“Uma boneca sexual para César e, depois, uma mulher fatal para Marco António.” Era assim que os romanos viam Cleópatra, a poderosa rainha do Egito que dedicou a vida à luta pela independência do seu país e que, nessa demanda, conseguiu atrair para a sua causa dois dos homens mais influentes do seu tempo, Júlio César e Marco António — que tomou como amantes. Contudo, há muito mais na vida de Cleópatra do que a história dos seus amores, implacavelmente explorada pela propaganda romana, que a descreveu como uma ninfomaníaca, uma mulher corrompida e sem escrúpulos.
Em Cleópatra, livro recentemente publicado pela editora Guerra e Paz, o historiador francês Christian-Georges Schwentzel, especialista no período helenístico (após a morte de Alexandre, o Grande), revela o que as fontes romanas quiseram ocultar: que a última rainha do Egito, a derradeira de uma “prestigiosa linhagem” de influentes mulheres governantes, foi uma monarca dedicada, preocupada com o bem-estar dos seus súbditos e com o futuro do seu país. “Muito competente e muito inovadora”, entre as principais medidas introduzidas por Cleópatra destaca-se a criação do valor fiduciário da moeda, que, até ao seu reinado, não tinha marca de valor.
Numa entrevista concedida por email ao Observador, Christian-Georges Schwentzel defendeu que “Cleópatra foi realmente uma grande governante e política”, embora tenha sido transformada numa “caricatura” pelos romanos, e algumas das características que lhe foram associadas perduram até hoje no imaginário coletivo. Contudo, foi com essa tentativa romana de denegrir a imagem da rainha egípcia que nasceu o “mito” de Cleópatra, que Hollywood transformou numa superestrela, cuja fama não dá sinais de abrandar. Tal como afirmou Christian-Georges Schwentzel ao Observador: “Podemos dizer que [Cleópatra] continua prometida a um futuro brilhante”.

Cleópatra foi a última rainha da dinastia ptolemaica. Quem foram os Ptolomeus?
Cleópatra nasceu em 69 a.C., em Alexandria, capital do reino dos Ptolomeus, na costa mediterrânea do Egito. A cidade foi fundada por Alexandre, o Grande, o conquistador grego, três séculos antes [em 331 a.C.]. Após a morte de Alexandre, o poder no Egito passou para Ptolemeu, um oficial grego que se apoderou do título real e se tornou Ptolemeu I. Ptolemeu fundou a dinastia que reinou durante 300 anos sobre o Egito. Cleópatra, a sétima com esse nome, foi a última soberana dessa prestigiosa linhagem.
A dinastia ptolemaica é famosa pelas suas rainhas poderosas e destemidas. De que forma é que essas mulheres prepararam o caminho para Cleópatra VII e influenciaram o seu estilo de governação?
O que é muito original na dinastia ptolemaica é que as rainhas exerceram o poder político, e até militar, tanto quanto os reis. Antes de Cleópatra VII, houve várias grandes rainhas poderosas, como Arsinoé II, Berenice II, ou ainda Cleópatra I. Mas é a última soberana da dinastia que é, de longe, a mais célebre de todas as rainhas, e até mesmo de todas as mulheres, da Antiguidade.
Neste livro, quando aborda a questão da ascendência de Cleópatra, dá a entender que existem dúvidas. Porquê?
O que sabemos com certeza é que Cleópatra era filha de Ptolemeu XII, mas não sabemos se a mãe era Cleópatra VI, a esposa legítima de Ptolemeu XII [e sua irmã]. O geógrafo Estrabão afirma que Cleópatra era filha de uma simples concubina de Ptolemeu XII. É também de notar que, nas inscrições oficiais, nomeadamente nas paredes do templo que a rainha mandou erguer em Dendera, no Alto Egito, Cleópatra só se refere ao pai, Ptolemeu XII. Ela definiu-se como “aquela que ama o pai”. Aos seus olhos, apenas Ptolemeu contava. É difícil tirar conclusões do silêncio das inscrições, mas podemos ainda assim concluir que a mãe de Cleópatra não devia acrescentar valor, caso contrário, a rainha não teria deixado de a mencionar.
À semelhança de outras figuras não romanas célebres, a maior parte do que sabemos sobre Cleópatra baseia-se em autores romanos que seguiam o discurso oficial de Augusto. O que é que se sabe com certeza sobre a vida da rainha egípcia?
