Isabel Moreira está sempre em movimento. É entre a entrega de uma amostra de um lado e a correção de uma costura do outro, ainda com a tesoura na mão, que faz uma pausa para recordar em poucos minutos os seus vários anos de percurso no mundo têxtil. Começou a trabalhar aos 15 anos, na confeção, e está hoje à frente da produção de amostras, coordenando todos os processos envolvidos para fazer uma peça. “Fiz o 9º ano e fui trabalhar”, conta. “Comecei em linha, ferro, máquina… Mas depois entusiasmei-me e quis aprender mais. Tirei um curso de modelagem. Aprendi confeção e o processo todo”, diz Isabel, que ainda esteve mais de três anos a conciliar o trabalho durante o dia com os estudos durante a noite. “Acho que é muito importante para saber como é que é confecionada uma peça, bem de raiz. Estudei essa parte toda”.


Fala alto, para a sua voz ser capaz de superar o barulho das máquinas, sempre a trabalhar. À sua frente são dezenas de outras mulheres a costurar e passar a ferro. Nas paredes, frases motivacionais, atribuídas a nomes que vão de Jesus Cristo a Charles Chaplin. “Bom mesmo é ir à luta com determinação, abraçar a vida e viver com paixão, perder com classe e vencer com ousadia, porque o mundo pertence a quem se atreve e a vida é muito para ser insignificante”, lê-se sobre uma parede de fios, bem ao lado do relógio. Estamos na Givachoice Garments, empresa têxtil de Paços de Ferreira, que começou em 2012, mas com uma equipa que já vinha de décadas no setor. A experiência levou a empresa a especializar-se no mercado de luxo — entre os clientes estão marcas como Dior, Carolina Herrera, Isabel Marant, Sézane ou Courrèges.
Há muito que fazer desde o momento em que uma fábrica recebe um pedido até ao produto final: das modelistas que criam a “engenharia” da roupa; passando pela construção da peça inteira na secção de amostras; seguindo para etapas como o corte, a distribuição e a costura; e depois há ainda o ferro e outros acabamentos. Isabel Moreira também já havia passado por outras fábricas e funções antes de chegar cá, em 2021. Nesta linha de produção, foi do ferro à construção, até assumir a coordenação da área. Aqui recebe as peças vindas da modelagem e do corte, para a confeção das amostras. “Tenho que ver todo o processo, o que é preciso melhorar, o que é preciso fazer para funcionar melhor na produção. E tenho que controlar, medir e acompanhar o processo todo”.
São 170 pessoas a trabalhar nesta instalação e outras 35 na segunda fábrica, menor, destinada àqueles trabalhos mais minuciosos. A maioria são mulheres portuguesas que vivem nos arredores, com idades a rondar os 40 anos, mas a empresa também emprega homens, e jovens na casa dos 20. “Temos pessoas que começaram cá dentro, não sabiam o que era uma máquina, começaram no corte de linhas no final da produção, foram evoluindo para uma posição e chegaram a chefes de linhas”, conta Ricardo Almeida, CEO da Givachoice Garments, que gere a empresa ao lado da mulher, Ana Almeida, e da sogra, Conceição Barbosa — que já vinha de uma longa carreira no setor.

Carla Sofia Cardoso trabalha no têxtil há 12 anos. Começou aos 19, como auxiliar no gabinete de modelação de uma empresa da região. “Na altura eu andava a fazer o 12º ano e não tinha pensado no que queria para o futuro”, conta a modelista, que recebe os desenhos e ideias dos designers e é responsável por criar os moldes técnicos para a confeção das peças de roupa. “Comecei a ganhar gosto. É um trabalho muito bonito, porque depois de vermos o produto pronto, compensa todo o stress”, desabafa, assumindo que para “desenvolver certos moldes”, sente a necessidade de “atualizar-se” através das semanas da moda. “Às vezes vêm modelos mais desafiantes e nós temos que tentar perceber como tornar viável”. Há cinco anos na Givachoice, trabalha a sete minutos de casa, das 8h às 17h, e diz que não se consegue ver a fazer outra coisa. “É difícil, é preciso gostar, mas depois de se entrar na área, torna-se um vício”.
A proximidade da fábrica é uma das prioridades para a empresa na hora da contratação. “Há falta de mão de obra, principalmente costureiras, especialmente porque não podem estar muito longe da geografia da fábrica. O custo do transporte hoje em dia é um peso considerável”, reconhece Ricardo Almeida, justificando que o requisito pode fazer a procura ser ainda mais difícil, num mercado que tem enfrentado várias crises nos últimos anos. “Tentamos fazer algum tipo de gestão de carreira aqui dentro. Se existe alguém que se destaca, tentamos prever para onde podemos movê-la, para cima na linha de produção. Para fidelizarmos as pessoas e para que saibam que têm futuro”.

