O jogo era o Inglaterra-Argentina. Em Rikers Island, a maior prisão do estado de Nova Iorque, mais de 100 presos vestidos com uniformes bege estavam reunidos no ginásio, para assistir à partida num grande televisor ladeado por balões. O pontapé inicial ainda não tinha sido dado quando um homem em mangas de camisa entrou e se sentou numa das mesas. Não era um preso, nem um guarda: era Zohran Mamdani, o presidente da Câmara de Nova Iorque.
Mamdani conversou com alguns dos reclusos e saiu ao fim dos primeiros 20 minutos do jogo. De seguida, assinalou a ação de relações públicas no X: “Ao longo deste Mundial, temos sido recordados de uma verdade simples: o futebol pertence a todos.”
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Não foi um evento isolado. Ao longo destes mais de 30 dias da competição, o autarca aproveitou um e outro momento para se afirmar politicamente através do Mundial. Se o futebol não é o desporto mais popular nos Estados Unidos da América, é-o sem dúvida para Mamdani, que não hesitou em usar o torneio para promover a sua agenda. “O desporto e o futebol são muitas vezes descritos com uma linguagem de distração — como se estes fossem momentos passageiros para as pessoas se esquecerem das suas preocupações”, disse o mayor ao New York Times já o Mundial decorria. “O futebol, para mim, está no centro da forma como vejo o mundo.”
Tendo isso em conta, Mamdani criou várias fan zones gratuitas por toda a cidade e tentou fazer do evento desportivo um lugar de convívio e promoção de Nova Iorque. O que teve um efeito em alguns dos residentes, garante o professor de Políticas Públicas da John Jay College of Criminal Justice (em Nova Iorque) Heath Brown ao Observador: “Muitos nova-iorquinos querem saber do Mundial e seguiram cada minuto do torneio. Fizeram-no como qualquer outro adepto global: colados à televisão em casa ou num bar.”
Outros têm dúvidas do impacto do torneio na cidade: “Pelo menos na parte inicial do Mundial, acho que a maioria dos nova-iorquinos (e possivelmente o próprio Mamdani) estavam muito mais investidos na vitória dos New York Knicks no campeonato da NBA do que no Mundial”, diz Alan McDougall, professor de História do Desporto na Universidade de Guelph (Canadá).
Mas uma coisa é certa: com maior ou menor adesão dos habitantes de Nova Iorque, o jovem autarca que se define como um socialista democrático decidiu colocar o Mundial no centro da sua ação política. E, terminado o torneio, a questão impõe-se: Zohran Mamdani tornou-se num dos vencedores deste Mundial de 2026?
Arsène Wenger, a CAN e um golo contra o FC Porto. A paixão de Mamdani pelo futebol
Recuemos a maio, menos de um mês antes de o Mundial arrancar. Mamdani faz outra aparição inesperada, desta vez no bar Fort Greene, em Brooklyn. Foi ali para apoiar a sua equipa, o Arsenal, na final da Liga dos Campeões contra o PSG. Entra e junta-se aos gritos de “Arsenal! Arsenal!”, ao som da música Human, dos The Killers. Traz uma camisola da equipa, com um blazer preto por cima, e acompanha o jogo com entusiasmo — menos no final, quando o Arsenal é derrotado pelo PSG nos penáltis.

É um amor antigo: Mamdani é adepto dos Gunners desde pequeno, um amor que lhe foi passado por um tio quando ainda vivia no Uganda, em criança. Num artigo publicado no The Athletic em maio, escrito na primeira pessoa, o mayor explicou porque é que o clube inglês é tão importante para si: “Para nós que temos raízes africanas, o Arsenal representava algo maior. Este é um clube que abraçou jogadores africanos muito antes de a Europa se dar ao trabalho de enviar olheiros para o continente. Um clube que mandava jogadores para a Taça das Nações Africanas (CAN). Um clube onde jogadores da Nigéria, da Costa do Marfim e dos Camarões eram centrais na nossa história.”