As únicas fontes literárias que foram conservadas fazem um relato negativo do reinado de Cleópatra, porque os seus autores são romanos, de língua grega ou latina, como Suetónio, Plutarco e Dião Cássico, que reproduziram o discurso oficial de Octávio, futuro imperador Augusto, que venceu a rainha na Batalha de Áccio [31 a.C.]. Cleópatra era desprezada pela sociedade patriarcal romana tanto por ser mulher como por ter sido derrotada [por Octávio]. Era uma anomalia e não fazia parte do grupo daqueles que tinham o privilégio de escrever a História. Os romanos inventaram e difundiram uma verdadeira caricatura de Cleópatra. Ela é retratada nas fontes como sendo obcecada por sexo. Era um “poço sem fundo”, segundo a expressão de Dião Cássio. Era como uma imensa vagina orgíaca que engolia tudo — homens, povos, territórios, pérolas, ouro, jóias… Felizmente, dispomos de outras fontes, que exploro no meu livro: os baixos‑relevos e as inscrições dos templos, as moedas e as estátuas encomendadas pela rainha, que nos mostram que Cleópatra reformou a economia do seu reino, combateu eficazmente a fome, mandou construir grandes edifícios e uma poderosa frota de guerra, e desempenhou um papel sacerdotal essencial durante as grandes cerimónias religiosas.
Contrariamente ao que era difundido pela propaganda romana, Cleópatra parece ter sido uma governante competente, interessada nos seus súbditos (supostamente sabia falar egípcio, ao contrário dos seus predecessores) e no destino do Egito. Além das iniciativas que referiu, que outras reformas foram levadas a cabo pela rainha?
Se acreditarmos nos autores romanos, Cleópatra não terá sido mais do que uma boneca sexual para César e, depois, uma mulher fatal para Marco António. Foi isso que a tradição histórico-literária herdou dos textos antigos. Na realidade, Cleópatra, com a sua inteligência de mulher de Estado, inspirou as reformas de César. Quanto a Marco António, foi ele próprio, através da sua própria incompetência, que arruinou a sua carreira política e militar. Não foi vítima do charme nefasto da rainha, como afirmam os autores romanos. Pelo contrário: Cleópatra foi uma vítima colateral dos erros estratégicos e dos fracassos do seu amante. A rainha tentou endireitar a economia do Egito impondo uma reforma monetária muito original, que lhe permitiu controlar os preços: fez aparecer marcas de valor nas moedas de bronze. Hoje estamos habituados a isso — a ver o valor nas nossas notas de Euro, que, na realidade, não são mais do que pedaços de papel —, mas essa não era a norma na época de Cleópatra. Ela inventou o valor fiduciário da moeda. A verdade é que podemos dizer que Cleópatra foi realmente uma grande governante e política, muito competente e muito inovadora.

Cleópatra surgia sempre associada à deusa Ísis. Quem era Ísis? E o que é que significava para a rainha?
Cleópatra não era apenas uma rainha — era também uma deusa viva, segundo o discurso oficial, em que política e religião estavam estreitamente ligadas. Apresenta‑se como a reencarnação terrestre da grande deusa egípcia Ísis, que garantia a fertilidade do reino e a felicidade dos seus súbditos. Era também confundida com Hathor, deusa da alegria, da dança, da embriaguez e da música, que era venerada no templo que Cleópatra mandou erguer em Dendera.
Hollywood introduziu a narrativa segundo a qual a relação de Cleópatra com Júlio César não passou de um passo bem calculado, enquanto Marco António foi verdadeiro caso de amor. Existe alguma evidência histórica que sustente essa visão?
Essa visão tem origem na obra de Plutarco. Foi depois retomada por Shakespeare, na peça António e Cleópatra, que, por sua vez, inspirou o cinema de Hollywood, nomeadamente o filme de [Joseph L.] Mankiewicz de 1963 [Cleópatra], no qual a rainha é interpretada por Elizabeth Taylor. Na realidade, a relação entre Cleópatra e os seus dois amantes romanos foi tanto amorosa como política. César e Marco António sentiam‑se lisonjeados por serem amantes de uma rainha que era tida como descendente de Alexandre, o Grande. Por seu turno, Cleópatra precisava do apoio deles para aumentar a sua autoridade no Oriente Próximo. Recebeu a ilha de Chipre de César e territórios na Síria, no Líbano e na Jordânia de Marco António.
Quando fala de Cesário, filho de Cleópatra e de Júlio César, refere que existiam dúvidas quanto à sua paternidade. Porquê?
Cleópatra queria reconstruir um poderoso império ptolemaico para seu próprio proveito, mas em parceria com Roma. Ela esperava que, no futuro, houvesse uma fusão entre o seu reino e o Império Romano, e o seu filho, Ptolemeu César, chamado Cesário (“Pequeno César”), era suscetível de herdar tanto o legado ptolemaico como o romano. No entanto, nunca saberemos se César era realmente pai de Cesário, porque seria necessário realizar testes de ADN. Seja como for, o que contava para os romanos daquela época era o reconhecimento da criança pelo pai. Ora, segundo o historiador latino Suetónio, César reconheceu Cesário como seu filho, pois Suetónio escreveu, na Vida do Divino Júlio, que “César aceitou que o filho que lhe havia nascido tivesse o seu nome”. César não reconheceu a sua paternidade legalmente, porque já era casado, mas reconheceu‑a biologicamente. Poderia, posteriormente, ter adotado Cesário como filho, seguindo uma prática corrente em Roma, mas morreu entretanto, assassinado nos Idos de Março de 44 a.C.
