De forma inevitável, este era uma espécie de Last Dance para alguns dos jogadores que marcaram as últimas duas décadas do futebol mundial. Aliás, este era até um capítulo que muitos achavam não ser possível em 2022 que acontecesse três anos e meio depois: Lionel Messi foi jogar para os Estados Unidos e já tinha o seu título de campeão mundial, Cristiano Ronaldo rumou à Arábia Saudita e já passara a barreira dos 40 anos, Luka Modric deixou o Real Madrid depois de mais de uma década no Santiago Bernabéu, Neymar enfrentava constantes problemas físicos numa fase da carreira em que regressara ao Brasil após passar pela Arábia Saudita, trocando o Al Hilal pelo Santos, Manuel Neuer voltara para ser titular e dizer de seguida adeus.
https://observador.pt/2026/07/19/nao-ha-melhor-truque-e-artimanha-do-que-jogar-apenas-futebol-a-cronica-da-final-do-mundial-entre-espanha-e-argentina/
Havia mais exemplos mais ou menos confirmados de nomes com história que poderiam estar a fazer a sua despedida, logo a começar pelo recordista Guillermo Ochoa, guarda-redes mexicano que cumpria o seu sexto Mundial, e a passar por outras figuras como o egípcio Mo Salah, o sul-coreano Son Heung-min, o suíço Granit Xhaka, os belgas Kevin de Bruyne e Romelu Lukaku, o colombiano James Rodríguez, o equatoriano Enner Valencia ou o uruguaio Fernando Muslera. No entanto, era no quinteto supracitado que recaíam as atenções – até por ser desse quinteto que se esperava que pudesse sair um campeão mundial. No final, a força de um coletivo liderado por Rodri, mesmo tendo figuras como Lamine Yamal a seu lado, acabou por imperar contra tudo e contra todos e só mesmo um ficou perto da melhor despedida possível: Lionel Messi.
Aos 39 anos, e quando se podia pensar que tudo tinha terminado a nível de Mundiais, o argentino arriscou o impossível e não ficou longe de alcançá-lo. Arredado dos principais palcos europeus de clubes, o número 10 assumiu o desejo de poder ainda fazer mais uma fase final mesmo sabendo que seria sempre um risco até por ter ganho em 2022, preparou-se nos últimos meses para chegar no melhor momento possível e terminou não só como um dos melhores marcadores (oito golos, apenas atrás dos dez de Kylian Mbappé) mas como um dos jogadores com mais assistências. Contra Cabo Verde, contra o Egito e contra Inglaterra, Messi virou jogos que pareciam perdidos, voltou a levar de novo a Argentina à final e só na decisão acabou por cair. Ainda assim, mesmo com a prata, La Pulga consolidou o seu nome no topo da história do futebol.

Menos sorte tiveram outras estrelas como Cristiano Ronaldo, Luka Modric, Neymar ou Manuel Neuer. O guarda-redes alemão caiu logo nos 16 avos tal como o médio croata, que não conseguiu desta vez levar os balcânicos ao pódio como acontecera em 2018 e 2022. Já o avançado brasileiro foi utilizado apenas duas vezes partindo do banco, marcando de penálti à Noruega e pouco mais (aliás, uns dias depois estava de novo em torneio de poker, com tanta ou menos sorte do que tivera em campo). Por fim, o capitão da Seleção, aos 41 anos, acabou por cair nos oitavos frente à futura campeã mundial Espanha, deixando a competição ainda como um ícone para todos os adeptos mas somente com três golos, apontados frente ao Uzbequistão e à Croácia. O derradeiro sonho de poder chegar à final de um Mundial, depois de ter ganho um Europeu e duas Ligas das Nações, começou a cair logo na segunda posição nos grupos atrás da Colômbia…
Houve mais destaques individuais, de Kylian Mbappé a Jude Bellingham, passando por Ousmane Dembélé, Michael Olise ou Harry Kane, mas o Mundial de 2026 terminou sobretudo como novo capítulo de domínio espanhol no futebol entre o último capítulo de alguns dos jogadores mais marcantes da história do futebol. E é por isso que, dentro de uma ideia coletiva que ganhou a tudo e todos como equipa e no plano individual, Rodri acabou por ser eleito o MVP do torneio, coroando aquilo que foi uma identidade acima de todas as outras formações e uma forma de jogar que não deu hipóteses a nenhum dos adversários encontrados.

Os que passaram a ser notícia pelos melhores motivos
A Noruega foi o grande destaque deste Mundial, algo que nem mesmo a derrota nos quartos diante da seleção inglesa acabou por atenuar – e que foi extensível à principal figura da equipa, Erling Haaland. Da equipa aos adeptos, o conjunto escandinavo deixou a melhor marca possível no regresso a Mundiais, antes de imperar a lei do mais forte na prova: apenas pela terceira vez na história da competição os quatro melhores do ranking FIFA entraram nas meias-finais, sendo que pela primeira vez havia quatro campeões na disputa do troféu que acabou por sorrir à Espanha, que venceu os dois últimos finalistas (Argentina e França).
A par das principais potências europeias e sul-americanas, a grande marca foi deixada por Cabo Verde. O continente africano conseguiu qualificar nove das dez equipas apuradas para a fase a eliminar, num feito histórico sem precedentes, mas os Tubarões Azuis, mesmo caindo nos 16 avos de final com a Argentina (só Marrocos, que foi aos quartos, e Egito, que chegou aos oitavos, superaram essa barreira), terminaram esta estreia em fases finais do Mundial com três empates na fase de grupos diante de Espanha, Uruguai e Arábia Saudita, caindo apenas no prolongamento com a Argentina. Também aqui, e de forma inevitável, o conjunto cabo-verdiano teve um destaque individual que continua a fazer furor nos EUA por estes dias: Vozinha.

