Um comunicado que foi uma espécie de ‘quatro em um’. Foi já na noite deste sábado que o Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) veio tomar uma posição pública após a divulgação das classificações dos exames nacionais na noite de sexta-feira e que só irá terminar este domingo, depois dos relatos de muitas notas com a menção “suspenso” nas pautas afixadas nas escolas.
Sem divulgar então os números sobre a realidade dos estudantes com o seu futuro ainda em standby perante a indefinição dos resultados, o ministério liderado por Fernando Alexandre, fez, porém, quatro coisas: assegurou que o problema das notas em falta estava a ser resolvido e que o EduQa informaria ainda neste sábado “as escolas sobre as classificações que permanecem com a menção ‘suspenso'”, pediu “desculpas” à comunidade escolar por esta situação, agradeceu o “notável esforço” dos diretores de escolas e garantiu que nenhum aluno será prejudicado no acesso ao Ensino Superior por motivos “não imputáveis ao próprio”.
Ao final da noite foi a vez de o Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação (EduQa) esclarecer que “procedeu a processos de validação complementares” em cerca de 1.400 provas a nível nacional e que os resultados vão começar a ser afixados este domingo.
https://observador.pt/especiais/alunos-com-informacao-das-notas-alguns-a-espera-e-varios-em-suspenso-caos-nos-exames-ainda-nao-terminou/
Contudo, o comunicado do Ministério da Educação deixa também algumas questões em aberto, tal como se encontra o futuro de alguns estudantes neste momento. Que consequências existirão para os alunos com esta indefinição? Como se irá proceder à reapreciação de provas perante o início iminente da segunda fase? E estará o sistema em condições de dar então uma resposta eficiente e atempada? São estas e outras questões que o Observador tenta esclarecer neste Explicador.
Quantas provas havia com a classificação suspensa?
De acordo com a nota divulgada ao final da noite pelo JNE (Júri Nacional de Exames)/EduQa, foram levados a cabo “processos de validação complementares num conjunto limitado de provas”. E quantas provas eram essas? “Cerca de 1400 provas a nível nacional“, num total de 290.351 provas, o que corresponde a cerca de 0,5% no universo global das provas alvo de classificação. O ministro Fernando Alexandre tinha dito que eram “centenas”, o líder do PS, José Luís Carneiro, e a FENPROF tinham dito que eram “milhares”.
Quando serão divulgados os resultados para as notas em suspenso?
Este domingo. A garantia foi deixada ao final da noite pelo EduQa, que sublinhou que o final da validação dos resultados das provas que se encontravam em falta aconteceu ao longo deste sábado. “As pautas completas encontram-se prontas para envio às escolas, o que deverá ocorrer nas próximas horas, pelo que as escolas poderão oportunamente proceder à sua afixação a partir de amanhã”, isto é, domingo, segundo o comunicado do JNE/EduQa.
O instituto não deixou de lamentar o que designou como “compasso de espera para um conjunto de alunos e suas famílias“, embora tenha defendido a sua posição, em nome de um compromisso total “com os alunos e com a qualidade da avaliação externa, processo fundamental para o progresso dos alunos para o ensino superior ou para a vida ativa”.
Quais as explicações do EduQa para o procedimento adotado?
O EduQa explicou que a única forma de garantir que nenhum aluno não era prejudicado era fazer o que chamou de “processos de validação complementares”, pois, caso não o fizesse, não podia garantir que todas as notas que iam para a pauta “tinham a consistência necessária”.
O instituto decidiu então revelar as notas de 288.951 exames e não o fazer em 1.400 para “não atrasar em demasia a afixação das pautas”. Assim, acredita, evitou “defraudar as expectativas da grande maioria dos alunos e suas famílias”. Ou seja: deixar uma minoria mais ansiosa para que uma “grande maioria” pudesse descansar. O célebre “-3” na plataforma online também voltou a ser explicado: não tem nenhum significado quantitativo da nota, mas foi apenas uma forma de identificar de uma forma mais direta que a prova com aquela nota estaria ‘suspensa’.
