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(A) :: E se fosse meu?

E se fosse meu?

Se víssemos o nosso pai em cada homem de sessenta anos, não conseguiríamos trabalhar. Se víssemos o nosso filho em cada criança, não conseguiríamos entrar numa sala de emergência.

Diana Pedreira
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Há uma altura da vida em que começamos a medir a idade dos doentes pela nossa. Ou pela dos nossos.

Hoje ventilámos um homem de quarenta e um anos. Quarenta e um. Não sei se vai sobreviver. Foi transferido para outro hospital e, até à última notícia que tive, continuava vivo. Espero que continue. Espero que um dia acorde. Espero que volte para casa e que eu nunca mais saiba nada dele, porque às vezes, na urgência, não voltar a saber de alguém é a melhor notícia que podemos receber. Mas não houve muito tempo para pensar nisso. Havia mais de cem doentes em perfil de urgência, dois assistentes de Medicina Interna, nenhuma vaga de internamento e uma porta que continuava aberta. Os doentes continuaram a chegar.

Horas depois, entrou um homem de sessenta anos com um AVC extenso. Autónomo. Independente. Fazia a vida dele. Mais novo do que os meus pais. E foi aí que surgiu aquele pensamento. E se fosse meu?

A certa altura, isto começa a acontecer-nos. Quando somos médicos muito novos, um doente de sessenta anos é um homem de sessenta anos. Depois envelhecemos. E os números começam a ganhar rostos. Sessenta anos é a idade dos nossos pais. Quarenta e um pode ser o nosso marido. Trinta e muitos somos nós. De repente, as macas deixam de transportar apenas doentes. Transportam possibilidades. Talvez seja por isso que precisamos tanto da distância.

Existe a ideia de que os profissionais de saúde se tornam insensíveis. Que aprendemos a falar da morte enquanto bebemos café. Que discutimos gasimetrias, prognósticos e doses de noradrenalina com uma frieza incompreensível para quem está do outro lado. Às vezes fazemos piadas. Às vezes rimos. Às vezes saímos de uma sala onde alguém acabou de morrer e perguntamos o que há para jantar. Pode parecer cruel. Mas não é ausência de sentimento. É um escudo.Porque não podemos permitir que todos sejam completamente nossos.

Se víssemos o nosso pai em cada homem de sessenta anos, não conseguiríamos trabalhar. Se víssemos o nosso filho em cada criança, não conseguiríamos entrar numa sala de emergência. Se víssemos a pessoa que amamos em cada corpo ligado a um ventilador, talvez não conseguíssemos ser nós a colocar o tubo. Por isso criamos uma distância. Pequena. A suficiente para conseguirmos pensar. Para decidir. Para continuar.

Mas nunca é uma distância perfeita. Há sempre qualquer coisa que atravessa o escudo. Uma idade. Um nome. Uma profissão. Uma fotografia pousada numa mesa de cabeceira. Uma filha que pergunta se o pai vai voltar a ser como era. E, por um segundo, aquele doente deixa de ser apenas um doente. É um bocadinho nosso. Talvez todos sejam.

Às quatro da manhã fui finalmente deitar-me. A urgência continuava cheia. Mais de cem pessoas continuavam lá em baixo, entre macas, cadeirões, corredores e salas de observação. Algumas esperavam há horas. Outras tinham chegado entretanto. O hospital continuava acordado. Eu podia dormir. Mas deixei o telefone de chefe de equipa ao lado da cama. Até às oito da manhã, a responsabilidade continuava a ser minha. Se houvesse uma paragem cardiorrespiratória. Uma via aérea difícil. Um doente que se deteriorasse. Uma decisão que ninguém soubesse como tomar. O telefone tocaria. É um objeto pequeno. Cabe na palma da mão. Cabe no bolso de uma bata. Mas há noites em que um telefone pesa mais do que um hospital inteiro. Porque, na verdade, leva-o lá dentro. Fechei os olhos sabendo que podia tocar a qualquer momento.  Talvez seja isto que fazemos durante grande parte da vida enquanto médicos. Aprendemos a dormir com o hospital ao lado. Aprendemos a criar distância suficiente para sobreviver às histórias dos outros. Aprendemos a acreditar que existe uma fronteira entre quem está de pé junto à maca e quem está deitado nela.

Mas sabemos que essa fronteira é provisória. Um dia será o nosso pai. A nossa mãe. A pessoa que amamos. Um dia seremos nós. E nesse dia, por muito que tenhamos estudado, por muitos doentes que tenhamos tratado, por muitas decisões difíceis que tenhamos tomado, haverá uma coisa para a qual a Medicina nunca conseguirá preparar-nos. Deixaremos de ser médicos. Seremos apenas filhos. Pais. Maridos. Mulheres. Família. E teremos de entregar alguém que é completamente nosso às mãos de alguém para quem ele será, inevitavelmente, apenas mais um doente.

Talvez seja por isso que, enquanto estamos deste lado, vale a pena nunca esquecer: para nós podem ser cem doentes numa urgência. Mas, para alguém, cada um deles é o único.