Os que foram notícias pelas piores razões desportivas
A Alemanha chegava ao Mundial-2026 apostada em mostrar que a eliminação nos quartos do Europeu com a Espanha tinha sido uma mera infelicidade. Começou da melhor forma, a golear Curaçau por 7-1, bateu de seguida a Costa do Marfim, perdeu com o Equador quando já estava apurada em primeiro. O pior chegaria depois: num jogo para esquecer a todos os níveis, a Mannschaft foi aos penáltis e perdeu com o Paraguai nos 16 avos de final, a mesma ronda em que ficaram os Países Baixos num duelo diante de Marrocos decidido também nas grandes penalidades. No entanto, não foram as únicas aquém do esperado neste Mundial.
Em contextos diferentes, Portugal e Brasil foram também deceções nesta fase final. No caso da Seleção, o problema nem foi tanto a derrota nos oitavos frente à Espanha mas a forma como os empates com RD Congo e Colômbia impediram que o conjunto nacional passasse em primeiro do grupo, com todos os benefícios que essa condição poderia trazer. Já a canarinha, que depois do empate com Marrocos estava a prometer, passou o Japão nos 16 avos de final com um golo nos descontos mas pouco ou nada conseguiu fazer de seguida com a Noruega, perdendo por 2-1 e caindo nos oitavos para nova reflexão depressiva de todo o futebol brasileiro. Nota para a Croácia, que na despedida de Luka Modric e depois de dois pódios seguidos ficou nos 16 avos.

Os que se tornaram notícia por maus motivos
A grande “bronca” deste Mundial acabou por ser a despenalização do cartão vermelho a Balogun, que tinha sido expulso no jogo frente à Bósnia mas que ficou em condições de defrontar a Bélgica nos oitavos depois de uma autêntica rábula que envolveu chamadas da Casa Branca, o dedo do próprio Donald Trump e o assumir do “perdão” por parte da FIFA sem que se percebesse ao certo a razão para isso. Mesmo com o avançado do Mónaco, os Estados Unidos foram goleados pela formação belga, fazendo com que todas as equipas que organizaram esta fase final de 2026 caíssem nos oitavos (Canadá com a Suíça, México com Inglaterra).
Em paralelo, a introdução das paragens para hidratação, que na verdade eram momentos de publicidade “encapotada” que dividiam o encontro em quatro quartos e não duas partes, mereceu muitas críticas, não tanto pelas interrupções em si, que eram aproveitadas da melhor forma nas bancadas, mas pela maneira como “adulteravam” aquilo que estava a ser a história do encontro. Por alguma razão o futebol foi inventado sem a possibilidade de descontos de tempo, algo que acabou por acontecer agora sem aquelas habituais (infelizmente, é mesmo assim…) quedas de jogadores por motivos físicos que pretendem apenas parar o jogo.

Os que ainda chegaram a ser notícia (mas acabou cedo)
A seleção do Irão focava grande parte das atenções, pelas restrições que tinha de entrada e saída dos Estados Unidos, onde realizou todos os três encontros. Gianni Infantino, presidente da FIFA, ainda foi ao balneário da equipa dar os parabéns a todos os jogadores pelo exemplo que foram mas não teve propriamente a melhor das reações, tendo em conta tudo aquilo que foi acontecendo: interrogatórios longos que envolviam alguns elementos como Mehdi Taremi, obrigatoriedade de saída para o México logo após a partida e, como se não bastasse, a frustração de uma eliminação por ser apenas o nono melhor terceiro classificado dos grupos.
Em paralelo, as tão temidas paragens nos encontros pelas condições climatéricas acabaram por ser um fantasma que só apareceu um par de vezes. Houve partidas que começaram uma hora depois por isso, houve o França-Iraque que teve um tempo de duração de quase quatro horas (3h47) pela interrupção ao intervalo devido a uma tempestade, mas de resto tudo acabou por decorrer com a maior das naturalidades. Até mesmo em Nova Iorque/Nova Jérsia, que recebia a decisão no MetLife Stadium, teve várias inundações em algumas zonas da cidade na véspera do Espanha-Argentina mas acabou por decorrer com normalidade.

Os que não foram sequer notícia (mas um acabou por ser, à margem do Mundial)
Olhando para todos os planos teóricos dos 32 apurados para a fase a eliminar (ou seja, o número de equipas que no Qatar entraram na fase final), houve três seleções que ficaram aquém das expetativas e com histórias diferentes a justificar o regresso antecipado a casa: a Coreia do Sul, que até entrou a ganhar mas acabou de seguida por enredar-se em blackouts e desconfianças no selecionador; a Turquia, que chegava com uma das gerações mais promissoras das últimas décadas mas perdeu os dois encontros iniciais apesar da média de 30 remates e 70% de posse por jogo; e o Uruguai, com uma ideia tática traçada por El Loco Bielsa que chegou mesmo a motivar uma reunião entre alguns jogadores e o técnico sem resultados práticos para a equipa.
No plano individual, o árbitro Omar Abdulkadir Artan nem chegou a ser notícia no Mundial, tendo em conta que viu o visto de entrada nos Estados Unidos recusado por ser da Somália, mas tornou-se quase um símbolo de um dos calcanhares de Aquiles da organização de 2026, recebendo a solidariedade de vários intervenientes e instituições, chegando ao país como um autêntico herói e sendo “convocado” para outras grandes organizações no futebol, neste caso a Supertaça Europeia entre o PSG e o Aston Villa em agosto.