Alunos podem ser prejudicados no acesso ao ensino superior na sequência destes problemas?
O Ministério da Educação garante que não: que nenhum aluno será prejudicado no acesso ao Ensino Superior por motivos não imputáveis ao próprio. Além disso, relativamente às situações que exigiram uma análise complementar — como folhas de continuação em falta ou em branco sem correspondência a um número convencional de aluno — a tutela garante que “todas as situações que possam corresponder a desconformidades serão averiguadas”.
No entanto, tal não significa que não existam já algumas consequências da situação de instabilidade registada no processo de digitalização da classificação das provas deste ano. O final dos exames nacionais e a antecipação da candidatura para a entrada na universidade é, já por si mesmo, um momento de particular tensão para os estudantes, perante a incerteza de saber se conseguirão seguir os caminhos pretendidos para os respetivos futuros profissionais.
O acréscimo da indefinição sobre as notas obtidas neste verão e as dificuldades que poderá colocar para a reapreciação das provas podem traduzir-se na falta de tempo de estudo para a iminente segunda fase. Essa mesma situação é realçada pela presidente da CONFAP ao Observador, ao indicar que “o fim de um ciclo e o início de outro gera ansiedade” nos estudantes. “É de facto um momento muito stressante e de extrema importância para os alunos”, constatou Mariana Carvalho.
Os alunos com notas em suspenso vão conseguir inscrever-se na segunda fase, se necessário?
Sim, ainda há tempo para os alunos que ainda não conhecem as suas notas poderem inscrever-se, caso seja necessário. “Podem não saber o resultado, mas há uma expectativa. À partida, os alunos já sabem qual será a sua classificação. Sabemos que o tempo é curto, mas ainda têm o dia de segunda-feira para a inscrição”, afirma a representante da CONFAP, deixando um conselho: “Qualquer constrangimento ou impedimento deverão contactar a escola caso haja alguma situação”.
De acordo com o EduQa, o processo de inscrições para a segunda fase arrancou na sexta-feira, na plataforma PIEPE (https://jnepiepe.dge.mec.pt/), e decorrerá até à próxima segunda-feira, dia 20 de julho.
Como se irá proceder à reapreciação de provas perante o início iminente da segunda fase?
O Ministério da Educação adiantou que “os alunos que pedirem a reapreciação da sua prova poderão usá-la na 1.ª fase do Concurso Nacional de Acesso”, tal como está contemplado no regulamento do concurso de acesso ao Ensino Superior do próximo ano letivo.
O tempo é curto entre a primeira e a segunda fase, cujo prazo de inscrição termina já esta segunda-feira, com as provas a arrancarem no dia seguinte. Por isso, Mariana Carvalho aconselhou prudência aos alunos que queiram avançar com uma reapreciação e demonstrou confiança no processo de classificação, apesar dos percalços ao longo dos últimos dias.
“Queremos acreditar que as provas foram bem classificadas. Todos os alunos terão acesso às provas e recomendamos que analisem as provas, que verifiquem se há alguma falha e se a nota é inferior à expectativa. Havendo (uma falha), avance-se com a reapreciação. Aquilo que a CONFAP recomenda é que não se avance de qualquer maneira. A nota pode subir, como pode descer”, explicou.
Reconhecendo o “contrarrelógio” nesta passagem de primeira para a segunda fase, a líder da CONFAP apelou: “Os alunos devem preparar-se porque estamos na iminência da segunda fase. Muitos já analisaram e pediram ajuda a professores e explicadores, portanto, o tempo é curto”.
A plataforma de digitalização das provas já está disponível?
Sim, garantiu este sábado o MECI no comunicado, ao enfatizar que a “versão final da plataforma” para a disponibilização das provas em PDF está ativa desde este sábado para os alunos poderem ver a classificação “item a item”, “tendo as escolas recebido instruções tendo em vista o seu envio aos alunos ou encarregados de educação”.