Cleópatra morreu em 30 a.C., depois de uma vida passada a tentar manter a independência do Egito. As fontes antigas dizem que se suicidou, mas referem que foi mordida por uma serpente. Quais são os factos relativos ao suicídio de Cleópatra? E como é que surgiu a história da serpente?
A morte de Cleópatra continua a ser um mistério. Recordemos o contexto em que ocorreu: Octávio, vitorioso, entra em Alexandria em agosto de 30 a.C.; Marco António suicida‑se, apunhalando‑se; Cleópatra é capturada por Octávio e colocada em prisão domiciliária no palácio; compreende rapidamente que o vencedor só a mantém viva para poder exibi‑la em Roma, arrastando‑a atrás do seu carro durante a cerimónia do Triunfo; decide então pôr termo à vida. É aqui que, segundo Plutarco, manda trazer uma serpente escondida no fundo de um cesto com figos. Os guardas romanos, colocados à entrada do seu quarto, inspeccionam o cesto, mas não descobrem o réptil. Cleópatra suicida‑se depois, deixando‑se morder pela serpente. Essa é a versão oficial da sua morte, nada inverosímil, pois Cleópatra conhecia as serpentes e os venenos, mas impossível de verificar.
O que aconteceu aos filhos de Cleópatra após a sua morte?
Cesário foi assassinado por Octávio porque era visto como um concorrente direto. Octávio não era mais do que sobrinho‑neto de César. As calúnias difundidas por Octávio contra Cleópatra tinham, aliás, também o objetivo de prejudicar Cesário, apresentado não como filho de César, mas como o “filho da rameira”. Por outro lado, os três filhos de Cleópatra e Marco António [os gémeos Alexandre Hélios e Cleópatra Selene e o seu irmão mais novo, Ptolemeu Filadelfo] não foram eliminados. Foram enviados para Roma, onde foram educados pela irmã de Octávio [Octávia, ex-mulher de Marco António].
A localização do túmulo de Cleópatra é desconhecida. Há alguma referência, nas fontes antigas, ao local de repouso dela e de Marco António? E o que pensa da hipótese proposta pela investigadora Kathleen Martínez, que acredita que se encontra algures nas ruínas de Taposiris Magna, nos arredores de Alexandria?
Plutarco é muito claro. Descreve o túmulo de Cleópatra como “uma torre de uma elevação e de uma suntuosidade espantosas”, situado em Alexandria, capital do reino, onde se encontrava também o mausoléu de Alexandre, o Grande, e os túmulos dos outros reis e rainhas da dinastia ptolemaica. Não há, portanto, qualquer razão para que o túmulo de Cleópatra se encontre em Taposiris Magna, a 40 quilómetros de Alexandria. A hipótese de Kathleen Martínez contradiz as práticas dos reis e rainhas ptolemaicos, todos enterrados em Alexandria.

A antiga Alexandria foi parcialmente destruída por um terramoto em 365, e a zona onde outrora se situava o palácio real encontra‑se hoje submersa. Nos últimos anos, foram realizadas algumas explorações arqueológicas subaquáticas nessa área. O que aprenderam os arqueólogos com essas expedições?
Não foi encontrado nenhum vestígio do túmulo de Cleópatra. Foram descobertos fragmentos de colunas e estátuas, provavelmente provenientes do palácio da rainha na ilha de Antirrhodos, que se situava no Grande Porto de Alexandria. Alguns desses fragmentos poderão também pertencer a um pequeno templo onde Cleópatra rezava a Ísis, erguido ao lado do palácio de Antirrhodos.
Se pudesse resolver um mistério em torno de Cleópatra, qual seria?
O grande mistério de Cleóptara é o da morte. O seu suicídio tornou‑se um verdadeiro fantasma que atravessou séculos na pintura, na escultura e no cinema. Gostaria de saber como é que realmente aconteceu.
Como explica no último capítulo do livro, Cleópatra tornou‑se um verdadeiro ícone. É um estatuto que não tem prazo?
Ao longo dos dois milénios que nos separam da morte da rainha, Cleópatra conheceu um destino póstumo excecional. A sua figura foi constantemente readaptada e reapropriada, em todos os estilos e em todas as artes, da pintura ao cinema, passando pela literatura, pela banda desenhada, pela publicidade e até pelos videojogos. Nenhuma outra figura feminina conheceu um destino comparável. Cleópatra é hoje uma verdadeira assombração planetária, uma mistura de charme, sexo, poder, morte, guerra e religião. Podemos dizer que continua prometida a um futuro brilhante.