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(A) :: O fumo dos incêndios do Canadá já atravessou o Atlântico. Como consegue viajar milhares de quilómetros e esconder o Sol?

O fumo dos incêndios do Canadá já atravessou o Atlântico. Como consegue viajar milhares de quilómetros e esconder o Sol?

Impulsionadas pelos ventos em altitude, as nuvens de fumo já começaram a atravessar o Atlântico e podem percorrer milhares de quilómetros até chegarem à Europa. Nos EUA deixaram cidades sem Sol.

Filomena Martins
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Durante vários dias, os arranha-céus de Nova Iorque desapareceram parcialmente atrás de uma cortina cinzenta. Em Washington, monumentos habitualmente visíveis a quilómetros de distância ficaram reduzidos a silhuetas. Chicago, Detroit, Minneapolis, Filadélfia e Toronto acordaram sob um céu esbranquiçado ou alaranjado, com o Sol reduzido a um círculo vermelho e baço. A origem estava a centenas ou mesmo a milhares de quilómetros: nas florestas em chamas do Canadá.

O fumo chegou à região de Nova Iorque poucos dias antes da final do Mundial de futebol, disputada no domingo no estádio de East Rutherford, em Nova Jérsia. Na quinta-feira, 16 de julho, as imagens da cidade mostravam a linha de edifícios de Manhattan quase apagada por uma espessa névoa alaranjada. A concentração de partículas atingiu níveis classificados como muito prejudiciais à saúde, e as autoridades distribuíram máscaras KN95.

Este domingo, porém, o pior já tinha passado. A chuva e a alteração da circulação atmosférica ajudaram a limpar parte do fumo sobre Nova Iorque e Nova Jérsia, permitindo que a final se realizasse sem problemas significativos de visibilidade. O ar não estava completamente limpo, mas dizer que Nova Iorque ficou sem ver o Sol durante o jogo seria excessivo. As imagens mais dramáticas são dos dias anteriores.

O que está a arder no Canadá?

O principal foco desta vaga de fumo encontra-se no norte e noroeste do Ontário, uma enorme região de floresta boreal, com pinheiros, abetos, lagos e extensas áreas de solo orgânico. Esta segunda-feira, 20 de julho, Ontário tinha cerca de 190 incêndios ativos e a área ardida na província aproximava-se de 735 mil hectares, mais do que sete vezes a área do distrito de Lisboa: cerca de 1.800 pessoas tinham sido retiradas das suas comunidades.

Um dos maiores incêndios queimava nas proximidades do Parque Provincial de Wabakimi, no noroeste do Ontário, e já se estendia por mais de 300 mil hectares. Muitos destes fogos encontram-se em regiões remotas, sem estradas e com acesso difícil, onde o combate depende sobretudo de aviões, helicópteros e equipas transportadas por via aérea.

Não ardem apenas árvores; o fogo consome arbustos, folhas, madeira morta e, em algumas zonas, camadas de matéria orgânica acumulada no solo. Esses materiais podem arder lentamente durante muito tempo, produzindo grandes quantidades de fumo mesmo quando as chamas não são particularmente altas.

A situação não se limita a Ontário. Há incêndios ativos noutras partes do Canadá e também no norte do estado norte-americano do Minnesota. Por isso, algumas das nuvens de fumo sobre os Estados Unidos resultam da mistura de fumo canadiano com emissões de incêndios norte-americanos.

Como é que o fumo deixa cidades sem Sol?

Uma grande coluna de fumo contém milhões de milhões de partículas microscópicas: algumas absorvem a luz; outras desviam-na em diferentes direções. Quando a concentração é muito elevada, o resultado é uma espécie de filtro colocado entre o Sol e a cidade.

A luz azul é dispersada com maior facilidade, mas as tonalidades vermelhas e alaranjadas conseguem atravessar melhor a atmosfera carregada de partículas, razão pela qual o Sol pode surgir como um disco cor de laranja, mesmo a meio do dia.

O efeito não é igual em todo o lado e em algumas cidades, o fumo permaneceu sobretudo a vários quilómetros de altitude e apenas tornou o céu leitoso. Noutras, desceu até à superfície, reduziu fortemente a visibilidade e transformou-se num problema grave de qualidade do ar. Foi o que aconteceu em Chicago, Detroit, Washington, Nova Iorque e noutras cidades do Midwest e da costa leste. Mais de 100 milhões de pessoas estiveram abrangidas por alertas ou condições perigosas de poluição atmosférica durante a passagem das sucessivas ‘plumas’.