Do ar condicionado aos salários: “A máxima é reter talento”
Em Paços de Ferreira, dos 56 mil habitantes, cerca de 4 mil trabalham na indústria têxtil, predominantemente mulheres. São 270 empresas que fazem deste setor o segundo maior do concelho, atrás apenas do mobiliário. Apesar de em 2025 a produção industrial têxtil e de vestuário ter caído 2,7% e as exportações terem descido 0,8%, num ano que registou o fecho de várias fábricas deixando centenas de pessoas no desemprego, ainda são cerca de seis mil empresas em todo o País a assegurar mais de 125 mil postos de trabalho. O cenário é paradoxal: os trabalhadores vivem dias de incerteza num setor a lutar para se manter estável; enquanto a indústria enfrenta a pressão da concorrência internacional e vê as encomendas reduzirem num ritmo inversamente proporcional aos custos. As empresas que resistem assumem a dificuldade em encontrar jovens que queiram trabalhar na área.
“Sinto no mercado, por colegas meus, que há alguma dificuldade”, assume Hélder Gonçalves, fundador da Spring Garment Experts, também em Paços de Ferreira. Na pequena empresa familiar especializada em camisas e vestidos de alta qualidade, e que produz exclusivamente para marcas de gama alta — cerca de 15 clientes franceses e escandinavos — são cerca de 25 pessoas na sede e outras 20 numa pequena fábrica nos arredores. A maioria das trabalhadoras tem entre 40 e 43 anos, e alguma experiência prévia. “Não sei até que ponto a nova geração quer ser costureira”, reconhece Gonçalves, que trabalha há mais de 20 anos com a mulher, Alexandra Carneiro, com quem está casado há 30 anos.

É o casal que apresenta as instalações inauguradas há quase um ano, um prédio com fachada de tijolos vermelhos com grandes janelas de vidro, que representa um investimento de 1,8 milhões de euros e uma aposta no crescimento da empresa. Aqui, o foco é receber clientes e desenvolver protótipos: as costureiras assumem o papel de artesãs, e cada uma produz uma peça do início ao fim. À entrada da sala de costura, Augusta Neto trabalha nos modelos. “É duro. Estou a fazer a parte dos moldes, é o começo. Mas depois normalmente também estou a ajudar as costureiras a organizar. É cansativo. Mas eu gosto muito”, conta a modelista, diante da mesa cheia de papéis e tesoura. “Temos o sistema no computador, mas eu faço tudo manual”, revela, sobre as etapas do trabalho. “O mais difícil é o que está a acontecer aqui neste modelo, em que o cliente não explica bem e nós temos que batalhar e experimentar até funcionar. Os designers são criadores e nós somos matemáticas”, brinca Augusta, que assume haver uma grande “troca” no trabalho ao lado de Diogo Miranda, o diretor criativo da A-Line, a marca própria da Spring Garment Experts.
“Trabalhei sempre no têxtil, mas fiz o curso já mais velha. E depois quando fui fazer o estágio, vim para cá e fiquei”, recorda Augusta Neto, que está há sete anos na Spring. Reconhece que “antigamente” as condições de trabalho no setor não eram das melhores, mas que as coisas estão a mudar. “Nós aqui estamos bem. Temos uma relação com os patrões quase como colegas de trabalho, podemos expor os nossos problemas. É um ambiente muito bom. Não sei se pelo facto de sermos menos — onde eu trabalhava antes eram muito mais pessoas e a gestão era diferente”.




