Julio Martínez, o administrador da consultora Análisis Relevante e arguido no processo que investiga as alegadas irregularidades na atribuição de uma ajuda pública de 53 milhões de euros à companhia aérea venezuelana Plus Ultra, comunicou esta segunda-feira que está disponível para colaborar com a Justiça, afirmando que foi o ex-presidente do Governo espanhol José Luis Rodríguez Zapatero que liderou as diligências que conduziram à aprovação do resgate estatal. As declarações contradizem a versão apresentada pelo ex-líder socialista, que negou qualquer envolvimento no caso.
Num requerimento entregue ao tribunal, ao qual o El País teve acesso, o antigo braço direito e operador financeiro de Zapatero afirmou que pretende “colaborar e contribuir para o esclarecimento dos factos”. A posição representa uma mudança na estratégia de defesa do empresário, que até agora se tinha remetido ao silêncio desde que foi detido, em dezembro de 2025.
No documento, apresentado antes de prestar declarações como arguido perante o juiz José Luis Calama, Martínez sustenta que foi Zapatero quem “marcava os passos a seguir” nas diligências que culminaram com a aprovação do financiamento público concedido à Plus Ultra, após a pandemia de Covid-19.
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As declarações entram em conflito com o testemunho prestado por Zapatero perante a Audiência Nacional, no dia 16 de junho, quando afirmou não ter tido qualquer intervenção no processo. “Não falei com ninguém, absolutamente com ninguém do setor público sobre o resgate da Plus Ultra”, declarou então o antigo líder socialista.
Segundo Martínez, Zapatero desempenhava um papel central na Análisis Relevante (empresa que, de acordo com a acusação, foi criada especificamente para canalizar fundos para o líder socialista), apesar de nunca ter integrado formalmente a estrutura societária da empresa. “O senhor Rodríguez Zapatero ficou de fora da estrutura acionista e dos órgãos formais da empresa, mas era quem a liderava e decidia todas as questões de estratégia e captação de clientes“, afirmou o empresário no requerimento, acrescentando ainda que a consultora foi criada para aproveitar “o atrativo de contar com o seu antigo presidente do Governo como consultor e principal referência”.
O empresário definiu-se, assim, como intermediário entre os clientes e Zapatero, alegando que não tinha capacidade para obter financiamento público ou privado por iniciativa própria. “Na sua função de consultor, era o senhor Rodríguez Zapatero quem marcava os passos a seguir”, escreveu.
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De acordo com o documento, Zapatero terá colocado os responsáveis da Plus Ultra em contacto com a Análisis Relevante em maio de 2020. Inicialmente, a estratégia passou por tentar obter um crédito com garantia do Instituto de Crédito Oficial (ICO) através do Banco Santander, mas, após essa via não ter produzido resultados, as diligências terão sido direcionadas para a Sociedade Estatal de Participações Industriais (SEPI), entidade responsável pela gestão do Fundo de Apoio à Solvência de Empresas Estratégicas (FASEE).
Martínez alegou que Zapatero foi sendo informado de todas as etapas do processo e que, em 26 de fevereiro de 2021, comunicou que a SEPI iria aprovar o financiamento, poucos dias antes da aprovação formal da ajuda pelo FASEE e, posteriormente, pelo Conselho de Ministros espanhol.
O requerimento refere ainda que a Plus Ultra assinou, em julho de 2020, um contrato mensal de cinco mil euros com a Análisis Relevante, mas sustenta que os honorários correspondiam, na prática, ao trabalho de consultoria que Zapatero prestava desde maio desse ano. O documento menciona igualmente um segundo contrato que previa o pagamento de uma comissão correspondente a 1% do financiamento obtido (cerca de 530 mil euros) como remuneração pelos serviços prestados e pelo sucesso da operação junto da SEPI. Porém, devido à pressão mediática em torno do financiamento público à companhia aérea, ficou combinado adiar o pagamento dessas quantias até 2026.
Também a Plus Ultra entregou um requerimento no tribunal em que manifesta “a intenção de prestar a máxima colaboração na averiguação dos factos”, especialmente no que respeita aos antigos administradores investigados. A companhia anunciou igualmente a abertura de uma investigação interna para verificar “qualquer eventual falha de controlo” e informou que comunicará os respetivos resultados ao juiz responsável pelo processo.
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