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(A) :: É preciso Bugalho ir a Fátima?

É preciso Bugalho ir a Fátima?

O problema não é um podcast, nem um convidado. O problema é o ambiente intelectual e pastoral que se foi instalando no Santuário e que acabou por deslocar o centro da sua missão.

João Paulo Vieira
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Fátima nunca foi um lugar neutro. Desde 1917, a sua existência assenta numa convicção simples: Deus falou ao mundo através de Nossa Senhora e confiou à Igreja uma mensagem para anunciar, não uma mensagem para reinterpretar ao sabor de cada época. É precisamente por isso que cada iniciativa promovida pelo Santuário levanta inevitavelmente uma pergunta: ajuda-nos a compreender melhor a mensagem de Fátima ou ajuda-nos, antes, a compreender melhor o mundo?

Em Fátima, a mesma cadeira recebeu José Manuel Pureza, Marta Temido, Paulo Rangel e Sebastião Bugalho. A questão não é saber o que os distingue politicamente. A questão é saber o que justifica que todos tenham sido escolhidos pelo Santuário de Fátima.

A resposta mais imediata parece simples. Política em Estado de Graça é um podcast sobre política. Sendo assim, é natural que os convidados sejam figuras da vida política ou do comentário político. A explicação parece suficiente. Mas talvez não seja, pois, a pergunta verdadeiramente importante não é quem foi convidado. A pergunta que me ecoa é outra: porque quis o Santuário de Fátima criar um podcast sobre política?

Responder a esta pergunta obriga a regressar ao essencial. O Santuário existe para anunciar a mensagem de Fátima. É essa a razão da sua existência e é a partir dela que todas as suas iniciativas, pastorais, culturais, académicas ou comunicativas, encontram o seu sentido.

Isto não significa que o Santuário deva fechar-se ao mundo ou recusar o diálogo com a cultura contemporânea. A Igreja sempre dialogou com a cultura e a mensagem de Fátima dirige-se precisamente aos homens do seu tempo e, por isso, também aos desafios do nosso. O problema não está no diálogo. O problema começa quando deixa de ser a mensagem de Fátima a iluminar a cultura contemporânea e passa a ser a cultura contemporânea a fornecer as categorias através das quais a mensagem de Fátima é apresentada.

Enquanto é a mensagem de Fátima que interpreta o mundo, o diálogo conserva o seu verdadeiro sentido. Mas quando é o mundo que passa a interpretar Fátima, altera-se inevitavelmente o critério. Não se trata apenas de uma mudança de linguagem ou de estilo. Muda o ponto de partida. E quando muda o ponto de partida, mudam também os temas, as perguntas e, inevitavelmente, os convidados.

Ao longo da sua história, Fátima conheceu diferentes formas de hostilidade e de instrumentalização. Nos primeiros anos, foi alvo da perseguição anticlerical da I República, que viu nas aparições uma ameaça ao projeto laicista que procurava impor ao país. Mais tarde, o Estado Novo procurou, em diversos momentos, associar-se ao fenómeno de Fátima e colher dele uma legitimidade política que não lhe pertencia. Em ambos os casos, porém, tratava-se de pressões exteriores. O Santuário permanecia, em princípio, como o lugar onde a autenticidade da mensagem era preservada.

É precisamente aqui que reside a diferença mais inquietante do momento presente. A questão já não é a pressão exercida por poderes exteriores sobre Fátima. A questão é a possibilidade de a própria mensagem começar a ser reinterpretada a partir do interior das estruturas encarregadas de a custodiar, estudar, celebrar e anunciar. Quando isto acontece, a desvirtuação deixa de ser uma pressão externa para se transformar num problema de identidade.

É neste contexto que ganha particular relevo o papel desempenhado pelo Departamento de Estudos, Cultura e Museologia. Não pelas suas competências formais, que pertencem naturalmente ao âmbito cultural, mas pela influência que a sua orientação parece hoje exercer muito para além desse domínio. A unidade de critérios que se reconhece na programação cultural, na comunicação institucional, na dimensão catequética e, por vezes, até na própria liturgia dificilmente pode ser entendida como mera coincidência. Tudo aponta para uma determinada compreensão da identidade e da missão de Fátima que, progressivamente, deixou de marcar apenas a atividade cultural para influenciar a forma como o próprio Santuário comunica, celebra e transmite a mensagem que lhe foi confiada.

Seria ingénuo olhar para este podcast como uma iniciativa isolada. Ele deve ser lido como a expressão mais recente dessa orientação. Não porque falar de política seja incompatível com Fátima. Não é. A mensagem de Nossa Senhora tem inevitáveis consequências para a vida social e política, porque antes de mais interpela a consciência de cada homem. Mas uma coisa é olhar para a política a partir de Fátima. Outra, muito diferente, é olhar para Fátima a partir das categorias políticas e culturais do presente.

E é neste contexto que importa olhar para os convidados.

