A mais nobre função que a vida nos coloca passa por nos pôr problemas. Sempre que pensamos sobre eles ou que falamos deles e os resolvemos, por mais complexos que se vão tornando, a vida torna-se mais fácil. Mas, muitas vezes, o pior que fazemos com eles é evitá-los, ou focarmo-nos noutros problemas (transformando assuntos inadiáveis em pensamentos intrusivos) ou acantoná-los e compartimentá-los, como se se resolvessem sem nós. O sofrimento é a manifestação mais interpelante da saúde mental. Fugir-lhe aquilo que mais facilmente nos torna doentes. Mente doente é aquela que pretende controlar tudo aquilo de que foge de pensar, mesmo que, para que não se deprima, aceite conter o desespero e o amalgame num desconsolo. O consolo é down grade do entusiasmo. Ao desespero, quando ele irrompe, chama-se pânico. Quando o pânico se impõe como uma dor aguda que não se sossega chama-se burnout.
No meio da nossa inacreditável inteligência, acutilância e sensibilidade é fácil acumularmos coisas por pensar, fazermos de panela pressão e, a certa altura, “explodirmos”. Quando guardamos muito explodimos mais, ainda. É fácil o burnout! Inacreditável é a forma como, mesmo esgotados, nos equilibramos no meio de tudo aquilo que a vida nos pede. Somos sensíveis e frágeis mas tenazes e fortes. Mas não tanto a ponto de conseguirmos fintar os nossos pensamentos e de vivermos fugindo deles, para sempre, sem irmos adoecendo, progressivamente.
Dantes, as pessoas sofriam de esgotamentos. Agora de burnout. Mas ontem como agora, o que isso quer dizer é que na nossa cabeça se amontoam assuntos por “resolver”. Uns, são urgentes. Outros, sempre estiveram lá, por mais que a sua presença nos incomode e as dores que nos provocam sejam uma moinha chata que dói um bocadinho. Outros, têm a ver com escolhas que fizemos só porque não fomos capazes de lhes dizer que não. E estão lá, também, as oportunidades que perdemos. Os amores que não vivemos. Os ressentimentos, os remorsos e os pequenos rancores. As memórias que queríamos que fugissem de nós. E uma espécie de museu dos nossos devaneios que nos alimentam com vidas imaginárias — que, ainda assim, são um tudo-nada nossas — e que nos embalam e “adormecem”. E, depois, há o comboio das coisas de todos os dias: a agitação; e as rotinas demasiado “normais”, todas elas, enfadonhas e iguais. As “zonas de conforto” com que iludimos o tédio, como se elas fossem aconchegantes ou climatizadas. As discussões por coisa nenhuma dos nossos filhos. As notas que eles constiparam sem darmos por isso. Mais os assuntos familiares que nunca se esclareceram. A forma como não se namora e que, por agora, parece ir ficando entre o conviver e o coabitar. O nosso corpo e o modo como fugimos do espelho. Mais alguém que está doente. O corrupio do scroll, écran-acima écran-abaixo. E as chatices do trabalho. E os pequenos poderes e as falhas de carácter que deixam a nu. Os conflitos silenciosos. As avaliações sob a tirania da curva normal. Mais os objectivos que temos de atingir. A necessidade de se “vestir a camisola” e a energia com que isso nos corrói. E nós a fazer de Uber. E no pára-arranca do trânsito. E a prosperidade que parece ter emigrado e nos deixou ao desamparo. E as preocupações (as pré-ocupações). E a última vez que rimos até às lágrimas mas que não nos lembramos quando foi. E isso a acontecer tudo emaranhado, tudo ao mesmo tempo e em todos os lugares.
