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Presidente Seguro esteve de prontidão no fim de semana, mas AD protege ministros e não prevê saídas

Fernando Alexandre está de pedra e cal no Governo. Luís Neves é protegido e o desejo é que fique, embora se desconheça o impacto de novas peças jornalísticas. Seguro continua "muito atento" a tudo.

Rui Pedro Antunes
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O evento não chegou a entrar na agenda oficial, mas o Presidente da República foi convidado e chegou a ponderar ir à Bienal de Arte em Vila Nova da Cerveira, no Alto Minho. António José Seguro preferiu, no entanto, ficar perto de Lisboa, de prontidão, para qualquer eventualidade, tendo em conta a instabilidade nas tutelas da Educação e da Administração Interna. Apesar disso, no Governo de Montenegro, sabe o Observador, nunca chegou a estar, nem está, em cima da mesa o afastamento de nenhum dos dois ministros. Além de uma certeza empírica: Luís Montenegro é avesso a remodelações governamentais.

Na AD há, no entanto, leituras diferentes sobre a situação dos dois ministros: Fernando Alexandre tem a confiança total do primeiro-ministro e está afastada a sua saída; Luís Neves também continua a ser protegido e o desejo do primeiro-ministro é de que se mantenha no cargo, mas as circunstâncias obrigam a uma postura de esperar para ver. Ninguém sabe onde vai parar aquilo que no Governo se entende como uma “campanha negra” contra Luís Neves. Mas no MAI não há dúvidas de que todo o Governo, a começar no primeiro-ministro, está ao lado do ministro.

Começando por Fernando Alexandre, Luís Montenegro mantém inalterado o que tem reiterado desde há uma semana: que a confiança no governante “não é uma questão”. O primeiro-ministro até saiu em defesa do seu ministro da Educação na segunda-feira da última semana quando disse estarem a existir “aproveitamentos que tentam exacerbar [as dificuldades]” e “desejar que as coisas corram mal” só para fragilizar o Governo. Na terça-feira, Montenegro denunciou também “algumas resistências” por parte dos professores ao processo de digitalização, ao mesmo tempo que prometia guardar as costas do ministro: “Eu coloco a minha cabeça no cepo. Eu digo aos meus colegas no Governo que não tenham receio de modernizar os serviços que tutelam, que não tenham receio de enfrentar as resistências que há dentro dos seus serviços”.

Fernando Alexandre já marcou uma nova fase de exames para setembro, o que significa que antes disso este processo não estará terminado. A convicção no seio da AD é de que, até lá, a polémica se vai esvaziar e o ministro da Educação pode continuar a fazer o “excelente trabalho” que tem feito até agora. Na AD lembra-se que “não há reformas sem dor” e há confiança quanto baste no ministro de que tem capacidades para ultrapassar a situação.

A defesa do ministro Luís Neves foi feita no debate quinzenal, quando Luís Montenegro repetiu duas vezes que mantém “plenamente, plenamente” a confiança no ministro. A notícia sobre o atrelado que estava apreendido pela Polícia Judiciária e que teria químicos no interior causou surpresa e mudou o rumo da história, mas não alterou a posição do núcleo duro de decisão da AD. Prova disso é que o líder parlamentar Hugo Soares, já depois dessa nova notícia, fez uma defesa intransigente do ministro na CNN Portugal: “Cabe agora à PJ explicar, mais até do que ao próprio ministro. A PJ abriu inquérito (e bem) com o Ministério Público. Não é melhor ser a PJ a dar a explicação, que é imparcial, quando tiver as justificações todas?”

