Este artigo faz parte da série “Na Primeira Pessoa”, um conjunto de textos escritos por uma jornalista a partir de conversas com pessoas que partilham momentos da sua doença mental.
Lembro-me de que estava a conduzir. E tive aquela sensação. A apagar. Eu ia morrer, estava mesmo convencido disso. Queria ir ter com o meu irmão ao emprego para me despedir, mas nem sabia onde é que ele trabalhava. Ligava-lhe, ligava-lhe, e nada. Ele viu que alguma coisa estava mal. Ainda fui despedir-me da minha namorada e ela também percebeu. Tal como a minha mãe. Quando cheguei a casa, ela também reparou que eu não estava bem. Alguma coisa se estava a passar.
Levaram-me ao hospital. Eu desfalecia, parecia que perdia os sentidos e voltava a acordar. Pensava que ia morrer a qualquer momento. Estava muito mal, perdia as forças. Lembro-me de ser internado nesse mesmo dia no Magalhães Lemos, onde fiquei cerca de uma semana e meia. Estava na sala de estar e só acalmei passando a primeira noite de sono. Nunca me tinha acontecido nada assim.
A crise económica de 2008, depois a intervenção da Troika, tudo isso teve bastante impacto na minha saúde mental. Pensava no que se passava à minha volta, via as pessoas com dificuldades em arranjar emprego. Comecei a ficar um bocado mais frágil mentalmente. Tudo junto, foi um cocktail explosivo que levou a esse surto psicótico em 2010. Eu tinha 30 anos, estava a trabalhar como administrador de sistemas. E nesse dia, nessa viagem de carro, pensei mesmo que ia morrer a qualquer momento.
Já sentia algumas coisas. A minha namorada de então dizia-me que, se calhar, já estava a ouvir coisas que não se passavam na realidade, os chamados delírios. Havia alguns indícios, mas naquele dia foi a rutura. Não sei o que é que aconteceu, foi de um momento para o outro.

Nessa altura, via um mundo muito sombrio à volta. Era a Troika, havia muito desemprego, muita insegurança. Pouco a pouco, a minha saúde mental vinha a deteriorar-se, talvez por estar num pequeno projeto musical, uma banda de garagem, e estarmos todos inseridos num ambiente social que não era o melhor. Um ambiente pouco seguro, relações pessoais também pouco seguras, o desemprego, tudo isso teve um impacto muito negativo em mim. Comecei a ter paranoias e coisas assim. Ao gerir o stress, geri-o mal.
Agora, felizmente, estou no mercado de trabalho. Sempre quis trabalhar, mesmo depois do surto. Não trabalhar, para mim, era devastador. Os meus pais vêm de famílias operárias, do proletariado, dão bastante importância ao trabalho. Sentir-me incapaz estava a mexer comigo. Fiz formações, consegui estar mais ativo na sociedade, contribuir, de certa forma. É importante para o meu futuro como pessoa. E não era a doença que me iria impedir disso.
Podia dizer “sou doente, vou-me acomodar”, mas sinto-me mais realizado a trabalhar. Há pessoas que conseguem [trabalhar], outras não. Eu consigo, felizmente. Tenho o meu horário, as minhas obrigações, o meu ordenado. Desde 2024 que estou a colaborar com a Agirar [Associação de Familiares e Amigos de Pessoas com Psicose, em Vila Nova de Gaia]. Sou monitor de Informática, ensino coisas mais básicas em Word, Office, pesquisas na Internet, etc. São exercícios práticos dentro do contexto de trabalho. As pessoas a quem dou formação conseguem aplicar na realidade do dia a dia e ganham competências digitais para o presente e para o futuro. É uma vez por semana, às terças-feiras.
Também faço a parte mais administrativa e a gestão de associados, contacto-os por telefone. Sou também cotutor do projeto “Mãos com História” da Agirar. A tutora é a dona Teresa, que é a minha mãe. Ela é que é artista, eu aprendi com ela. É uma aula em grupo, em que os utentes conseguem expressar a criatividade em tecido com o uso de stencils, num projeto que desenvolve a motricidade e que serve para controlar os movimentos num ambiente seguro e produtivo.
Sinto-me ativo com os utentes da Agirar. Também sou um deles, fazemos um bom grupo, aprendemos uns com os outros, não há aquelas pressões como nas empresas. Já fui alvo disso e sei perfeitamente o que passa.
Eu tenho uma vida regrada, não bebo álcool, não faço disparates, consigo ter uma qualidade de vida que, se calhar, outras pessoas não têm capacidade para ter, sem discriminar quem quer que seja. Cada um tem a sua história. Mas é importante fazer uma boa higiene de sono, que era o que eu não tinha quando trabalhava por turnos. E, por isso, andava mais triste na altura e mais irritado também.
Além disso também faço voluntariado uma vez por mês, com o meu pai, a entregar cabazes de comida a pessoas necessitadas, algumas com problemas de mobilidade.
