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Sem planos concretos, Andy Burnham chega ao Governo com uma promessa: "Quebrar o ciclo"

O maior anúncio de Burnham foi sobre o combate à situação das pessoas sem-abrigo: um plano que falhou em Manchester, mas que revela a persistência do trabalhista que quer ser lufada de ar fresco.

Madalena Moreira
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O dia de Andy Burnham começou cedo. Com o seu “uniforme” habitual, de t-shirt preta e blazer, o deputado visitou esta segunda-feira de manhã o Passage, um centro de acolhimento para pessoas em situação de sem-abrigo no centro de Londres. Horas mais tarde, o líder do Partido Trabalhista surgiu num cenário totalmente oposto: na sala chinesa do palácio de Buckingham, de fato e gravata, a ser convidado pelo Rei Carlos III a formar Governo.

Convite aceite, Burnham entrou finalmente no número 10 de Downing Street na qualidade de inquilino. A semana avizinha-se, agora, longa. A tarde do primeiro dia ficou reservada para formalidades e burocracias inerentes ao novo cargo e para a nomeação do novo Executivo. Para esta terça-feira, ficou prometido o anúncio de medidas para fazer frente ao aumento do custo de vida — e de soluções para financiar essas mesmas medidas.

https://twitter.com/RoyalFamily/status/2079166616886010309

Contudo, nas três horas entre o último discurso de Keir Starmer em frente ao número 10 e o primeiro discurso de Andy Burnham no mesmo local, houve pouco espaço para discutir essas mesmas medidas. O momento “altamente coreografado”, como define a BBC, foi utilizado principalmente para o novo primeiro-ministro se apresentar aos eleitores britânicos e estabelecer o tom para, assim espera, os próximos três anos de governação — uma prioridade que analistas de política britânica já tinham antecipado ao Observador.

Ainda assim, Burnham encontrou espaço para um primeiro anúncio: o combate à situação das pessoas sem-abrigo. A medida explica a visita desta segunda-feira de manhã ao centro de acolhimento, mas também permite compreender melhor a postura que o antigo autarca quer levar para Whitehall. Afinal, esta foi uma medida que Andy Burnham já tinha, sem sucesso, tentado implementar na qualidade de presidente da Câmara da área metropolitana de Manchester.

A centena de convidados e a ausência de púlpito. Burnham quer quebrar com a tradição e aproximar as pessoas

A chegada de Andy Burnham à liderança do Labour não foi atingida à primeira ou à segunda tentativa. Mas à terceira foi de vez. Esta segunda-feira, os 25 anos do trabalhista nos corredores do partido levaram-no, finalmente, ao número 10 de Downing Street. À porta da residência oficial, o novo primeiro-ministro foi recebido por aqueles que marcaram esse longo percurso, numa multidão de quase uma centena de pessoas.

https://twitter.com/PolitlcsUK/status/2079171697031172310

A mãe, Eileen Burnham, educou-o na fé católica — Burnham ainda se identifica como tal, apesar de não ir à missa, porque, caso contrário, “a mãe nunca o perdoaria”, disse ao The Times. Josh Simmons, o ex-deputado de Makerfield, abdicou do seu cargo para que Burnham pudesse regressar a Westminster e candidatar-se à liderança do Labour. Steve Rotheram, o autarca de Liverpool, partilha com ele o interesse pela devolução, a regionalização e a aposta na região norte de Inglaterra. Ausente da multidão, estava, contudo, aquele que incutiu em Burnham a afinidade aos trabalhistas: o pai.

Em entrevista ao The Times, Burnham contou que o pai sofre de demência, o que explica a sua ausência. “Acho que ele não se apercebeu de que eu cheguei a primeiro-ministro, que era uma das missões dele — que eu aceitasse [o cargo]”, lamentou. A história é partilhada com dois objetivos: por um lado, ajuda a explicar o seu compromisso com o estado social, neste caso, devido à necessidade de cuidadores. Por outro, permite que os eleitores se revejam na história pessoal do primeiro-ministro, explicou ao jornal.

Esta postura, mais próxima das pessoas, marcou a longa carreira política de Burnham e traduziu-se na sua chegada à liderança do Governo ainda antes de começar a falar. Apesar de ter “cedido” à tradição e ter colocado fato e gravata para a audiência com o Rei, Burnham abandonou a tradição noutro ponto: abdicou do púlpito ou de notas em frente ao número 10, discurso apenas em frente ao microfone.

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O momento é meramente simbólico, mas expressa a mesma mensagem das curtas palavras que Burnham deixou na sua intervenção: a classe política falhou às pessoas que estão “fartas de política”, e o novo primeiro-ministro quer ser o político que “quebra o ciclo” dos últimos 40 anos, o rosto de uma nova era na política nacional. “Vou dar tudo o que tenho. Vamos construir um novo sentido de unidade nacional, de propósito comum e positividade. Vamos fazer deste o momento em que o Reino Unido volta a acreditar, o momento em que trazemos a esperança de volta”, concluiu, no seu discurso inaugural.

O combate à situação das pessoas sem-abrigo: o reflexo da “política com valores” e da persistência de Burnham

Andy Burnham tinha subido os degraus do número 10 de Downing Street há menos de uma hora quando o Governo anunciou a alocação de 340 milhões de libras (cerca de 400 milhões de euros) para combater a situação das pessoas sem-abrigo. O anúncio vai ao encontro da única medida concreta anunciada pelo primeiro-ministro no seu discurso inaugural: o fim da situação das pessoas sem-abrigo.