A isso somava-se o encanto pelo treinador Arsène Wenger, “um homem que ao início eu achava que tinha esse nome por causa do clube e que depois achei que o clube é que tinha ficado com aquele nome por causa dele”. E o encanto de Mamdani por futebol não se esgota em Wenger: no mesmo artigo, recordou o festejo de Mario Balotelli com uma camisola que perguntava “Sou sempre eu porquê?”; à GQ, lembrou o golo de Samir Nasri contra o FC Porto na vitória por 5-0 do Arsenal contra o clube português na Liga dos Campeões, em 2010.
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Daí até Mamdani usar o futebol para promover a sua agenda política foi um passo. “Isto só funciona de forma tão eficaz porque Mamdani adora desporto, quer sejam os Knicks ou o Arsenal”, nota o professor McDougall. “Ele parece uma voz autêntica, alguém com quem se pode falar num bar ou num festival sobre as controvérsias do VAR, as razões para a tímida derrota de Marrocos contra França, etc.”
Mas quando se lida com um político que é também um adepto apaixonado, surgem sempre fraquezas. Em março, o autarca teve uma reunião com o presidente da FIFA, Gianni Infantino, para tratar da preparação para o Mundial. Mamdani entrou em força, com críticas à organização pelos preços elevados dos bilhetes. Mas Infantino trazia uma carta na manga. A certa altura, fez uma chamada em FaceTime e passou o telemóvel ao mayor: do outro lado estava Arsène Wenger, atual chefe do departamento de Desenvolvimento do Futebol Global da FIFA.
Um desporto da “classe trabalhadora” e dos “imigrantes”. Como Mamdani adaptou o futebol à sua agenda política
Mas o telefonema com Wenger não foi suficiente para Zohran Mamdani recuar na sua agenda de críticas à FIFA pelo preço dos bilhetes. “Queremos que este seja o Mundial onde muito mais pessoas se apaixonaram pelo jogo — não apenas o Mundial a que algumas pessoas conseguiram ir”, justificou o autarca.
Em causa estavam os chamados preços dinâmicos introduzidos pela FIFA, onde um bilhete para a final chegou a custar mais de 30 mil dólares. Mamdani conseguiu mil bilhetes para a Câmara de Nova Iorque, que foram revendidos a 50 dólares. E o mayor enquadrou o acordo como uma vitória contra “a comodificação do desporto”, que o torna “em mais um produto de luxo”, como definiu numa entrevista à BBC. Para além dos bilhetes, a autarquia organizou autocarros de Nova Iorque para o MetLife Stadium (em Nova Jérsia) a 20 dólares por bilhete, para servir de alternativa aos bilhetes de comboio a 150 dólares.
https://observador.pt/especiais/o-tortuoso-e-exorbitante-caminho-para-comprar-bilhetes-para-mundial-e-o-risco-de-estadios-meio-cheios/
Outra luta contra a FIFA protagonizada por Mamdani foi a proibição de os adeptos levarem garrafas de água para os estádios, dando preferência ao aumento das receitas da venda de bebidas. “Vamos falar [com a FIFA] para perceber melhor o racional. Não queremos ninguém a consumir menos água por causa do preço no estádio. Isso devia ser facilitado”, declarou o mayor. A FIFA acabaria por recuar na proibição, depois de críticas de outras figuras como o primeiro-ministro britânico, e passou a permitir a entrada de uma garrafa de água de cerca de meio litro por pessoa no estádio.
Alan McDougall considera, porém, que são vitórias limitadas. “Para os nova-iorquinos que adoram futebol, deve ser bom ter um aliado político nesta questão, embora a larga maioria dos bilhetes (especialmente para a final) continuem a ser demasiado elevados para as pessoas comuns, sejam elas de Nova Iorque ou de qualquer outro sítio”, diz o professor.

O historiador de desporto diz não ter a certeza se estas posições se sustentam numa visão clara de Mamdani baseada nas questões de classe, mas reconhece que a campanha “Game over Greed” (“O Jogo acima da Ganância”) é um esforço para “manter o Mundial pelo menos ligeiramente conectado com as origens de classe trabalhadora do jogo popular”.