Com o calor do lado de fora a alcançar os 40 graus (e o vapor dos ferros a funcionar), os empregados das duas fábricas de Paços de Ferreira trabalham num ambiente fresco, que ronda os 23 graus, e espaçoso — condições nem sempre observadas em outras confeções da região. “A palavra máxima hoje é reter talento. Precisamos de reter as pessoas boas. Para isso, as pessoas querem também ganhar bem — nós aqui não pagamos salário mínimo a ninguém já há muitos anos, pagamos sempre acima do salário mínimo — mas também querem boas condições físicas, um seguro de saúde privado”, destaca Hélder Gonçalves. “Também trabalhamos muito com proximidade. Todas as pessoas da empresa moram perto, o que lhes permite também ter qualidade de vida”, ressalta.
Permanecer pequeno, investir em certificações e focar em clientes de luxo
Medidas que, em conjunto com outras ações da empresa, resultaram na conquista da certificação B Corp em janeiro de 2023. Atualmente há 40 empresas em Portugal que possuem o selo global, atribuído de acordo com rigorosos padrões de desempenho social e ambiental, transparência e responsabilidade; que consideram os impactos não só para os clientes mas para os trabalhadores, a comunidade e o meio ambiente. “Dá uma garantia ao cliente de que está a trabalhar com um parceiro de confiança em todos os níveis de qualidade e respeito”, assinala Hélder Gonçalves, que reconhece que a certificação também atrai clientes mais qualificados. “Há uma rede de contactos. A partir do momento em que nos apresentamos como B Corp, vendemos mais”, garante.
Também a Givachoice investiu em certificações de sustentabilidade, como GOTS, OCS e RCS, especialmente depois da pandemia de Covid-19, um período difícil para a indústria, que teve de se adaptar às mudanças do mercado. “Nós nunca deixámos de fazer o que fazemos. Preferimos abrandar e continuar a trabalhar no luxo”, explica Ricardo Almeida, que recorda que muitas empresas optaram por produzir equipamentos de proteção individual para se sustentar, primando pela quantidade acima da qualidade. “Uma massa produtiva que está educada a ser de qualidade, se passar por esse mundo é muito difícil voltar atrás”, considera.
A estratégia deu resultados, e de uma faturação de 8 milhões a empresa subiu para 17 milhões em 2023. “Logo após a Covid aumentámos as certificações”, diz, afirmando ser uma exigência dos clientes, mas também uma forma de “educar internamente” os processos da empresa. “Ajuda-nos a ser ainda mais profissionais”, destaca o CEO da Givachoice, que trabalha apenas com clientes estrangeiros. “Somos uma indústria mais flexível, mais parceira”, considera, sobre o potencial de competição internacional de Portugal frente a outras indústrias. “Produzir em Portugal não é barato, mas acrescem muitas vezes outras qualidades que não é possível ter em outras geografias: seriedade, cumprimento de prazos, não há tanta oscilação entre uma peça perfeita e com defeitos, que são pequenos. Somos mais fiáveis”.
Ordenados base acima do mínimo, ar condicionado e progressão de carreira para atrair e reter mão de obra; certificações internacionais para melhorar a qualidade e chegar a clientes que pagam mais. É num caminho de investimento controlado que as duas fábricas seguem, na contramão da crise. O CEO da Givachoice, que faturou 13 milhões de euros em 2025, acredita que ainda há espaço para crescer, confiando que “ao atingir a velocidade de cruzeiro podemos chegar aos 15”, tal como já fizeram em anos anteriores. Contudo, é mais cauteloso em relação à estrutura e pessoal. “Acho que para Portugal, passa muito também pela criação de maior valor e marca”, considera Ricardo Almeida, questionado sobre como o setor se pode desenvolver mais.
Hélder Gonçalves, da Spring Garment Experts, também assume que “crescer um bocadinho mais a nível de faturação não fazia mal”, mas descarta aumentar a equipa. A empresa fechou 2025 com uma faturação de 6,5 milhões, e em três anos espera alcançar, no máximo, 10 milhões, mantendo a mesma estrutura, e apostando nas medidas de retenção de talentos. Sobre as dificuldades de mão de obra no setor, considera que “o ideal era fazer formação de gente nova“, apesar de ter dúvidas sobre o interesse dos mais jovens na carreira. “Em último caso vamos ter que importar mão de obra especializada. Há sítios no Paquistão e na Índia, em que são os homens que costuram. Já há fábricas em Barcelos que têm homens a costurar. Um dia vamos ter que falar disso”.
O Observador visitou as fábricas a convite do Portugal Fashion.