Porque é perigoso o fumo?

O principal risco vem das chamadas PM2.5, partículas com menos de 2,5 micrómetros de diâmetro — dezenas de vezes mais pequenas do que a espessura de um cabelo humano. Por serem tão pequenas, conseguem penetrar profundamente nos pulmões e algumas podem entrar na circulação sanguínea.

A exposição pode provocar irritação dos olhos e da garganta, tosse, dores de cabeça e falta de ar. Também pode agravar asma e doenças respiratórias ou cardiovasculares. Nos episódios mais severos, está associada a ataques cardíacos, acidentes vasculares cerebrais e mortes prematuras. Crianças, idosos, grávidas, pessoas com doenças crónicas e trabalhadores ao ar livre estão entre os grupos mais vulneráveis.

E há um detalhe enganador: o ar pode continuar poluído mesmo quando já não se vê nem se cheira claramente o fumo.

Como entra no Atlântico?

O fumo não atravessa o oceano como uma única nuvem compacta: vai sendo dividido, esticado e transportado por diferentes correntes de ar. O calor dos incêndios faz subir o ar. Nos fogos mais intensos, as colunas podem transportar partículas até vários quilómetros de altitude; algumas colunas atingem 8, 10 ou mais quilómetros. A essa altura, o fumo é apanhado pelos ventos dominantes de oeste, que atravessam a América do Norte e seguem em direção ao Atlântico: a famosa corrente de jato, ou jet stream.

É uma viagem comparável à de uma extensa faixa de tinta colocada numa corrente de água: começa concentrada, mas vai sendo esticada, diluída e deformada à medida que avança. Os modelos atmosféricos indicaram que parte do fumo continuaria para leste sobre o Atlântico Norte e poderia aproximar-se da Europa. Isso não significa, porém, que toda a nuvem chegue à Península Ibérica nem que desça até à superfície.

Porque ainda não chegou a Portugal?

Porque estar sobre o Atlântico não é o mesmo que estar a caminho direto de Portugal e a trajetória depende da posição das depressões, dos anticiclones e da corrente de jato. Nesta fase, a maior parte da nuvem foi conduzida para latitudes mais a norte ou permaneceu sobre a América do Norte e o Atlântico ocidental. O fumo pode dirigir-se para a Gronelândia, Islândia, Ilhas Britânicas ou norte da Europa, sem passar sobre Portugal continental. Em 2023 e 2025 chegou à Escandinávia.

Além disso, durante a travessia, as partículas mais pesadas caem; parte do fumo é removida pela chuva; a nuvem espalha-se por uma área enorme; e diferentes camadas de ar podem conduzi-la em direções distintas. É possível que partículas muito diluídas acabem por chegar à Europa em altitude mas, nesse caso, o efeito mais provável em Portugal seria um céu ligeiramente esbranquiçado ou pores do Sol mais avermelhados — não necessariamente uma degradação importante da qualidade do ar à superfície.

Para provocar em Lisboa ou no Porto um cenário semelhante ao de Nova Iorque, seria necessário que uma nuvem ainda muito concentrada chegasse à Península e, sobretudo, que o fumo descesse das camadas altas da atmosfera até ao ar que respiramos. Neste momento, não há indicação segura de que isso vá acontecer.

O fumo já percorreu uma distância enorme. Mas a atmosfera não é uma estrada em linha reta: é um emaranhado de correntes de ventos, tempestades e zonas de alta pressão que podem levá-lo para norte, empurrá-lo para sul, fazê-lo subir ou simplesmente dispersá-lo antes de chegar à Europa.

[Já saiu o segundo episódio de “O Candidato Perfeito”. Em “Câmara Lenta”, José Valbom acorda num armazém, vigiado por homens que falam russo. Os inspetores seguem o rasto de um carro preto. A polícia aperta o cerco, mas o tempo está a esgotar-se. Este novo podcast de ficção do Observador, em parceria com a Coyote Vadio, é a continuação da história de “O Zé faz 25”. Conta com as vozes de José Raposo, Tiago Teotónio Pereira, Madalena Almeida, Vera Moura, Paulo Calatré, Susana Brandão, Sara Matos, Fábio Baptista, Pedro Laginha e Carla Andrino. Pode ouvir o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]