Já o mayor tenta claramente fazer essa ligação política nas suas declarações: “No seu âmago, o futebol é um jogo da classe trabalhadora”, disse ao New York Times. Não faltam exemplos de Mamdani a falar publicamente das ligações do futebol por todo o mundo à esquerda, seja elogiando o jogador brasileiro Sócrates — símbolo da resistência à ditadura militar —, seja destacando um dirigente inglês do Derby County, Brian Clough, que fez a sua equipa apoiar os mineiros durante uma greve em 1972.
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No dia da final, o mayor conseguiu mais um golpe de relações públicas: um vídeo com Gary Lineker, o internacional inglês, a puxar pela sua agenda. Quando Mamdani pergunta ao antigo ponta-de-lança qual é a sensação de marcar num Mundial, Lineker responde: “É uma explosão de emoção. Imagino que seja semelhante a ouvir que o Conselho de Diretrizes de Arrendamento decidiu congelar as rendas durante dois anos” — uma medida conquistada pelo autarca nos primeiros meses do seu mandato.
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E há outra área onde Mamdani politiza claramente o futebol: colocando-se ao lado das minorias raciais e imigrantes no mundo do desporto. Não por acaso, ao longo deste Mundial demonstrou simpatia para com a equipa de Marrocos. Uma jogada que, na perspetiva do professor Brown, é inteligente, porque “os nova-iorquinos gostam de apoiar um underdog” (o menos favorito). “Mamdani é um nova-iorquino de gema e apoia equipas que partilham esse espírito e estão cheias de jogadores que não têm o reconhecimento global que as Espanhas e as Inglaterras têm. Marrocos é uma dessas equipas”.
Ao longo de todo o torneio, o mayor colocou-se diretamente ao lado de várias equipas africanas e de maioria árabe, como quando ligou claramente o tema a uma ação de propaganda sobre a nova política de transportes da cidade. “Quando passar um ano, vocês vão ter poupado mais de dois dias em viagens de e para o trabalho”, disse. “Isso significa tomar o pequeno-almoço com a vossa família. Significa ter tempo para criticar a decisão do árbitro no jogo de Little League do vosso filho. Significa chegar a casa antes da hora de ir para a cama. Significa concordar com os vossos amigos que o Egipto foi roubado ontem”, encaixou dentro do discurso para se referir à polémica arbitragem do Egipto-Argentina nos 16 avos.
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A ligação dos imigrantes ao futebol foi outro fator que Mamdani não hesitou em explorar. Pouco antes do Mundial, a Câmara de Nova Iorque lançou um programa para manter vários campos de futebol espalhados pela cidade abertos durante a noite. Os principais beneficiários foram claramente imigrantes, como se pode ver numa reportagem do New York Times: “Vêm do Bangladesh, Paquistão, Uzbequistão, Tajiquistão, México, Egipto e de outros lados. São uma mistura de empreiteiros, médicos, um instrutor de Taekwondo, primos, amigos e pais.” E Mamdani foi taxativo ao dizer que o futebol “não existiria sem imigrantes”. “Imigrantes jogam e treinam, trabalham nos estádios, enchem as bancadas e tornam celebrações como o Mundial possíveis”, escreveu no X o autarca.
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Tudo ações que não são por acaso, nota McDougall. “As suas escolhas das equipas que apoia ressoam com as pessoas que veem o futebol como um jogo multicultural e internacional — um lugar de tolerância e fronteiras abertas, de ligações e trocas culturais. E um lugar onde as lealdades e identidades das diásporas e dos imigrantes são respeitadas e celebradas.”
O silêncio de Mamdani sobre o Irão e Balogun e o meme de José Mourinho: “Se eu falar, grandes problemas”
Razão pela qual algumas atitudes de Mamdani ao longo do Mundial não foram isentas de críticas, embora tenham sido tímidas. O homem que defendeu bilhetes mais baratos assistiu ao Brasil-Marrocos no camarote, por exemplo, o que levou alguns a questionar por que razão não ficou nas bancadas como o resto dos adeptos.
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E Mamdani, sempre tão vocal na defesa das equipas menores, não fez qualquer declaração pública sobre o tratamento dado à seleção iraniana, obrigada a viajar de e para os Estados Unidos sempre nos dias dos próprios jogos, enfrentando controlos apertados na imigração dos aeroportos.
