Marcelo Rebelo de Sousa ocupou durante 10 anos o cargo político mais bem remunerado do país, mas saiu do Palácio de Belém com menos de metade do património com que tomou posse em 2016. O Observador consultou a sua declaração de cessação das funções de Presidente da República, entregue em maio, na qual Marcelo declara quatro ativos financeiros com um valor total de 185 mil euros. Durante a sua primeira candidatura à Presidência, Marcelo declarou ao Tribunal Constitucional (TC) um património financeiro de aproximadamente 384 mil euros. Trata-se de uma diminuição de 51,8% ao longo de uma década como Chefe de Estado.
A desvalorização do património deveu-se principalmente à diminuição da sua remuneração enquanto esteve em Belém. No último ano completo enquanto Presidente da República (2025), Marcelo auferiu 157 mil euros anuais brutos, incluindo despesas de representação. Contudo, o seu salário foi sendo atualizado anualmente, sendo que no seu primeiro ano completo no cargo (2017), o salário anual rondava os 101 mil euros. Além disso, os salários dos políticos estiveram sujeitos a um corte de 5% aprovado durante a troika, até 2023.
Em Portugal, o Presidente da República é o político melhor remunerado do país e serve de referência ao rendimento dos restantes detentores de cargos políticos (por exemplo, o Presidente da Assembleia da República aufere 80% do valor do seu salário enquanto o primeiro-ministro recebe 75%). De qualquer maneira, Marcelo viu uma grande quebra de salário ao deixar a sua atividade profissional para se candidatar a Belém.
No último ano completo de atividade profissional privada (2014), Marcelo auferiu um total de 385 mil euros. Entre eles, 253 mil euros foram auferidos por trabalho independente (recibos verdes) e 132 mil euros em trabalho dependente. O ex-Presidente da República era, então, o comentador televisivo mais bem pago do país e continuava a trabalhar como professor catedrático de Direito, além de prestar serviços enquanto jurista.
Sem ter em conta a inflação, o salário do Presidente Marcelo em 2025 era 59% inferior ao salário do professor Marcelo em 2014. Se não tivesse assumido a Presidência em 2016 e tivesse mantido uma remuneração constante até hoje, Marcelo teria auferido em dez anos um total de 3,85 milhões de euros. Tomando por referência uma média entre os salários que auferiu em 2017 e 2025 (129 mil euros), Marcelo terá ganho um valor próximo dos 1,29 milhões de euros, no mesmo período. É uma diferença de mais de 2,5 milhões de euros.

Mantém o Mercedes com que fez campanha de 2021 e continua sem imóveis
A declaração de cessação de funções como Presidente da República, consultada pelo Observador após ser entregue por Marcelo em maio, mostra que atualmente tem duas contas bancárias à ordem, num valor total de 57 mil euros (54.334,57 euros e 2.409,56 euros), assim como duas carteiras de títulos num valor total de 128 mil euros (34.885,76 euros e 93.247,28 euros). Ao contrário das declarações anteriores, não é possível consultar quais os bancos em que Marcelo tem estes ativos nem qual o tipo de títulos financeiros de que se trata.
Somando tudo, conclui-se que Marcelo tem atualmente um património financeiro próximo dos 185 mil euros, enquanto antes de chegar a Belém esse valor se fixava nos 384 mil euros. De resto, o património de Marcelo resume-se a um automóvel: um Mercedes-Benz Classe A com matrícula de 2015, ao volante do qual fez sozinho parte da campanha eleitoral de 2021 como recandidato a Belém. Marcelo tem um histórico de alugueres de longa duração de automóveis, mas acabaria por comprar o Mercedes durante a sua Presidência.
O ex-Presidente da República não é dono de qualquer casa, continuando a preferir ser inquilino em vez de proprietário. Durante o seu primeiro mandato presidencial, Marcelo continuou a viver na sua casa de sempre no centro da vila de Cascais, onde tinha habitado nas três décadas anteriores. Devido à pandemia, a partir do início do segundo mandato, foi aconselhado a passar a dormir num quarto adaptado do Palácio de Belém — uma mudança que o seu fotógrafo oficial considerou um “erro” em entrevista ao Observador.
Desde março, voltou a ter como primeira habitação a casa de sempre em Cascais, sendo que, segundo o jornal Sol, esta necessitava de obras na cobertura, devido a infiltrações, para poder receber novamente Marcelo. Nos primeiros meses longe da vida política ativa, Marcelo não passou a declarar quaisquer participações sociais em empresas, algo que também não se verificava antes da sua eleição como Presidente da República.
Marcelo vai continuar a declarar património
Marcelo continua a ter assento no Conselho de Estado enquanto antigo Presidente e, por isso, mantém as obrigações declarativas dos respetivos membros à Entidade para a Transparência. No entanto, já anunciou que, a partir de agora, se dedicará a percorrer as escolas do ensino básico e secundário pelo país, dando aulas e promovendo os hábitos de leitura entre os mais jovens. Quanto a intervenções políticas, garantiu que entraria no “deserto eterno” a partir da tomada de posse de António José Seguro.
Entretanto, lançou o site Gabinete Marcelo Rebelo de Sousa, onde dá conta dos eventos em que participa oficialmente enquanto antigo Chefe de Estado. Desde que deixou a Presidência da República, a 9 de março, o gabinete de Marcelo já publicou 47 notas informativas no seu novo site, ou seja, mais de uma nota a cada três dias.
Entre as mensagens publicadas, encontram-se 45 curtas descrições de eventos em que participou e duas mensagens de homenagens a outros ex-Presidentes da República portugueses: uma para assinalar os 50 anos da eleição de António Ramalho Eanes e outra em que partilha a mensagem enviada a Aníbal Cavaco Silva para o parabenizar pelo recebimento da Ordem Europeia do Mérito.
O gabinete de Marcelo é sediado na Rua Vila Correia, em Belém, a cerca de 1,2 quilómetros de distância da entrada principal da residência oficial do Presidente da República. A antiga jornalista Maria João Ruela continua a acompanhar Marcelo, depois de dois mandatos como consultora e assessora em Belém, sendo agora a chefe do seu novo gabinete. A única outra funcionária do gabinete conhecida é a secretária Helena Maurício Rebelo.
À semelhança dos outros dois ex-Presidentes vivos, Marcelo tem ainda direito a um automóvel do Estado para uso pessoal, com condutor e combustível incluídos, e direito a ajudas de custo nas suas deslocações oficiais. Recebe também uma subvenção vitalícia no valor de 80% do salário do Presidente da República em funções.
[Já saiu o segundo episódio de “O Candidato Perfeito”. Em “Câmara Lenta”, José Valbom acorda num armazém, vigiado por homens que falam russo. Os inspetores seguem o rasto de um carro preto. A polícia aperta o cerco, mas o tempo está a esgotar-se. Este novo podcast de ficção do Observador, em parceria com a Coyote Vadio, é a continuação da história de “O Zé faz 25”. Conta com as vozes de José Raposo, Tiago Teotónio Pereira, Madalena Almeida, Vera Moura, Paulo Calatré, Susana Brandão, Sara Matos, Fábio Baptista, Pedro Laginha e Carla Andrino. Pode ouvir o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]
