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O futebol, catedrais e capelinhas

Para que serve o desporto, para que serviu quase desde sempre? Que limites de absurdo e falsidade estão a ser ultrapassados?

Vieira Barbosa
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Desde há alguns dias que vinha a tornar-se obrigatório ver na televisão o jogo de futebol entre a Argentina e a Inglaterra. Era uma das meias-finais, é o campeonato do mundo, já não restava mais nada para ver depois do Brasil e Portugal terem errado o caminho para o título. E seria mais um, o mais promissor de uma irascível fila de confrontos entre os dois países – disputados em terra, no mar, no ar e na relva.

O espectáculo foi assustador. 

As crónicas oficiais vão dizer, disseram, o contrário – com as necessárias variações de estilo e verve, contaminações tribais e contraofensivas box-to-box – mas todas salientando a magnificência do espectáculo, a magia, os jogadores que estiveram ao seu melhor nível, um pormenor estatístico assombroso e outras lantejoulas.

O que muitas pessoas puderam ver foi outra coisa. Não todas, apenas as que não se encontravam em nenhuma das condições explicitadas a seguir:

– Cegueira, mais frequentemente por exaustão adquirida em anos de apego aos écrans, aos pequenos números das camisolas e na descriminação dos centímetros que separam uma desmarcação magistral de um off-side

– Antolhamento, uma condição imposta ao gado muar na sua versão normal ou nos dois extremos de que procede, cavalar e asinino. Permite a limitação do espectro de cores a uma única – vermelho, azul, verde, fúcsia… – e a transmutação das espécies – o reconhecimento de uma águia num galinha coxa, de um dragão numa sardanisca, de um leão num gatinho de colo. Nos casos mais bem sucedidos é capaz de discernir em cada cepo um mago da bola. É assumida com orgulho e, ao contrário do que acontece com os espécimes originais, pode andar à roda durante anos sem a contrapartida de um fardo de palha

– Fideísmo, uma submissão alternativa à vida monacal mas, como aquela, proporcionando uma distância aconchegante das contrariedades mundanas. Não convive com a razão, mesmo que proclamada pelo VAR e por repetições das jogadas frame a frame e de vários ângulos. Aceita celebrações de outros credos – catolicismo, marxismo-leninismo, ciclismo… – desde que não coincidam com nenhum jogo de futebol

– Alienação, o percurso bem-aventurado desde casa e dos seus casos pequenos até ao estádio e às suas grandes questões. Coloca os filhos, as dívidas e a imigração no sítio dos pormenores e transforma um derrube dentro da grande área num arranha-céus que cai em Kiev

– Irrequietude social, um estado de predisposição ao motim que nem sempre pode ser vazado numa marcha pela paz – porque nem todas as semanas as há – mas que pode ser fundido com harmonia em manifestações de sadia exaltação clubística. Tem outras designações, mas de uso condicionado, assim como é vedada a identificação dos seus protagonistas mais activos

– Falta de educação, falta de maneiras, mau-gosto. São atributos iguais na sua essência, apenas diferentes no potencial de espalharem pelos estádios um perfume de vulgaridade e transpiração

Se alguém viu o jogo Argentina-Inglaterra sem que alguma, algumas ou todas as condições atrás referidas o protegessem, veria outra coisa.

Os hinos dos dois países foram vividos como fanfarras de guerra, foram berrados pelos jogadores com dramatismos de doido. As câmaras mostravam de perto as faces e os trejeitos, os olhos faiscavam, arremessavam lume e cinza como se aguardassem numa viela a hora de empunhar a faca. Não se percebia neles a vontade do fair-play, mas impiedade e gumes. O jogo que ainda não era (ou seria já o jogo…), principiou assim. Com manifestações bravias de patriotismo acometendo-se com fúria. Meia multidão ululou, cantou e esperneou enquanto a outra meia multidão se opunha com ululações, gritaria e esperneamentos adversos. Os que tinham ocupado as Maldivas iam defrontar os que reocuparam as Falkland. Acreditava-se que a organização americana teria feito a desminagem completa do relvado e que a cobertura do estádio obstaria a que o círculo central se tornasse num alvo para um Hawker Harrier. Tudo isso devia ter acalmado todos, permitido o início do encontro e o seu transcurso pacífico em direcção ao fim do tempo regulamentar mais os minutos que o árbitro entendesse conceder. Mas não acalmaram nem permitiram.

Os primeiros embates foram de uma dureza inexplicável. De uma dureza e gratuitidade que seriam inexplicáveis se a partida fosse entre uma equipa das Doroteias e outra do Colégio de Santa Teresinha. Mas o jogo era entre a Inglaterra e Argentina, conjuntos muito evoluídos tecnicamente e na abominação mútua. Durante longos minutos os jogadores não se fintavam, queriam intimidar. Sempre que se prestavam a cortar uma bola queriam parecer inexpugnáveis, para que ninguém se atrevesse. Foram muito maus aqueles 22 predestinados da bola. O árbitro, que não pontapeou ninguém e não sorriu com maldade, foi o único em campo que teve essas preocupações.

Naquele ambiente de cortar à faca o árbitro chamou os jogadores várias vezes, supõe-se que para lhes pedir calma e maneiras melhores, foi paciente. Mas só o cansaço – e mais tarde o facto de os jogadores terem sido possuídos pelos mecanismos ditos técnico-tácticos, essa segunda natureza que os domina – permitiram na primeira parte algumas jogadas de belo efeito. Por causa do belo efeito os especialistas em futebol consideraram que estava a ser uma partida emotiva, porque são especialistas e conseguem ver coisas que ninguém vê. Na verdade tinha sido um espectáculo feio.