Faço mais coisas. Uma vez por semana tenho aulas de guitarra elétrica no Rec’n’Roll Studio com o Paulo Barros, músico de heavy metal, toca nos Tarântula. Estou lá há cinco anos. A guitarra serve como terapia. Enquanto estou nas aulas, desanuvio dos problemas, desligo-me um bocado da vida do dia a dia. Toco e gosto. Não quero ter uma carreira musical. A minha médica psiquiatra, na altura, disse-me para apostar em algo relacionado com a criatividade. E eu escolhi a guitarra elétrica.
Também gosto de pintar. Pinto telas e, às vezes, faço cópia direta, outras vezes deixo a mente expressar-se e fazer as suas coisas. Pinto de tudo um pouco: paisagem, retrato… Tenho dois quadros expostos em casa do meu irmão. Um é um casal abraçado a ver o fim do mundo, uma coisa apocalíptica. Era o que eu pensava na altura porque tinha a ver com a doença em si. Não dei um título a esse quadro, tenho um problema com os nomes, não consigo dar nomes específicos. As pessoas acham o que acharem.

O meu diagnóstico? Esquizofrenia. Só soube uns anos depois, quando li um relatório médico. Estava a tentar a reforma por invalidez e precisava de um documento. Foi quando soube que sou esquizofrénico. Consegui identificar-me mais com a doença. Não andei a pesquisar no Dr. Google e essas coisas, confiei bastante nos médicos. Eles diziam que tinha delírios, alucinações, mas não diziam o nome da doença, diziam que fazia parte de uma condição que eu tinha. E eu comecei a interpretar coisas que via ou pensava como crenças falsas.
O que sei sobre esquizofrenia? Sei que é viver com delírios e com alucinações. E sei que, se não se tomar a medicação, recai-se. Tenho de ser medicado para sempre para atenuar essas alucinações e delírios. A esquizofrenia ensinou-me a ser resiliente perante estas dificuldades e a ter muita força de vontade. Ensinou-me a ter mais empatia com as pessoas e ajudou-me a desabafar sobre os meus problemas dentro de casa, com a minha família.
Depois do surto, em 2010, mal saí do Hospital Magalhães Lemos, tive uma recaída. Aumentaram-me a medicação e comecei a estabilizar mais a cabeça. Dessa vez, não fui internado, foi só um ajuste dos psicóticos. Depois, evoluiu para soluções injetáveis. Primeiro mensais, depois trimestrais, agora é de seis em seis meses. Desde então, nunca mais tive nenhum surto.
Claro que foi todo um processo que levou algum tempo. Agora, por exemplo, quando sinto algumas coisas dessas, consigo ver o que não está bem. Pode ser o stress ou outra coisa, mas consigo diferenciar bem, perceber que faz parte da doença. É como se fosse um diabético, em que é preciso tomar insulina, e há várias fases. Às vezes, anda-se melhor, às vezes, pior, há oscilações, e é preciso ser medicado. Não posso passar sem medicação, e aceitar isso faz parte do tratamento.
Nos primeiros anos da doença, passava muito tempo deitado na cama. Já tinha atividades no Hospital Santos Silva, em Gaia, e às vezes, não me apetecia ir porque sentia-me muito em baixo, queria isolar-me. Foi aí que surgiu Agirar. Fui dos primeiros utentes, comecei a sair mais de casa, a socializar mais.
Já fiz vários cursos profissionais na vida. Sou licenciado em Informática de Gestão. Ainda estudei Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Fui a um semestre, mas não concluí o curso. Trabalhei à noite como porteiro num condomínio fechado de luxo, em Leça da Palmeira. Depois fui para segurança nas Piscinas da Granja e no Hospital Santos Silva. Estive num call center durante três anos. Por um lado, foi bom estar ativo, mas sentia na pele o problema de saúde por causa dos turnos de trabalho. E eu, que preciso de tomar medicação a horas, fiquei descompensado. Cheguei a ter nove turnos diferentes num mês. A experiência mais negativa no trabalho foi mesmo essa: aguentar os turnos sem a medicação criava instabilidade e ou acabava ou por desistir ou por ser despedido. Não é bom, para uma pessoa que tenha pouca saúde mental, sujeitar-se a esses turnos.
Sou muito caseirinho e gosto bastante do silêncio. Na televisão, as notícias estão muito negativas e para mim já é mais ruído do que propriamente notícia. E eu dou bastante valor ao silêncio hoje. Prefiro ler um livro sossegado.
Gosto de literatura. Acabei de ler Vida, Velhice e Morte de uma Mulher do Povo, de Didier Eribon, professor francês de Filosofia. Gosto de romances, biografias, coisas sobre a minha área de Informática, etc.
Tenho o sonho de fazer uma viagem ao Leste da Europa. Gostava de conhecer a Polónia e a Eslováquia, não sei porquê. Talvez pelos campos de concentração, essas coisas que se passaram e que agora voltamos a ver, infelizmente.
Outros sonhos que tenho? Se calhar, ser independente dos meus pais, constituir família. Se eu mandasse neste país, dava melhores condições aos portugueses. Somos o país que mais mal ganha na Europa e que mais impostos paga. E acho que os políticos não vivem uma realidade igual à nossa. Quando os vemos na televisão, está tudo bem. Dava melhores condições às famílias para viverem porque, em Portugal, isto já não é viver, é sobreviver.