Sobreviveu uma fotografia em tons de sépia de Walt Whitman, na qual o poeta – já idoso, meio paralisado, entre o espanto e a serenidade – observa uma borboleta que, por uma qualquer inexplicável reviravolta do destino, lhe pousou no dedo como se este fosse o tronco apodrecido de uma árvore morta. Aquele que cantara os grandes rios, o bardo das multidões democráticas e da vida física, estava, no momento em que a fotografia foi tirada, em pleno declínio, fraco, sonolento, e ainda assim completamente arrebatado por aquele olhar límpido e azul no qual o oceano deixara a marca da sua grandeza. Há corpos que envelhecem como se fossem continentes; a pele enrugada é apenas o mapa tardio de viagens antigas.
O seu pequeno eu estava esgaçado, mas o eu maior permanecia ligado à paisagem americana, que incluía, claro, a borboleta escura (uma Composia credula, dizem alguns) pousada e aberta no seu dedo. Papilio, em latim, tanto significa borboleta como a leveza efémera de um gesto; no mundo grego, a mesma palavra, ψυχή (psyché), nomeia a alma e o insecto que se desprende da crisálida. Talvez seja por isso que, desde muito cedo, a borboleta tenha sido tomada como figura do que abandona a sua prisão de larva para ensaiar um voo breve: não a eternidade, mas a duração mínima em que a alma se mostra à luz antes de regressar à noite.
«O que vês nesta visita inesperada, Walt?», perguntou um dos presentes na sessão fotográfica, analisando a sua expressão. A pergunta parecia excessiva para um gesto tão pequeno, mas as grandes questões escolhem sempre, para descer ao mundo, pretextos ínfimos: uma luz que se apaga numa janela, uma ave pousada num parapeito, uma folha que cai, o brilho de um insecto num dedo envelhecido.
Whitman parecia não prestar atenção aos seres que o rodeavam. Já não pisava a erva das suas regiões amadas, nem contemplava ou cantava à lua com um ramo de salgueiro na mão; já não escrevia, nem, provavelmente, ditava a outros o que lhe passava pela cabeça. O poeta que em tempos aspirara a ser a própria respiração da América encontrava-se agora reduzido ao gesto minúsculo de sustentar, na carne cansada da mão, um fragmento escuro de noite alada.
«Vejo a noite», disse com um suspiro ténue, «vinda de longe, escolheu repousar sobre a minha pele por alguns instantes. Criatura silenciosa, antigos brilhos no braço de um velho cansado!» A noite, νύξ (nyx), mãe de tantos deuses na cosmogonia antiga, dobrava-se ali numa sílaba breve pousada sobre um dedo: não é o céu que cai, é a sua mínima mensageira que se deixa ficar, como se verificasse discretamente se o corpo que a sustenta está pronto para regressar ao escuro de onde veio.
O fotógrafo sorriu. Aquele que fizera a pergunta, porém, não. Talvez tivesse percebido que, na resposta do velho, a borboleta deixara de ser um insecto para se tornar um oráculo: a visita inesperada já não era um acaso, mas um presságio que a câmara, indiferente, se limitava a fixar.
«Quando trabalhei como enfermeiro durante a nossa miserável guerra», continuou Walt Whitman, «cuidei de um jovem que por vezes delirava, e noutras contava-me a sua paixão por borboletas. Dizia que existiam borboletas diurnas, vespertinas e nocturnas, e que todas descendiam das criaturas peludas que voam sob a lua e as estrelas.» Nesse delírio organizado havia uma teologia mínima da luz: o dia, o crepúsculo, a noite, tudo confiado a asas frágeis que se alimentam de claridade.
Disse ainda que Eros, o amor, é filho da noite, não do dia, e também irmão de Hipnos, o sono. Tudo provém das trevas e a elas regressa. Hesíodo diria o mesmo de forma mais severa: do Caos nasceu a Noite, da Noite o Sono e a Morte; mas o jovem soldado, sem o saber, repetia a mesma genealogia. No escuro da enfermaria, entre ligaduras e febres, ele refazia, com palavras pobres e exactas, a cosmogonia antiga: Eros não é a claridade sentimental que hoje celebramos, mas uma força obscura, nocturna, que fere, adormece e acorda, tudo ao mesmo tempo.