Aquele que é informalmente e de facto o número dois do PSD levantava várias dúvidas, mas sempre a proteger Luís Neves: “Porque é que esse atrelado estava lá na empresa do construtor, sabe? Eu não sei. Vi outra notícia a dizer que a PJ tem uma guia e que o atrelado até foi acompanhado por uma escolta da PJ. Alguma razão teve de haver para isso. Para mim, as pessoas são sérias até prova em contrário“. E deixava ainda um desabafo que demonstrava a confiança que mantém em Luís Neves: “Se fossemos despedir ministros assim qualquer dia não há ninguém a ir para o Governo. Até agora, nada me diz que o comportamento não tenha sido o correto”.

A dúvida, a partir do momento em que há confiança do primeiro-ministro (reiterada por Hugo Soares), era se o próprio Luís Neves aguentaria a pressão. O Observador sabe, no entanto, que o ministro continua motivado para responder aos desafios do verão à frente da Administração Interna. Além disso, Luís Neves acredita que tudo vai ser cabalmente esclarecido no tempo próprio. Para ninguém no Governo faz sentido abdicar de “um bom ministro” quando se espera um verão severo em termos de incêndios florestais. No Executivo é lembrado como os vários setores com que lida (dos bombeiros às polícias) fazem rasgados elogios ao ministro. O que ninguém controla, também é lembrado ao Observador, são as investigações jornalísticas e o impacto que possam ter.

Presidente Seguro “muito atento”, mas (para já) só isso

Para a Presidência da República não houve nenhuma mudança de agenda que possa ter essa designação, até porque a bienal não chegou a estar na agenda oficial. É, aliás, desvalorizado o facto de Seguro ter preferido ficar perto de Lisboa. António José Seguro não fez nenhuma diligência, apesar de boatos (que não passaram disso, como confirmou o Observador) de que pretendia chamar Montenegro a Belém no fim de semana. Apesar disso, o Presidente manteve-se sempre atento à situação política. Além disso, é lembrado ao Observador que, se António José Seguro considerasse a situação mesmo grave, não iria viajar para Cabo Verde, onde estará nos próximos dias.

Ainda assim, o Presidente da República não deixou de, na sexta-feira, lembrar que o próprio Governo assumiu os erros cometidos nos exames nacionais ao dizer que “é reconhecido por todos que o processo de avaliação não correu bem” e que “onde deveria haver estabilidade existe ansiedade e preocupação por parte de alunos, de famílias e também de professores”.

Mais do que pressionar Fernando Alexandre, Seguro mostrou-se mais preocupado em que a questão fosse resolvida e que não se voltasse a repetir em 2027, ao dizer que é preciso “extrair conclusões para perceber o que se passou, mas fundamentalmente para evitar que no próximo ano ocorram situações desta natureza, que são a todos os títulos indesejáveis”.

O Presidente da República manteve, no entanto, margem para uma intervenção futura quando foi questionado se podia estar em causa o regular funcionamento do Governo. António José Seguro respondeu que “está sempre muito atento àquilo que se passa na vida nacional e que fala no momento certo e no local adequado”. O chefe de Estado está, no entanto, bem consciente dos seus deveres constitucionais. Em particular, que compete ao primeiro-ministro e não ao Presidente da República a composição do Governo. No limite, Seguro poderia ser chamado a pronunciar-se sobre um sucessor, já que tem o poder de lhe dar (ou não) posse. O que não está em cima da mesa já que, ao dia de hoje, não se prevê (nem se deseja no Governo) a saída de nenhum ministro.

[Já saiu o segundo episódio de “O Candidato Perfeito”. Em “Câmara Lenta”, José Valbom acorda num armazém, vigiado por homens que falam russo. Os inspetores seguem o rasto de um carro preto. A polícia aperta o cerco, mas o tempo está a esgotar-se. Este novo podcast de ficção do Observador, em parceria com a Coyote Vadio, é a continuação da história de “O Zé faz 25”. Conta com as vozes de José Raposo, Tiago Teotónio Pereira, Madalena Almeida, Vera Moura, Paulo Calatré, Susana Brandão, Sara Matos, Fábio Baptista, Pedro Laginha e Carla Andrino. Pode ouvir o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]