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(A) :: Os 10 cêntimos de Bastiat algures num Ecoponto

Os 10 cêntimos de Bastiat algures num Ecoponto

Puseram dinheiro dentro dos ecopontos e a ordem espontânea fez o resto…

Jorge Coutinho de Miranda
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No Largo do Intendente, alguém estava dentro de um ecoponto. Não fui eu que vi, foi o presidente da junta, que se queixou. Outros descrevem uma caça ao lixo diária. A presidente da Misericórdia, Carla Almeida, acrescenta que nem todos são indigentes. Alguns andam bem vestidos.

Dez cêntimos são dez cêntimos.

A 10 de Abril, a ministra do Ambiente apresentou o Volta como uma reforma estrutural com impactos concretos e mensuráveis na vida dos cidadãos. Cento e cinquenta milhões de euros, dois mil e quinhentas máquinas, oito mil pontos de recolha, e a meta europeia dos 90% ali ao virar de 2029. Impactos mensuráveis?

Três meses depois, a Câmara de Lisboa confirma episódios em várias zonas da cidade, com impactos na higiene urbana, e admite não ter números concretos. Fizeram uma reforma que não conseguem medir. No Porto, a autarquia explica que os resíduos espalhados deixam de poder ser encaminhados como recolha seletiva e passam a indiferenciados, penalizando as métricas de reciclagem e acarretando custos acrescidos.

O sistema construído para subir as taxas de reciclagem está a baixá-las. Por escrito e admitido pelo próprio Estado.

Bastiat explicou isto em 1850 e nós continuamos a não perceber. O que se vê são 55,5 milhões de embalagens devolvidas, número que a gestora exibe com orgulho. O que não se vê é o ecoponto inteiro despromovido a indiferenciado por causa dessa garrafa, as equipas municipais extra, os fiscais reforçados, o tratamento mais caro. E também não se vê o tempo do cidadão, requisitado para prestar gratuitamente um serviço que a taxa de resíduos já lhe cobra.

Sowell descreveu o resto. A crise (falhamos as metas há décadas). A solução dos ungidos (a caução). Os resultados (contentores no chão). E a resposta: balanço globalmente muito positivo, fase inicial de implementação, período de adaptação expectável. A Deco, coitada, ainda explica que o problema é o consumidor não ter sido bem instruído. Nunca é o modelo que falha. É a realidade que ainda não se ajustou ao modelo.

Em 1996, num episódio de Seinfeld, o Kramer e o Newman passam vinte e dois minutos a fazer contas para levar garrafas de Nova Iorque até ao Michigan, onde o depósito é o dobro. Gasolina, portagens, volume, peso. A margem nunca dá, e cada tentativa de a fazer dar exige um esquema mais criativo, incluindo requisitar o camião dos correios. Dois argumentistas americanos perceberam em vinte e dois minutos o que cento e cinquenta milhões de euros de consultoria não perceberam: os incentivos são desenhados para o cidadão que o legislador imagina e capturados por quem o legislador nunca imaginou.

O Michigan não legislou a pensar no Newman. A senhora ministra não legislou a pensar em quem entra dentro do ecoponto.

A esquerda vê nisto vítimas a resgatar e a direita vê desordem a reprimir, mais fiscais, mais multas. Ambas querem agir sobre as pessoas.

O óbvio é que o incentivo ativou a ordem espontânea de Hayek: o preço funcionou.

Foi a única coisa que funcionou. Criaram um sinal de mercado e o mercado respondeu com precisão que nenhum plano conseguiu igualar, e com todo o tipo de gente, incluindo bem vestida. Não falhou a economia. Falhou o modelo mental de quem julgou que só responderia o cidadão de bata branca que tinham na cabeça.

Volta é o sistema mais eficiente alguma vez criado em Portugal, pena não fazer o que dizia.

¡Viva la Libertad, Carajo!