Mais evidente ainda foi o silêncio do mayor, sempre tão crítico de Trump, no caso Balogun. Quando o jogador da equipa norte-americana recebeu um cartão vermelho que muitos consideraram injusto, Mamdani classificou a decisão como “cruel”. Mas quando o Presidente interveio diretamente junto de Infantino para que o castigo fosse revertido — o que acabou por acontecer —, o autarca não se pronunciou publicamente. No X, partilhou um famoso meme de José Mourinho em que o treinador português diz “Prefiro não falar. Se eu falar, grandes problemas.”
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Recusar um bilhete da FIFA para assistir a um jogo implicaria a ausência do mayor de Nova Iorque do lugar normalmente atribuído aos representantes políticos. Falar sobre o caso do Irão incorria Mamdani em risco de parecer alinhar-se com um país em guerra com os EUA. E criticar a decisão sobre Balogun poderia passar a impressão de que o autarca não estava com a seleção nacional norte-americana. Mamdani procurou politizar este Mundial; mas o poder traz sempre custos.
Durante o torneio, Zohran Mamdani tentou colocar-se como contraponto ao Presidente Donald Trump — que, ao contrário do esperado, se manteve praticamente em silêncio sobre o tema durante todo o Mundial —, mas sem o criticar diretamente. Uma postura que, nota o New York Times, foi semelhante à que o mayor tentou adotar face a Gianni Infantino, “mantendo-o à distância, mas suficientemente próximo para lhe apertar a mão quando isso beneficia os interesses de Nova Iorque”.

Terá essa postura trazido dividendos políticos para um homem que se afigura como um rosto do futuro do Partido Democrata? Os especialistas ouvidos pelo Observador têm dúvidas. O impacto a nível nacional, diz Heath Brown, “é quase nulo”. “Tendo em conta a receção mista que o futebol tem nos EUA, não tenho a certeza que o grande Mundial de Mamdani se traduzirá numa posição mais forte como político a nível nacional, pelo menos não de forma imediata ou direta”, reforça Alan McDougall. “Mas”, acrescenta o académico, “mal não faz à sua crescente popularidade a nível nacional, sobretudo entre democratas e entre aqueles que estão na esquerda do Partido Democrata”.
O Mundial só fez de Mamdani mais popular entre “aqueles que já admiram as suas políticas”, diz. “Para os apoiantes de Trump (ou até para os que estão no topo da FIFA, liderada, é claro, por Infantino), Mamdani pode ser um irritante político, mas é improvável — sendo ‘apenas’ o mayor de Nova Iorque — que seja um fator ao mais alto nível da geopolítica do futebol”, nota McDougall. “A crítica de Mamdani dos preços dos bilhetes e da comodificação não vai fazer a FIFA baixar os preços dos bilhetes em 2030, quando provavelmente haverá 64 equipas (e portanto ainda mais jogos para a FIFA vender, publicitar e lucrar).”
O professor Heath Brown é ainda mais taxativo: “Dizer que Mamdani é um dos vencedores deste Mundial é ir demasiado longe. Os verdadeiros vencedores deste Mundial são Vozinha e Zlatan”, diz, referindo-se ao guarda-redes de Cabo Verde e ao histórico jogador Zlatan Ibrahimović, que se tornou o comentador-sensação do torneio na televisão norte-americana. Afinal, o futebol pode ser global, mas um mayor continua a ser “apenas” um mayor.
[Um poderoso empresário concorre à Câmara de Lisboa e vai fazer tudo para ganhar as eleições, ao mesmo tempo que vive um drama familiar: o filho foi raptado e está desaparecido há quase um mês. Onde está afinal José Valbom? “O Candidato Perfeito” é o novo podcast de ficção do Observador, em parceria com a Coyote Vadio, e é a continuação da história de “O Zé faz 25”. Conta com as vozes de José Raposo, Tiago Teotónio Pereira, Madalena Almeida, Vera Moura, Paulo Calatré, Susana Brandão, Sara Matos, Fábio Baptista, Pedro Laginha e Carla Andrino. Pode ouvir o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]