A segunda parte trouxe mais jogadas bem desenhadas e outros lances de belo efeito. Mas também outras facetas próprias dos exércitos: obediência à táctica, empolgamento, envolvimento das reservas e, depois, o sorriso dos deuses. A resignação dos vencidos apaziguou os vencedores e tudo acabou com cada um em seu canto, como se tudo tivesse acabado em bem.

Isto foi o que aconteceu dentro do campo: futebol, luta, desleal sempre que necessário, entrega, superação, quedas, por rasteira ou sopramento, e muita emoção. A emoção, contaminante dos grandes ajuntamentos humanos, foi o mais salientado.

Nas bancadas e camarotes o espectáculo era outro e parecia o mesmo. Não havia menos empolgamento nem menos empurrões, uma alma de animal feroz transparecia de cada rosto que se arreganhava para as televisões. A expressão das emoções era mais vibrante porque ninguém pagou àquelas dezenas de milhares de pessoas o esforço de se portarem bem, atingia paroxismos de desvairamento, fundiam-se na mesma alucinação o amor e o ódio, babavam-se, perdigotavam, os olhos imobilizavam-se nos longos minutos que precediam a marcação de um livre perigoso. Nos golos apropriados os arrancos de felicidade percorriam os adeptos que levantavam os braços e davam socos no ar. Agarravam-se uns aos outros nos momentos de perigo, urravam e adivinhavam-se palavrões nas bocas abertas em gritos extasiados, os olhos desorbitavam-se, os que estavam suficientemente perto desafiavam as objectivas com expressões implacáveis e dizimadoras. Lágrimas, incredulidade e caras de enterro viviam modestamente, ao lado – porque a desilusão acalma – aquando do golo inimigo. Estavam ali pela pátria mas aquilo, por norma uma falha no processo defensivo por culpa do número 6 que não atacou o portador da bola, era muito mais grave que uma violação de fronteiras.

De novo os olhares especializados viram na multidão o arrebatamento e a magia do futebol. Podiam existir momentos comparáveis, mas seriam também no futebol, num qualquer ano pregresso, nem todos eram nascidos. A entrega do povo aos seus ídolos era de molde a comover, estava a levar a rouquidão às gargantas de quem tinha o privilégio de comentar para os senhores telespectadores aqueles momentos únicos. Em baixo, na arena rectangular e não oval, que não era arena porque a relva substituíra a areia, os gladiadores levavam-se aos limites. Tal como na Roma antiga eram também as suas vidas que estavam em jogo, porque não é vida subsistir com menos de 10 milhões por ano e o mundial é uma montra. Mais em cima, nos camarotes reservados, eram recolhidas a espaços imagens de proprietários, lanistas e centuriões. Sem eles não haveria circo.

O futebol tornou-se um ponto de encontro de honras e despeitos. Nos campos de futebol persiste a tradição de haver uma bola para dar chutos embora, realmente, os que andam atrás dela sejam cães de guerra pagos para não desistirem. Trocam de exércitos como lansquenetes, mudam de amores como Henrique VIII, jogam em nome das multidões que não têm jeito para o futebol e a quem falta determinação para ferirem as canelas inimigas. A chamada paixão do futebol é paga, não existe enquanto compromisso afectivo. As multidões forcejam e entregam-se a transportes místicos, têm a ilusão de que um avançado ou um trinco pago a peso de ouro é da equipa que idolatram, querem ignorar que qualquer um deles pretende apenas ganhar uma fortuna – mil vezes mais do que qualquer um dos seus admiradores, os que desfalecem de paixão à boca da baliza e se deviam envergonhar das figuras que fazem.

O futebol é um negócio. São um negócio as inúmeras modalidades que se profissionalizaram e servem um público ávido de causas e de emoções. Os recintos de desporto são palcos circenses para onde os lanistas e contratadeiros convocam os melhores gladiadores da Gália, da Trácia e da Germânia – e já era assim – mas também das terras descobertas pelo Cabral, pelo Cortez e, sobretudo, da imensa e desgraçada África.

É estranho, deixa interrogações, comparar a composição de uma equipa de futebol de um país ocidental com a composição das suas orquestras clássicas ou das suas sociedades científicas. Ou entre aquilo que já foram com o que agora são. Assim como é estranho e deixa interrogações ver uma coluna de 20 homens negros correndo à volta de uma pista até ao fim dos 10 mil metros que lhes impuseram, como se fossem forçados ou eleitos, enquanto nas bancadas protegidas do sol e da chuva algumas dezenas de milhares de brancos os incitam e empurram para o esforço máximo. Não é estranho, mas deixa interrogações, verificar que o desporto se tornou um elevador social tão poderoso e tão perigoso – pelas suas precariedades, porque é selectivo de qualidades menores que só um público menor elevou ao endeusamento, porque vive de emoções descontroladas e se governa por lucros fabulosos, porque não vai muito alto e abandona no esquecimento aqueles que teve um dia nos últimos degraus da fama.

Para que serve o desporto, para que serviu quase desde sempre? Que limites de absurdo e falsidade estão a ser ultrapassados? Para onde é que os donos da bola estão a encaminhar as pessoas como carneiros – 90 anos passados sobre os jogos em que Hitler quis celebrar a raça ariana, depois da RDA ter cultivado mulheres hirsutas e de ombros largos, depois de Munique?

As tribos do futebol não sublimam nos estádios, de maneira inócua, os confrontos sociais que seriam perigosos nas ruas. Exercitam-se para eles.