É impossível gerir a vida toda sem desequilíbrios. E mais impossível, ainda, estarmos preparados de véspera para a sua gestão em tempo real. Ou para a controlarmos. Viver é como andar de bicicleta: nunca se aprende a andar de bicicleta antes de nos sentarmos num selim e não há forma de andarmos nela unicamente atentos para os pés. Logo, nem sempre ela consegue ter a nossa cara. E são muitas as circunstâncias em que não mandamos na vida. Vamos andando. Com a certeza que temos muitos dossiers por resolver e, entre eles, temos, até, “ficheiros secretos”. O que todos fazemos é mais ou menos semelhante: se não pensar naquilo que me magoa faço de conta que isso não existe; e se nada se impuser àquilo que os meus olhos não querem ver eu “não vejo”. É claro que tudo isso nos impede de estar tranquilos e descontraídos na maior parte do nosso tempo. É claro que isso não deixa que se tenha tanta saúde mental quanto supomos ter. E é claro que, quando as coisas se acumulam, aquilo de que fugimos de pensar se manifesta, primeiro, como um episódio de ansiedade. Mas funcionamos… Depois, isso cresce e avoluma-se e, mais tarde ou mais cedo, ganha exuberância e corremos o risco de nos sentirmos a resvalar para um episódio de pânico. Mas funcionamos… No entretanto, de uma bruma tristonha passamos para a apatia ou para resignação depressiva. Mas funcionamos… Finalmente, há um episódio de vida ou a acumulação destas coisas todas que nos levam ao desequilíbrio e, como um efeito de dominó, nos dão um empurrãozinho e colapsamos. A ansiedade é sempre a porta de entrada de que a saúde mental se está a afastar de nós.
O burnout surge quando uma gota de água faz com que tudo o que ocupa espaço dentro de nós leva a que transbordemos. Não é uma consequência directa e mais ou menos exclusiva daquilo que se passa no trabalho. É claro que o trabalho dá os seus “ajudas” ao burnout. Mas é mais suportável desculparmo-nos das nossas dores com um traumatismo remoto do nosso crescimento, ou com o cansaço extremo, do que assumirmos que o burnout se deve às coisas que amontoámos (isso incluído) e que não resolvemos. Aliás, ao contrário do que se diz, o trabalho, da mesma forma como acaba por poder ser a gota de água com que nos desequilibramos é, em muitos momentos, aquilo que nos ajuda a equilibrar. Porque nos pede respostas técnicas que nos levam a abstrair e a “esquecer” as nossas “digestões por fazer”; ou requer resultados urgentes; ou nos dá relações que criam uma espécie de “bolha”’dentro da qual nos sentimos mais protegidos das coisas que se amontoam em nós. Seja como for, burnout não é um estado de exaustão que decorre das exigências do trabalho mas um estado de cansaço e desconsolo para com a vida que se vai acumulando devagarinho. Dependendo daquilo que temos pendente dentro de nós, não há um mesmo motivo que precipite. Por mais que, de início, ele comece pelo cansaço. Depois, salte para o desalento e para a vergonha. A seguir, vá culpa adentro. E, finalmente, se enrede no “vai-se andando” que, como um cimento, agrega todos os impasses com que a vida nos derrota. O problema do burnout não é o cansaço com que nos assusta. Mas a consciência de que, diante tudo o que se amontoou, não há como gerir, como resolver ou como ultrapassar tudo isso. Há, sobretudo, um “não há nada a fazer”com que se morre para o entusiasmo, para a alegria e para a vida. O burnout despersonaliza e desrealiza. Levando a que uma resignação nos empurre para aceitar que quando se cresce não se manda na vida. E que essa bruma depressiva parece, conformadamente, fazer parte dos adultos.
O que inquieta no mundo em que vivemos é a forma como, subtilmente, ele nos “sossega” sempre que nos torna vítimas. Vítimas da genética. Vítimas dos traumatismos. Vitimas da família. Vítimas da conjuntura. Vítimas do trabalho. Que fique claro, muito disso vitimiza-nos, sim. Mas esse mesmo mundo nunca nos interpela para a nossa quota-parte de responsabilidade na forma como comprometemos as fantásticas competências e a imensa saúde mental de que dispomos num desconsolo que, devagarinho, toma conta de nós. O esgotamento resulta dos desconsolos que, primeiro, nos tolhem e, depois, nos “anestesiam” e amarfanham, silenciosamente. Diante do corpo fazemos medicina preventiva, temos planos dietéticos e praticamos exercício fisco. Diante da mente, não! Fugimos de pensar, fugimos de falar daquilo que sentimos; fugimos, sobretudo. Ou controlamos, se preferirem. Não, não somos só vítimas: somos pessoas que se adiam por fugir de pensar. Como se a sociedade do cansaço em que vivemos – que é a nossa “mentora”, e que contribui para que tornemos desatentos, obedientes, silenciosos, submissos e exaustos (e doentes, portanto) – espere que cada um de nós funcione e produza mas não pense. Enquanto censura e repreende o sofrimento e o burnout, e o desconsolo que fica entre eles, como se fossemos fracos e nada de entre as nossas dores fizesse parte deste mundo.