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(A) :: Lisboa é onde tu não estás 

Lisboa é onde tu não estás 

Através da obra de Sartre, como podemos transformar a nossa forma de ver o mundo,  passando do estatuto de turista predador para o de viajante atento?

Haythem Bohli
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(Traduzido do inglês por serviços online e membros do Global Shapers Lisbon Hub.)

A época turística está a todo o vapor em Lisboa. As filas na Manteigaria são maiores,  o Elétrico 28 está lotado e as ruelas de Alfama estão apinhadas. Como este é o meu  terceiro verão em Lisboa, gosto de pensar que adquiri alguns instintos locais. Sei qual o miradouro a visitar antes das 9h, tenho opiniões sobre os pastéis de nata versus os  de sabores “inovadores” e comecei a planear os meus passeios de acordo com as  ruas que os grupos de turistas ainda não descobriram. Só que não. Ainda paro para  admirar a vista. Ainda entro na fila. E, para ser sincero, ainda sinto uma pequena  emoção quando penso na primeira vez que encontrei um bar “escondido” que, por  acaso, tinha uma espera de 40 minutos e três grupos de turistas já lá dentro.

As viagens tornaram-se um acelerador das perturbações que afetam o nosso planeta.  O turismo excessivo está para as viagens como uma onda de calor está para o verão:  uma avaria, um sobreaquecimento. Mas o que percebi é que todos participamos no  turismo excessivo. Todos participamos neste frenesim que nos leva a visitar os  mesmos locais, a maravilhar-nos com os mesmos pontos turísticos e os mesmos  panoramas. Na verdade, mesmo aqueles que imaginam estar a trilhar o caminho  menos percorrido, saindo da rota turística tradicional, não escapam à regra. Então,  como aprendemos a viajar de forma diferente?

No final de outubro de 1951, Jean-Paul Sartre estava em Veneza, Itália. Foi aí que  observou aquele que descreveu como o seu “irmão”, o o seu “semelhante”, ou por  outras palavras: o turista. Compara o turista a um soldado: também não quer  conquistar, possuir, hastear a sua bandeira e dizer “Sim, estive lá”?

O próprio Sartre admite ser tomado por uma “loucura ciumenta”: não quer visitar, mas  antes apoderar-se, como um predador faminto de sensações intensas. Viajar torna-se  então uma batalha campal, um feito atlético: é preciso vencer, ser o único a ter  encontrado o melhor miradouro, comido os melhores pastéis de nada, tirado as  melhores fotos do Eléctrico 28 subindo pelas ruas estreitas de Alfama. O turista quer o  exclusivo, uma experiência virtuosa.

Na sua obra inacabada, A Rainha de Albemarle, Sartre afirma que “o turismo é uma  flor do mal”: cresce nos mesmos lugares que devastou. E de onde vem esta  capacidade de causar dano? Da sede de autenticidade que o impulsiona, que na  realidade é uma necessidade de espetáculo e do espetacular: enquanto turistas,  queremos que o mundo nos deslumbre, que valha a pena o nosso dinheiro, que nos  maravilhe.

Mas esta é uma forma de consumir a beleza, não de a admirar. É uma procura de  emoções pré-fabricadas, de excitação imposta. Com estes parâmetros, a  consequência é que “a Lisboa real”, aquela que atraiu pessoas de todo o mundo,  perde-se inevitavelmente. Lisboa é onde o turista não está. Porque, como todos os  turistas, tendemos a transformar a cidade numa cidade de revista, completa com tudo o que é necessário para o nosso deslumbramento: os azulejos fotogénicos, o fado  tocado por encomenda para mesas cheias de turistas, os miradouros tomados de  surpresa ao pôr-do-sol. Tudo se torna uma autenticidade fabricada.

O “turista ao contrário”, tal como foi cunhado por Sartre, deveria, em vez disso,  procurar ver as coisas como elas são, no seu mistério, em vez de como são  apresentadas para agradar. Precisaríamos de reaprender a ver, sem o desejo de  caçar, ou sequer de visitar. Ver com um olhar intenso, infinitamente receptivo, porém  desinteressado: não olhar para dizer que esteve lá, mas simplesmente estar lá e  observar a vida à sua volta — a roupa a secar do lado de fora das janelas das casas,  uma conversa amigável nos degraus de Alfama, a luz no Tejo na hora dourada  enquanto um músico toca “Shallow” pela décima vez.

É esta atitude discreta, livre de qualquer sentido de obrigação, que tem a hipótese de  transformar o turista num viajante. Por isso, para as suas próximas férias, siga o  exemplo de Sartre e seja um “turista ao contrário”: veja o que não está marcado no  mapa, veja sem guia, mas, principalmente, esteja presente e observe sem urgência.

Observador associa-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.