Foi assim que Didier Deschamps se despediu da seleção francesa: derrotado por 6-4 frente à Inglaterra e no quarto lugar do Mundial-2026, depois de um jogo que resumiu, em 90 minutos, tudo o que a sua passagem pela seleção teve de inesperado, como selecionador e jogador.
A despedida quase ganhou contornos de pesadelo. Ao intervalo, a França perdia por 4-0, uma exibição que o próprio Deschamps, antes do segundo tempo à saída do balneário, onde não terá tido uma conversa propriamente simpática com os seus jogadores, resumiu numa palavra: “catastrófica”. O que se passou a seguir, no balneário, ninguém sabe ao certo – mas há um indício que fala por si. O selecionador tirou, de uma só vez, quatro dos 11 jogadores que começaram a partida – um por cada golo sofrido. Não é o tipo de gesto que se faz depois de uma conversa serena, e a resposta da equipa em campo, na segunda parte, sugere que a mensagem, fosse ela qual fosse, surtiu efeito.
A seleção francesa marcou três golos sem resposta assim que o jogo recomeçou, reduzindo a desvantagem a um golo (4-3) e devolvendo alguma dignidade a uma tarde que ameaçava ficar marcada pelo pior dos motivos. Mas a Inglaterra, mesmo tocada, ainda teve fôlego para reagir depois de três lances em que o empate esteve à vista: fez o quinto golo perto do fim, a França respondeu de imediato com o quarto, e os ingleses fecharam a contagem com um sexto golo nos instantes finais. 6-4, dez golos ao todo – mais próprio de um jogo de hóquei em patins do que de futebol, mas um resumo perfeito do que costuma ser esta partida de consolação, historicamente mais aberta e menos amarrada taticamente.
O jogo, disputado no Miami Stadium, era também o 26.º de Deschamps como selecionador da França em fases finais de Campeonatos do Mundo – um recorde absoluto, o maior número de jogos de sempre de um técnico na competição. Podia ter chegado a esse marco ainda mais cedo, na meia-final frente à Espanha, mas Deschamps não orientou a equipa num jogo da fase de grupos, contra a Noruega, para viajar até França e estar presente no funeral da mãe.
O selecionador chegou a este encontro depois de a França ter sido eliminada pela Espanha, por 2-0, nas meias-finais, em Dallas, a 14 de julho. Era a despedida de um ciclo de 14 anos à frente dos bleus – um dos mais bem-sucedidos da história da seleção francesa, com a segunda conquista da seleção francesa de um Mundial (2018) — 20 anos depois da primeira, que o próprio também disputou, como jogador –, uma final perdida (2022, no Qatar) e uma Liga das Nações conquistada (2021).
Horas antes do apito inicial, Kylian Mbappé, que se tornou o melhor marcador em Mundiais à frente de Messi, recorreu ao X para deixar uma mensagem sentida ao seu selecionador. “Hoje é a tua última dança. Tu, que tanto nos deste. Devíamos ter-te oferecido uma despedida melhor, mas falhámos. Colocar em palavras o que trouxeste durante 14 anos é muito difícil, de tal forma foste um elemento fulcral no renascimento desta equipa. As pessoas nem sempre souberam valorizar a tua grandeza, mas o tempo e a história encarregar-se-ão disso…”, começou por escrever o avançado do Real. “Obrigado por me dares a oportunidade e a hipótese de representar o meu país no maior palco do mundo durante tantos anos. Sinto-me um privilegiado por ter podido estar ao lado de uma das maiores lendas do nosso país, e guardo apenas excelentes recordações de tudo o que vivemos e conquistámos juntos. Desejo-te o melhor nesta tua nova aventura e, mais uma vez, obrigado por tudo o que deste a esta camisola que tanto significa para nós”, concluiu.
https://twitter.com/KMbappe/status/2078531906547675518
Também Emmanuel Macron recorreu ao X para prestar homenagem ao selecionador. “Vira-se esta noite uma página da história do futebol francês. Obrigado, Didier Deschamps, pelas vitórias lendárias, pelas emoções intensas, por teres carregado os nossos bleus durante anos e feito vibrar a França. 14 anos: a geração Deschamps”, escreveu o Presidente francês.
https://twitter.com/EmmanuelMacron/status/2078580362200908227
Na véspera, em conferência de imprensa, o próprio Deschamps não tinha escondido a emoção do momento, ainda que com a compostura que sempre o caracterizou. “Sei muito bem que é o fim. Ninguém vai chorar, mas sei que vou ter saudades da seleção. Tive o privilégio de viver momentos mágicos e outros mais difíceis por 25 anos – 11 como jogador. Representar a França foi o melhor que me aconteceu e isso deixa uma marca ainda maior, pois ficam lembranças inesquecíveis, mas sou uma pessoa positiva por natureza e o importante é o que se segue”, disse.
Os números da sua passagem pela seleção, seja como jogador seja como selecionador, dificilmente serão repetidos. Fecha a conta com 26 partidas como selecionador francês em Mundiais, com 19 vitórias, três empates e quatro derrotas. Somando os sete jogos que disputou como capitão da seleção – com seis vitórias e um empate –, o agora ex-selecionador participou diretamente em 33 das 79 partidas da história da seleção francesa em Campeonatos do Mundo.
Deschamps assumiu o comando dos bleus a 9 de julho de 2012, sucedendo a Laurent Blanc. O sucessor mais provável é Zinedine Zidane, antigo capitão da seleção e três vezes vencedor da Liga dos Campeões pelo Real Madrid, sem clube desde que deixou os merengues em 2021… e antigo campeão mundial ao lado de Deschamps pela seleção francesa, na competição que o país organizou em 1998.