«Ele sangrava mitologia; a sua dor era um misto de saber e não saber que ia morrer. Acariciei-lhe a testa e disse-lhe, simplesmente para dizer alguma coisa, que a primavera se aproximava. Que os bordos libertam já a sua doce seiva e que o ar, para além da pólvora a arder, era um concerto de alegres trinados.» A estação que se anuncia, ver, em latim, guarda no seu nome um brilho de verdade (verum): a promessa de que, uma vez mais, alguma coisa florirá sobre a terra, mesmo quando nenhum corpo parece ter futuro.
Uma agradável admiração dilatou as pupilas daqueles que ouviam o velho poeta. A borboleta continuava ali, no dedo de Whitman, com as suas pequenas asas negras salpicadas de branco. De facto, assemelhava-se a um fragmento da noite, uma partícula cósmica em repouso. Recordava aquelas manchas escuras em certas fotografias do céu profundo: zonas aparentemente vazias onde, no entanto, se esconde a maior densidade de estrelas. O negro, seja de borboleta, seja de universo, não é ausência; é excesso condensado.
«É estranho que nos comova a espiral infinita das galáxias», disse o bardo com uma voz bem modulada, «e que algo tão frágil como esta borboleta, que sem dúvida veio anunciar o meu regresso, nos console deste tremor. O leite celeste, que escorreu do peito distraído de uma deusa, tornou-se a faixa branca que atravessa a noite; e, no entanto, é um insecto minúsculo, esse resquício de noite viva pousada no meu dedo, que consola mais do que a visão do cosmos inteiro.»
«Um regresso?» perguntou o fotógrafo, enquanto ajeitava o tripé, essa forma mínima de altar pagão – três pés que sustentam um oráculo de vidro e metal pronto a sacrificar o tempo ao instante. «Um regresso», repetiu o poeta. «Meu, pois em breve serei novamente vento, e chuva, e orvalho sobre as cerejeiras silvestres. A aparência do meu rosto dissolver-se-á no percurso das nuvens, o último batimento do meu coração descerá ao mais profundo veio de água da terra.»
«Como é que sabes tudo isto, Walt?» perguntou uma mulher, que não cessava de tomar notas. Havia, no seu gesto de escrever à pressa, a mesma avidez com que os eruditos copiam um verso raro na margem de um tratado árido, salvando sem dar por isso um fragmento que o futuro há-de tomar por essencial. A mão que anota e a mão que sustém o insecto participavam da mesma pressa: fixar o que passa.
«Está ela a lê-lo», respondeu o poeta, apontando para a borboleta, «nos meus poros mais minúsculos. Tão vazio como a abóbada celeste que sustenta a nossa Terra, tão íntimo como a noite que se aproxima.» Os poros, pequenas aberturas na pele, faziam lembrar aquelas fissuras inaugurais de que falam os textos sagrados quando ousam dizer «no princípio»: não um ponto abstracto no tempo, mas uma brecha por onde o ser se infiltra. A abóbada que parece cobrir‑nos por fora repetia‑se, miniaturizada, naquele tecido perfurado que a borboleta tacteava com as patas.
Talvez seja esse o segredo último da fotografia: não o rosto de Whitman, nem a forma exacta das asas, mas o breve entendimento silencioso entre um corpo que se desfaz e um pequeno habitante da noite que, pousando por instantes, parece ler, na língua imperceptível dos poros, aquilo que o próprio poeta já não precisa de escrever.
À medida que a tarde se adensa em sépia e o peso do corpo já quase não pertence ao próprio corpo, a aproximação do fim deixa de ser anúncio e passa a ser hábito: entra e sai pela porta entreaberta da respiração, tal como a borboleta pousa e descola do dedo, experimentando a consistência do mundo antes de o abandonar. Não há revelação, apenas esta lentíssima arte de desaprender a gravidade, de se ir soltando, por dentro, das coisas que ainda nos chamam pelo nome. O fim, quando chega, não desmente nada: limita-se a confirmar que sempre fomos isto — uma breve visita de luz à superfície da noite, um estremecimento de asas no exacto momento em que a fotografia, cansada, decide finalmente escurecer.