“Vamos ajudar as pessoas a viver melhor. É preciso colocar os valores certos na governação e eu vou pôr o cuidado com as pessoas no centro de tudo o que faço”, justificou. O anúncio de uma medida de combate ao aumento crescente do custo de vida já era esperado. O foco nas pessoas em situação de sem-abrigo também é fácil de explicar. Na semana passada, o think tank IPPR North, cuja diretora assumiu um cargo como conselheira de Burnham, alertou o líder trabalhista que o número de pessoas em situação de sem-abrigo poderia aumentar 25% até 2030 se não fossem tomadas “medidas radicais”.

"O que aprendi foi que tínhamos um esquema — todas as noites, 600 camas —, mas éramos o único sítio que o estava a fazer e não é possível baixar os números se formos os únicos a fazer isso. Isto ensinou-me que a única forma de fazer isto é em conjunto."
Andy Burnham sobre a política de combate às pessoas em situação de sem-abrigo

Mas a prioridade dada por Burnham ao tema também não é nova, recorda o The Guardian. Em maio de 2017, uma das primeiras medidas do trabalhista à frente da autarquia de Manchester foi o combate à situação das pessoas sem-abrigo, tendo doado 15% do seu salário a uma organização de caridade. O objetivo era resolver o problema até 2020, mas Burnham falhou — até à data estabelecida, o número caiu para metade, e, depois disso, voltou a crescer de forma acelerada, como mostra uma análise da BBC. A nível nacional, o número de pessoas em situação de sem-abrigo está no nível mais alto que alguma vez foi registado.

A primeira medida de Burnham traduz, como o próprio destacou, as suas prioridades em termos de valores. Mas também permite retirar conclusões sobre a sua forma de estar na política. Por um lado, Burnham colocou o holofote sobre o tema ainda antes de falar sobre ele, com a visita da manhã desta segunda-feira ao centro de acolhimento Passage, em Londres, mostrando a sua preferência por uma política de proximidade, de baixo para cima. Esta abordagem deve continuar ao longo do verão, quando o primeiro-ministro iniciar uma “tour” pelo interior do Reino Unido.

Por outro lado, a insistência nesta abordagem revela persistência — a mesma persistência, adquirida ao longo de 25 anos de experiência política, que fez com que não desistisse de tentar liderar o Labour depois de duas tentativas falhadas. Questionado, durante a visita ao Passage, sobre como irá resolver à escala nacional um problema que não conseguiu resolver à escala local, Burnham argumentou: “O que aprendi foi que tínhamos um esquema — todas as noites, 600 camas —, mas éramos o único sítio que o estava a fazer e não é possível baixar os números se formos os únicos a fazer isso. Isto ensinou-me que a única forma de fazer isto é em conjunto.”

Criar “margem de manobra” numa semana, apresentar planos a longo prazo até ao final do ano

Esta segunda-feira, foi oficializada a transição de poder entre Keir Starmer e Andy Burnham. Porém, na passada sexta-feira, o deputado trabalhista de Makerfield já tinha sido coroado pela primeira vez, como líder do Partido. Excluindo a multidão de apoiantes e o anúncio relativo às pessoas em situação de sem-abrigo, o discurso desta segunda-feira foi, na verdade, uma versão condensada das palavras que já tinha deixado aos trabalhistas na semana passada.

Os objetivos traçados são os mesmos, divididos em dois grandes grupos, mas as palavras na tomada de posse permitiram clarificar os prazos que Andy Burnham definiu para cada uma dessas áreas. Em primeiro lugar, impõe-se o “plano a 10 anos”, que inclui a apresentação “de um novo modelo político e económico”. Sabe-se que, no campo político, este modelo prima pela devolução, a transferência de competências nacionais para o poder local, e pela aposta num novo sistema eleitoral. Já no campo económico, passa pela recuperação económica. Estes dois planos serão apresentados “até ao final do ano”, anunciou Andy Burnham.

Porém, até lá, a ideia será “dar às pessoas margem de manobra, para ajudar com o custo de vida”, afirmou. Estas medidas serão anunciadas a partir desta terça-feira. Igualmente importante, Burnham vai também anunciar os fundos para financiar essas mesmas medidas.

"Estamos a falar de medidas que podem fazer a diferença este ano. Queremos fazer algumas coisas que as pessoas sintam rapidamente. Não vai resolver nada, não vai retirar toda a pressão, mas mostra a direção em que estamos a seguir e que estamos a falar a sério sobre ajudá-las."
Andy Burnham sobre as medidas a apresentar esta semana

Em declarações aos jornalistas, horas mais tarde, em Downing Street, Burnham levantou finalmente o véu sobre o que poderá estar incluído nos anúncios que antecipou: cortes nos impostos sobre consumo de energia e eletricidade e nos bilhetes de transportes públicos ou isenção de impostos sobre os rendimentos nos escalões mais baixos. “Estamos a falar de medidas que podem fazer a diferença este ano. Queremos fazer algumas coisas que as pessoas sintam rapidamente. Não vai resolver nada, não vai retirar toda a pressão, mas mostra a direção em que estamos a seguir e que estamos a falar a sério sobre ajudá-las”, elaborou.

Todas estas medidas serão aplicadas sem alterar a disciplina fiscal iniciada por Keir Starmer. Nas declarações aos jornalistas no Passage, Andy Burnham relembrou que esta decisão não é fruto de uma mera vontade política, mas uma obrigação inerente do regime de democracia parlamentar: a legitimidade de Burnham deriva das eleições de 2024, que o Labour ganhou apoiado no programa político de Keir Starmer. Recusar ir a eleições legislativas — tal como Burnham fez na manhã desta segunda-feira — exige também respeitar esse mesmo programa e procurar formas mais criativas de o implementar.