José Manuel Pureza foi um dos defensores parlamentares da legalização da eutanásia. Marta Temido, enquanto eurodeputada, votou favoravelmente iniciativas e resoluções do Parlamento Europeu que promovem o acesso ao aborto. Paulo Rangel representa uma visão política diferente, mas também ele foi convidado sobretudo enquanto protagonista da vida pública e não por uma reflexão sobre a mensagem de Fátima.

Não está em causa o direito de qualquer um deles participar num podcast, nem sequer visitar Fátima, a dizer-se católico ou a beber da Mensagem. Fátima é para todos. O que está em causa é de outro âmbito: em que medida estas conversas serviram a missão própria do Santuário? Em que medida ajudaram o ouvinte a compreender melhor a mensagem de Nossa Senhora? Em que medida conduziram a conversa para aquilo que constitui a razão de ser daquele lugar?

Talvez tão significativo como esta mudança seja o silêncio que a acompanha. Seria de esperar que uma transformação desta natureza suscitasse um amplo discernimento eclesial. Porém, nem a Conferência Episcopal Portuguesa nem o Bispo de Leiria-Fátima parecem ter promovido esse debate. As poucas vozes que, pontualmente, deixam transparecer reservas acabam por desaparecer quase tão depressa como surgem. Um silêncio que, independentemente das suas razões, acaba inevitavelmente por favorecer a consolidação desta orientação.

E aqui surge novamente um paradoxo.

Entre todos os convidados, foi precisamente Sebastião Bugalho quem acabou por recentrar a conversa na identidade da Igreja e, por consequência, na identidade de Fátima.

Quando lhe foi sugerido que talvez a Igreja devesse mudar para responder melhor aos desafios atuais, respondeu: «Parece-me paradoxal nós acharmos que vamos atrair alguém para a nossa natureza alterando e modificando essa natureza.»

Noutra passagem, acrescentou: «Como é que eu posso pedir a algo que me salvou para que seja diferente?»

Independentemente das simpatias ou antipatias que cada um possa ter por Sebastião Bugalho, estas palavras tocam um ponto essencial. Uma instituição não permanece fiel à sua missão adaptando a sua identidade às expectativas do tempo. Permanece fiel precisamente porque guarda aquilo que recebeu.

Paradoxalmente, foi Sebastião Bugalho quem melhor recordou aquilo que distingue o Santuário de qualquer outro espaço público: a sua missão não consiste em adaptar-se ao mundo, mas em permanecer fiel àquilo que recebeu.

Talvez seja essa a verdadeira pergunta que Política em Estado de Graça acaba por deixar ao próprio Santuário de Fátima. Não se trata de saber se o Santuário pode falar de política. Pode. E, em determinadas circunstâncias, talvez até deva. A verdadeira questão é outra: a partir de que lugar fala?

O verdadeiro problema não é um podcast. Nem um convidado. Nem sequer um departamento. O problema é o ambiente intelectual e pastoral que, lentamente, se foi instalando no Santuário e que acabou por deslocar o centro da sua missão. Quando isso acontece, as iniciativas sucedem-se com uma coerência quase inevitável. Mudam os temas, mudam os convidados, muda a linguagem. Porque antes já tinha mudado o critério.

Fátima não precisa de ser reinventada. Precisa de voltar a ser anunciada. A sua força nunca esteve na capacidade de acompanhar as categorias culturais de cada época, mas na fidelidade a uma mensagem que sempre desafiou o seu tempo. Foi isso que lhe permitiu resistir à hostilidade da I República, às tentações de instrumentalização do Estado Novo e às inúmeras pressões que marcaram a sua história.

Talvez tenha chegado o momento de reconhecer que o desafio de hoje é diferente. Pela primeira vez, a desvirtuação da mensagem parece não vir de fora, mas de dentro. Não nasce da oposição à mensagem de Fátima, mas da forma como ela é compreendida, enquadrada e transmitida por aqueles a quem foi confiada a missão de a custodiar.

A verdadeira renovação de Fátima não passará por novos formatos, novos projetos ou novas estratégias de comunicação. Passará por recuperar um ambiente em que a mensagem de Nossa Senhora volte a ocupar, sem ambiguidades, o lugar de onde nunca deveria ter saído: o centro de tudo.

Fátima precisa de novos protagonistas. Não de protagonistas mais mediáticos, mais influentes ou mais sintonizados com o espírito do tempo. Precisa de protagonistas que compreendam que não receberam a missão de reinterpretar Fátima, mas de a guardar; não receberam a missão de a adaptar ao mundo, mas de anunciar ao mundo aquilo que a Igreja recebeu em 1917.

Porque um Santuário só permanece fiel à sua missão quando aqueles que o servem têm a humildade de reconhecer que a mensagem não lhes pertence. Foram chamados apenas a custodiar um tesouro que receberam. E talvez seja precisamente essa a renovação de que Fátima hoje mais necessita.