um retrato, nem que fosse desfocado, do que se passa no país.

Pouco mais de metade dos portugueses (51%) considera que estão pior do que no ano passado, de acordo com a sondagem da Universidade Católica para a RTP e o Público. O que parece contradizer os grandes números da economia, uma vez que os salários subiram, o desemprego desceu e o emprego aumentou e a economia continua a crescer. Mas basta pensar em habitação e combustíveis para concluirmos que há aspectos da vida que pioraram.

De facto, a remuneração média por trabalhador aumentou 5% no primeiro trimestre deste ano, quando se compara com igual período do ano anterior, atingindo os 1611 euros. O salário mínimo subiu 5,7% para 920 euros. Além disso, as pensões mais baixas aumentaram 2,8%. Se levarmos em conta que a inflação em 2025 foi de 2,3%, a regra geral é de um aumento do poder de compra, mas com ameaças, como vamos ver.

Há igualmente mais pessoas a trabalhar e menos no desemprego. De acordo com os últimos dados do INE, estimativas relativas a Maio, a taxa de desemprego situou-se nos 5,5%, continuando a economia a gerar postos de trabalho e com o emprego em máximos históricos.

Estes são os principais argumentos para dizer que os portugueses estão melhor. Mas há sinais de preocupação e acontecimentos em algumas frentes que podem explicar o sentimento de que a situação económica está pior e a piorar. Levando em conta as perspetivas do Banco de Portugal, o poder de compra não vai ter o aumento do passado. O rendimento disponível real das famílias deverá crescer apenas 0,8% em 2026, depois de ter aumentado 3,1% em 2025.

A subida da inflação, na sequência do conflito no Irão, explica em parte este impacto. Embora com um alívio marginal, a inflação em junho foi de 3,2%. Mas todos sentem o acentuado aumento dos combustíveis. Em maio, a gasolina custava mais 19% e o gasóleo mais 30% do que um ano antes. Quem depende do automóvel para se deslocar tem seguramente o que se pode chamar de “inflação psicológica” mais elevada. E, pior do que isso, um impacto significativo nas suas finanças familiares podendo, no limite, estar a entregar na bomba de combustíveis o seu aumento salarial.

Temos depois a habitação, o problema que parece insolúvel ou a agravar-se por cada nova medida adoptada pelo Governo. As rendas de habitação por metro quadrado aumentaram 5,2 em Junho, de acordo com o INE. E a renda mediana dos novos contratos subiu 9,1% no primeiro trimestre, para 9,46 euros por metro quadrado. Ou seja, as rendas aumentaram mais do que a inflação e anularam praticamente os aumentos de rendimento de 2025. Claro que quem é proprietário viu o seu património valorizar-se.

Para quem comprou casa, a situação também não é favorável. Em julho de 2025, a taxa de depósito do BCE estava nos 2% e agora está nos 2,25%, depois da subida decidida em Junho, o que já se tem refletido na Euribor, o principal indexante do crédito à habitação a taxa variável. E com isto, algumas famílias estão já a ter uma factura mais elevada com a prestação da casa, que pode não ficar por aqui. O recrudescimento do conflito com o Irão, dependendo da dimensão dos seus efeitos, pode levar o BCE a decidir mais um aumento das suas taxas a 23 de Julho, na última reunião antes das férias.

Se o ano passado se podia dizer que boa parte dos portugueses estava a viver dias de aumento de poder de compra, o mesmo não se pode afirmar agora. Em média, os portugueses estão ligeiramente melhor do que há um ano, já que há mais emprego e os salários ainda crescem acima da inflação. Mas “a média” esconde uma parte da realidade.

Estão melhor os trabalhadores com aumentos salariais acima da inflação que agora se está a verificar, quem encontrou emprego e os proprietários que viram as casas valorizar. Estão pior muitos pensionistas, porque a atualização de 2,8% ficou abaixo da inflação recente, os inquilinos em geral e os que têm de celebrar novos contratos de arrendamento e as famílias que gastam uma parte elevada do orçamento em combustíveis. Assim como começam a estar pior as famílias que têm crédito à habitação com taxa variável.

Na gritaria do debate parlamentar do estado da Nação, a presença destes temas foi marginal. Não se pode dizer que estamos todos pior, mas as perspetivas para este ano são pouco animadoras. E daqui a um ano, quando estivermos a olhar de novo para o estado da Nação, corremos o sério risco de, aí sim, concluir que 2026 não foi um ano de mais poder de compra.