Há quem diga que a comparação entre Europa e Estados Unidos da América é uma questão de gosto pessoal, como escolher entre vinho tinto ou branco. Mas será mesmo? Quando Nicolai Tangen, o gestor do maior fundo soberano do mundo, afirmou que os europeus têm menos ambição que os americanos porque trabalham menos, tocou num nervo exposto da nossa identidade coletiva. Será que trabalhar menos é sinónimo de falta de ambição, ou será que os americanos, no frenesim das 1811 horas anuais, simplesmente esqueceram para que serve o dinheiro?
A verdade é que os números não mentem, embora contem histórias diferentes. O trabalhador americano médio labora cerca de 300 horas a mais por ano do que o seu homólogo europeu. A produtividade por hora é superior nos EUA, e os rendimentos refletem isso. Mas aqui começa a primeira pergunta incómoda: para que serve essa riqueza extra se os espanhóis, mais pobres, note-se, vivem em média até aos 83 anos, enquanto os americanos morrem aos 77,5? Mesmo os mais ricos nos EUA não vivem mais do que os ricos britânicos. O dinheiro compra muita coisa, mas não compra tempo de vida.
E não é só a longevidade. No World Happiness Report, os EUA ocupam o 23.º lugar, enquanto os países nórdicos lideram o pódio. Não é coincidência. O modelo europeu, com as suas semanas de férias generosas, horários mais humanos e Estados sociais mais robustos, produz sociedades mais felizes. Os americanos, aprisionados num sistema onde o seguro de saúde está atado ao emprego e onde metade dos trabalhadores apenas aparecem no escritório desejando não estar ali, pagam um preço psicológico elevado pela prosperidade material.
Há ainda um argumento que costuma ser ignorado neste debate: a sustentabilidade. O modelo americano de consumo voraz, mais carros, mais ar condicionado, mais de tudo, traduz-se em 13,3 toneladas de CO2 per capita, mais do dobro do europeu. E ironicamente, apesar de toda essa riqueza gerada, a dívida pública dos EUA ronda os 123% do PIB, quase o dobro da alemã. Trabalhar mais para consumir mais, endividar o Estado e destruir o planeta não parece um modelo de ambição. Parece, antes, uma armadilha.
Claro que os americanos têm um trunfo indiscutível: a inovação. O Google, a Tesla, o Facebook, o mundo precisa da criatividade desimpedida do mercado americano. Como escreveu Simon Kuper no Financial Times, talvez a economia global precise dos EUA, desde que não seja necessário viver lá. É um veredicto cruel, mas justo.
Em Portugal, onde o debate sobre o tempo de trabalho e a qualidade de vida ganha força, esta discussão é particularmente relevante. Não precisamos de invejar o modelo americano de grandes prémios para quem fica no topo e grandes punições para quem fica no fundo. A nossa tradição mediterrânica, aliada à influência nórdica no desenho do Estado social, oferece-nos uma terceira via: trabalhar o suficiente para viver bem, não viver para trabalhar.
No fundo, a questão não é se os europeus são menos ambiciosos. É se soubemos, ao longo de décadas, que a verdadeira ambição não é acumular riqueza, mas acumular vida. E nesse balanço, a Europa, apesar de todos os seus defeitos e contradições, ainda sabe fazer contas melhor que o lado atlântico do mundo. O dinheiro é útil, mas o tempo é finito. E quando o relógio pára, ninguém pede para ver o extrato bancário.