Já está na mais famosa carta de Fradique Mendes: há homens que são empurrados por uma fama que ninguém percebe de onde vem, mas que se cola à pele com uma persistência inamovível.
No Eça é o Pacheco, que com uma frase bem achada nos tempos de Coimbra chegou a deputado e a Doutor da Nação; fora da caricatura, porém, nem a frase é preciso achar. Há famas que nenhuma frase infeliz, nenhuma declaração desastrada, nenhum mergulho na piscina consegue descolar. Uma dessas famas imorredouras é a de bom ministro. Um ministro já tem o seu destino traçado à partida. Quando entra, já todos os comentadores, jornalistas, colegas, adversários, sabem se ele é um bom ou mau ministro. Não se sabe quem decidiu, quais são os critérios, mas há de haver um processo qualquer: uns estagiários vasculham os currículos, os editores sublinham as universidades mais sonantes e os empregos mais pomposos, uns arúspices segredam umas intenções extraordinárias e uns profetas mandatados pelos deuses afiançam da competência do homem. A mensagem espalha-se de boca em boca, e cada língua dá mais uma lambidela para ajudar a cimentar a cola da fama.
O método parece absurdo, mas tem uma razão de ser. Uma fama antecipada tem muito mais peso num ministro do que num jogador de futebol, por exemplo, porque toda a gente percebe que há um bilião de entraves mesquinhos ou fortuitos que impedem um potencial bom ministro de o chegar a ser. Com um jogador, por muito que a fama pese, há sempre um momento em que o vemos em campo; com um ministro, toda a gente sabe que pode não chegar a vê-lo verdadeiramente em campo, ou, se o vê, vê-o desfigurado por um fato de mascote de tal maneira pesado, que nem se consegue perceber realmente como joga.
Há ministros demitidos por gestos e por declarações tontas, outros por escândalos que afinal não o eram, imagens gastas por mal-entendidos noticiosos, e a máquina é tão pesada que todos percebemos que chegar a ver um ministro agir como ministro é quase um milagre. Daí que a imagem seja imune a tudo o que se passa: no fundo, todos sabemos que a política se joga no empolamento de questões marginais, que bloqueiam o trabalho verdadeiro, e que impedem que ele seja feito. É provável que um ministro tenha de passar mais tempo a controlar os efeitos mediáticos da sua declaração de IRS do que a pensar nos problemas da sua área. E, quando é assim, todos podemos ficar com o ministro que queríamos à partida. O ministro cuja fama sobrevive a tudo o que fizer, o que não conseguiu fazer nada porque a burocracia, a imprensa, a oposição, não deixaram, e o que é bom simplesmente porque pensa como nós.
O ambiente mediático sobre a política está de tal maneira degradado, que a imagem de um político é completamente imune ao que ele faz num governo. Aqueles que já o achavam um génio continuarão a achar e vice-versa.
Ora, esta situação traz uma consequência muito perversa. A imagem de um ministro não depender da sua actuação real podia resultar em coisas muito boas. Em última análise, um ministro com uma boa carapaça podia aproveitar-se disso para levar a carta a Garcia; trabalhava, imune às opiniões, e continuava um bom ministro para quem sempre o vira como um bom ministro, e um mau ministro para os detractores de sempre; acontece que a imagem de um ministro pode não sofrer muito com o seu desempenho, mas a do governo sofre.
As declarações de Fernando Alexandre podem não dizer nada sobre ele – como aliás se vê com a quantidade de gente que reafirma as garantias sobre a qualidade do ministro – mas dizem qualquer coisa sobre o Governo em geral. Luís Neves pode não se importar muito de ser a única pessoa do mundo que se consegue sujar com água, mas Montenegro importa-se com certeza. Pode ser um mistério o que leva a opinião pública a chegar a um consenso prévio sobre se fulano é bom ou mau governante, mas para um primeiro-ministro é muito claro o que faz um bom ministro. Não é o trabalho, que esse já vimos que há mil razões para não o fazer, e só por milagre alguém consegue fazer o que quer – que o diga o ministro Gonçalo Matias, que ainda esta semana se queixou do tempo que demorava a conseguir comprar uns quiosques; como não é o trabalho, como o próprio primeiro-ministro sabe que ninguém consegue verdadeiramente trabalhar num governo, o verdadeiro trunfo de um ministro é não provocar ondas mediáticas.
Ora, as únicas pessoas que não provocam ondas são as que não têm ideias nem planos – esses, infelizmente, são discutidos, e as discussões provocam desgaste – e que têm a vida orientada para a política desde que largaram o babete. Só essas, que não dão um passo sem pensar na carreira política, é que podem ter uma vida financeira capaz de aguentar o escrutínio mediático e uma contabilidade suficientemente monótona para não despertar a curiosidade de ninguém.
É uma dor de alma, por exemplo, ver o estado da cultura em Portugal. Não falamos apenas do plano institucional, em que a Biblioteca Nacional continua sem director nomeado, por exemplo, como se a inércia fosse uma vantagem política; falamos de uma questão mais profunda. Daria algum alento ver um entusiasmo qualquer, nem que fosse um sopro de vitalidade reaccionária, um espírito revanchista que quisesse acabar discricionariamente com a cultura de esquerda, uma ideia distintiva qualquer; já nem dizemos uma boa ideia, podia ser uma ideia tola, mas pelo menos uma ideia. Não, o que temos é apenas uma espécie de gestão da conta-corrente, que tanto podia ser feita aqui como noutro lado, na versão mais genérica e enfadonha da burocracia partidária, que é a mais confortável para um primeiro-ministro. Nada acontece, mas pelo menos enquanto não acontece também ninguém nos chateia, e isso parece ser o máximo que um primeiro-ministro pode pedir de um governante seu. É triste, mas para o que é, bacalhau basta.