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O barril de pólvora

culpamos o ordenamento, ou a falta dele, os incendiários e as ignições noturnas, os eucaliptos e as monoculturas, mas o facto é que sem pessoas o território transforma-se num rastilho contínuo

João Adrião
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O fogo era a grande singularidade entre os antigos Elementos pois em si próprio não tinha substância. Contrariamente aos restantes elementos – água, terra e ar – o fogo não existe por si próprio. É, antes, uma reacção, a soma brilhante das suas circunstâncias. É uma criação do seu contexto. Conhecer esse contexto é conhecer o fogo. Controlar esse contexto é controlar o fogo.”
(Stephen J. Pyne)

Expressão que muito costumamos ouvir por esta altura do ano a respeito das nossas paisagens e da incidência recorrente de incêndios nelas, o título deste artigo é também o título de um livro que acabei de publicar, onde reuni um vasto conjunto de textos que fui escrevendo ao longo dos últimos anos, sobretudo aqui, no Observador, e onde abordo o tema que o país insiste em esquecer no inverno e lamentar no verão: a gestão dos incêndios florestais e a sobrevivência do mundo rural.

A política de fogos em Portugal tem sido pautada por um populismo punitivo e por um “Estado Xerife” que asfixia quem vive, limpa e trabalha a terra. Todos nos lembramos das promessas feitas pelo poder político a cada grande tragédia que assola o nosso território. Prometeu-se uma reforma florestal profunda, mas o resultado foi o mesmo de sempre. Ainda recentemente ouvimos o ministro da Administração Interna, Luís Neves, a lamentar-se acerca de aspetos visados pela maior reforma desde D. Dinis.

O livro organiza-se para responder às razões pelas quais o centralismo falha verão após verão, apostando numa estratégia que acaba vítima de si própria, e como nos podemos libertar desta armadilha por forma a discutirmos o essencial: como gerir o barril de pólvora.

Partindo do “Divórcio entre o Gabinete e a Terra”, este ensaio divide-se em duas partes estruturais:

Na primeira, analiso o Território e o seu Contexto: partimos da “Memória da Paisagem”, onde recuamos à história humana e sua intervenção ancestral, revemos as mudanças ocorridas de maneira a chegarmos às “Patologias do Território”, onde se desmontam as raízes estruturais e a dimensão económica da floresta, avançando depois para a crítica ao sistema vigente, a que podemos chamar de a “Ilusão do Combate” e acabando com “Crónicas do Rescaldo”, onde a partir de casos reais ao longo dos 8 anos em que aqui escrevo, exponho o circo mediático e o ciclo político do esquecimento.

A segunda parte é focada nas soluções, onde tento desenhar um possível “Caminho para o Futuro”.

Com efeito, andamos há décadas presos a um paradoxo perigoso – conhecido na bibliografia internacional por Paradoxo do Fogo/Armadilha do Bombeiro/Ratoeira do Combate: alimentamos a obsessão cega de apagar todos os fogos, eliminando com isso o chamado “fogo bom” e gerando uma acumulação de combustível sem precedentes, que à falta de uma economia que o faça, é ciclicamente eliminada contra a nossa vontade, e por vezes de forma trágica, pelo fogo selvagem, os incêndios.

O resultado é o expectável e está à vista: criamos as condições perfeitas para alimentar grandes incêndios, inapagáveis e catastróficos, no pico do verão – e eles de facto cada vez são maiores – num mundo rural ao abandono.

Depois culpamos o ordenamento, ou a falta dele, os incendiários e as ignições noturnas, os eucaliptos e as monoculturas, mas o facto é que sem pessoas e sem rentabilidade da floresta, o território se transforma num rastilho contínuo. Portugal está sentado numa bomba-relógio ecológica e social, e estranho é ainda nos surpreendermos quando inevitavelmente arde.

Inverter isto não é fácil (ou já estaria feito), mas o que salta à vista ano após ano é que não é o caminho que temos trilhado que o vai conseguir. Pelo contrário, estamos a alimentar o Barril de Pólvora.

Não pode ser.

É por isso que este livro não é uma mera compilação de textos dispersos, mas sim um manifesto de rutura estruturado e um guia prático para a mudança que urge fazer no país. Ainda agora assistimos à tragédia aqui ao lado em Almeria. E muito costumamos gabar o ordenamento, o profissionalismo, etc. de nuestros hermanos. Ora o que o fogo nos mostrou é que com Barris de Pólvora, tudo corre mal e essas grandes diferenças que vemos neles para melhor, afinal, esfumam-se…

E é também uma forma de reconhecimento e contributo a esta casa jornalística que me acolhe e me dá voz há quase uma década, pelo que muito agradeço a todos, desde o José Manuel Fernandes até vós, leitores.

O livro, que inclui umas poucas dezenas de artigos originalmente editados neste jornal, encontrar-se-á à venda nas lojas online da Bookmundo e da Fnac.