“Este acesso, disponibilizado pela primeira vez nos Exames Nacionais, de forma gratuita, assegura que os alunos podem verificar todos os seus exames, confirmar se as suas respostas foram classificadas e conhecer a avaliação por item. Esta medida visa garantir total transparência no processo de avaliação externa das aprendizagens”, acrescentou.
https://observador.pt/2026/07/17/alunos-admitem-pedir-a-consulta-dos-exames-assim-que-souberem-as-notas/
O sistema está em condições de dar resposta na segunda fase?
Apesar das hesitações, dúvidas e inquietações geradas ao longo dos últimos dias com esta primeira fase, o ministro da Educação comprometeu-se este sábado, na reunião com representantes do Conselho das Escolas, com a Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE), com a Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), com a Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap) e com a Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo (AEEP), que o sistema de classificação vai funcionar na segunda fase.
“Tivemos hoje garantias de que o sistema estará operacional para a segunda fase. Preparámos cenários para o ensino básico e secundário e a resposta foi 100% positiva. Há a garantia de que a plataforma e a correção digital vai funcionar. Foi algo com que o ministro se comprometeu pessoalmente“, referiu ao Observador a presidente da CONFAP, Mariana Carvalho.
O Ministério pediu “desculpas” e agradeceu o esforço, após criticar professores e diretores de escolas?
O ministro da Educação, Fernando Alexandre, já tinha pedido desculpa aos professores mais do que uma vez, uma delas na última quarta-feira. No entanto, houve momentos em que o Governo foi particularmente crítico de alguns dos agentes envolvidos. Se Fernando Alexandre chegou a dizer que era uma “imprudência” os pais marcarem férias para esta altura, na última terça-feira o primeiro-ministro tinha denunciado que entre os docentes “aqui e ali tem havido alguma resistência”, acrescentando que “basta ver que os professores não têm todos a mesma opinião sobre este processo.”

Já esta sexta-feira, Fernando Alexandre tinha sido particularmente impositivo com os diretores de escolas ao dizer que “teria muita dificuldade em perceber, as famílias também, e os alunos também que, pelo facto de as notas chegarem às 19h30, não serem lançadas.” E deixava um aviso: “Pode acontecer mas eu vou precisar da justificação do diretor e será pedida individualmente a cada um”.
No comunicado do Ministério de Educação deste sábado as desculpas são pedidas a todos sem exceção e sem “mas…”: “O Ministério da Educação, Ciência e Inovação lamenta os atrasos e os constrangimentos verificados e expressa desculpas aos alunos, às famílias, aos professores e às escolas pelos transtornos causados.” Além disso fez questão de expressar “o seu agradecimento aos diretores, aos professores e aos técnicos envolvidos neste processo, pela dedicação, empenho e sentido de missão demonstrados, colocando o interesse dos alunos e das famílias em primeiro lugar.”
Que conclusões poderá trazer a auditoria já anunciada pelo ministro?
Foi anunciada durante a semana por Fernando Alexandre e não foi esquecida no comunicado deste sábado: a realização de uma auditoria externa ao processo de digitalização da classificação das notas dos exames nacionais. Na nota divulgada, o Ministério da Educação assume os “problemas” neste procedimento e garante que o objetivo passa agora pela “identificação detalhada das falhas e dos erros”.
Desafiada a apontar eventuais conclusões, Mariana Carvalho reconhece tratar-se de um exercício de “futurologia”, mas recorre à sua própria experiência em auditorias para apontar o caminho nessa auditoria. “O grande objetivo é aferir este processo todo e identificar falhas ao nível do processo, do próprio serviço em si e dos trâmites. Esperamos que sejam envolvidas todas as partes — alunos, diretores, escolas, pais — para que se consiga apurar esta classificação digital“, sinalizou.
Aliás, a presidente da CONFAP destacou a importância deste processo de digitalização das classificações e assegurou não estar contra, apesar dos constrangimentos ocorridos. “É de facto um tema muito importante, porque podemos usar o digital de forma mais efetiva, mais transparente e com melhores resultados. É importante que usemos a digitalização a favor da educação. Agora, é preciso avaliar e criar estratégias para que as coisas corram bem”, finalizou.