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O inimigo que não desfila

Enquanto a Europa rearma, um relatório dos serviços de informações britânicos avisa que o colapso dos ecossistemas pode tornar-se questão de segurança nacional dentro de poucos anos.

Antero Carvalho
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Napoleão terá dito que um exército marcha sobre o estômago. A 15 de julho, um relatório de catorze páginas do Joint Intelligence Committee britânico, o órgão que coordena as informações de Sua Majestade, devolveu a máxima ao século XXI: o declínio global dos ecossistemas pode tornar-se, dentro de «poucos anos», uma questão de segurança nacional, com escassez alimentar, subida de preços, instabilidade política e, no limite, conflito armado. O aviso não veio de um manifesto ambiental nem de uma cimeira do clima. Veio de quem tem por ofício antecipar guerras. E chegou na semana em que uma cúpula de calor voltou a instalar-se sobre a Europa ocidental, com temperaturas doze a dezasseis graus acima do normal para meados de julho, em que as chamas entraram na floresta de Fontainebleau, a sessenta quilómetros de Paris, em que um incêndio consumiu sete mil hectares em Almería e em que a Bélgica registou o preço de eletricidade mais alto de sempre num intervalo de quinze minutos, acima de mil euros por megawatt-hora.

Há qualquer coisa de profundamente irónico neste cruzamento. A Europa vive o mais ambicioso ciclo de rearmamento em décadas, discute percentagens do produto interno bruto para a defesa, reorganiza indústrias e orçamentos em nome da dissuasão. E faz bem. Mas enquanto conta mísseis, o relatório britânico lembra que a intendência, essa função humilde que Napoleão considerava decisiva, se está a degradar à vista de todos: solos, água, polinizadores, pescarias, estações previsíveis. Armamos a muralha e deixamos apodrecer o celeiro.

A segurança treinada para ver fardas

As doutrinas de segurança foram desenhadas para inimigos que desfilam: exércitos, frotas, arsenais, bandeiras. Um ecossistema não desfila. Não invade, não ameaça, não negoceia. Limita-se a desistir, devagar primeiro e depois de repente, e quando desiste não há dissuasão que o traga de volta à mesa. A linguagem do relatório britânico é notável precisamente porque traduz para o vocabulário da segurança aquilo que a ciência repete há décadas: o colapso ecológico não é um problema ambiental com consequências económicas, é um risco sistémico com consequências geopolíticas. A escassez desloca populações, a fome derruba governos, a competição por alimentos e água redesenha alianças. A história, de resto, é menos original do que parece: as civilizações raramente caem pela muralha antes de caírem pelo celeiro. Roma alimentou a sua política durante séculos com o trigo do Egipto; quando as rotas falharam, nem as suas bem organizadas legiões bastaram.

O que o relatório acrescenta é a velocidade. Não fala de um horizonte confortavelmente distante, fala de poucos anos. E fala de um país, o Reino Unido, que admite não conseguir alimentar a sua população com as dietas atuais se as cadeias de abastecimento globais falharem. Quando um Estado com aquela profundidade financeira e diplomática escreve isto nos seus documentos de informações, a pergunta óbvia é o que escreveriam os serviços dos países que importam ainda mais do que ele.

A aritmética da despensa europeia

A União Europeia habituou-se a pensar-se como potência agrícola, e é-o nas estatísticas de exportação. Mas a contabilidade fina é menos tranquilizadora: dependemos de proteína vegetal importada para alimentar o nosso gado, de fertilizantes cuja produção é intensiva em gás, de rotas marítimas que atravessam zonas de conflito e de colheitas em países terceiros cuja estabilidade climática já ninguém garante. O risco que os modelos apontam não é a quebra isolada de uma colheita, é a quebra sincronizada de várias, quando a mesma anomalia atmosférica atinge em simultâneo os grandes celeiros do planeta. Os mercados já ensaiam o aviso: o recorde belga desta semana mostra o que acontece a um sistema em stress quando a procura dispara e a rede opera no limite. Substitua-se eletricidade por trigo e a mecânica é a mesma, com a diferença de que não há bateria que armazene pão.

Há, além disso, um paradoxo europeu por resolver. Fomos capazes de construir uma arquitetura regulatória sofisticada para a floresta dos outros, o regulamento da desflorestação obriga quem exporta para o mercado europeu a provar a origem do que vende, e fizemos bem. Falta aplicar a mesma seriedade à nossa própria base ecológica: aos solos que perdem matéria orgânica, aos aquíferos sobre explorados, à biodiversidade que sustenta as colheitas. As transições gémeas, a climática e a digital, ocupam as agendas; a transição alimentar, que sustenta ambas, continua a ser tratada como assunto sectorial da política agrícola, quando é, cada vez mais claramente, política de segurança.

Portugal e a doutrina da despensa

Portugal devia ler o relatório britânico como se fosse seu. O nosso grau de autoaprovisionamento em cereais ronda um quinto do consumo, um dos mais baixos da União; a seca estrutural avança no interior e no sul; os incêndios convertem em horas o capital natural de décadas. Ao mesmo tempo, temos ativos que outros invejam: o montado e os sistemas agro-silvo-pastoris, uma zona económica exclusiva imensa, o regadio de Alqueva, um regime solar que pode tornar a dessalinização uma opção e não uma utopia. A pergunta é se tratamos este património como infraestrutura crítica ou apenas como paisagem.

Discutimos, com razão, quantos pontos percentuais do produto dedicamos à defesa. Falta acrescentar à mesma conversa o solo, a água e o alimento, porque a soberania estratégica de um país mede-se também pela capacidade de pôr o jantar na mesa num ano mau. Isso implica coisas concretas: reservas e capacidade de armazenamento pensadas para choques prolongados, água tratada como ativo de segurança e não apenas como fator de produção, política de solos com metas verificáveis, e planeamento civil de emergência que inclua o abastecimento alimentar com a mesma naturalidade com que inclui os combustíveis.

O ensinamento que este julho nos oferece é desconfortável, mas útil. Os serviços de informações de uma potência nuclear acabam de escrever que o inimigo mais provável não desfila, não iça bandeira e não assina tratados: é a erosão silenciosa da base material que nos alimenta. Continuar a definir segurança apenas pelo que se abate ou dissuade é preparar, com esmero, a guerra errada. Um país que não sabe o que janta amanhã não é soberano, por mais mísseis que aponte ao céu. A defesa da Europa começa, literalmente, pelo princípio: pela terra que dá de comer a quem a defende.