O almoço manteve a obsessão de segurança que já tem marcado as audiências em Belém e que é uma novidade com o novo chefe de Estado. À entrada do almoço de fim de sessão legislativa em que o Presidente da República convidou líderes parlamentares e membros da Mesa da AR, todos tiveram de deixar os telemóveis à porta, em cacifos de acrílico, e guardar a respetiva chave. Comensais ouvidos pelo Observador — para quem a única forma de registarem o momento foi através da memória — conseguem, no entanto, recordar a mensagem mais relevante do Chefe de Estado no repasto de quinta-feira: “Espero que para o ano estejamos todos aqui, os mesmos”. A leitura de Seguro, no entendimento de vários deputados presentes, é clara: é preciso estabilidade, aprovar o Orçamento do Estado e, se possível, levar a legislatura até ao fim, até 2029.
Os convidados de Seguro dividiram-se por três mesas. Na mesa de Seguro ficaram o presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, os vice-presidentes da AR, Teresa Morais, Marcos Perestrello, Diogo Pacheco Amorim e Rodrigo Saraiva, o ministro dos Assuntos Parlamentares, Carlos Abreu Amorim, e o líder parlamentar do PSD, Hugo Soares.
A conversa foi sempre descontraída entre os deputados e o Presidente da República. O Chefe de Estado chegou a comentar bem-humorado e na brincadeira com os deputados: “Não mandem muitas coisas, que é para eu não ter muito trabalho”. Ao que alguns retorquiram: “Olhe que o guião [que seria votado esta sexta-feira] tem muitas páginas.”
Na mesa presidencial, comentou-se, sem nunca se terem referido ao caso concreto, a situação como a que envolve Luís Neves. Todos concordaram, incluindo o Presidente, que é indispensável escrutinar os políticos, mas deve haver uma fronteira clara entre “o escrutínio e o voyeurismo”. Comentou-se à mesa onde estava Seguro que “qualquer dia já ninguém quer ir para a política”. À hora do almoço, ainda não se sabia metade da história do monte de Luís Neves — nomeadamente a questão do atrelado. Foi lembrado ainda que, no 25 de Abril, o discurso do presidente da AR pretendia, precisamente, alertar para a devassa da privacidade dos políticos. O Presidente foi concordando, mas sempre sem se comprometer com nenhuma opinião.
António José Seguro acabou por comentar, com os companheiros de mesa, que ele próprio foi vítima de notícias (inclusive do mesmo jornal, o Nascer do Sol) que sugeriram que não tinha declarado como candidato mais de um milhão de euros de rendimentos da mulher. O Chefe de Estado explicou que, quando foi candidato, lhe disseram que a secção onde era necessário colocar esses dados “não era para preencher”. Só quando foi eleito Presidente é que preencheu as “coisas” da mulher.
O menu começou com uma entrada de queijo chèvre, que veio acompanhada de um shot de gaspacho. Seguiu-se um bacalhau e uma sobremesa sofisticada com um gelado de queijo camembert. Os deputados já experientes — que já iam a estes almoços com o antecessor Marcelo Rebelo de Sousa — não deixaram de notar que a comida “melhorou substancialmente”.
A refeição durou duas horas e os deputados estiveram sempre sem acesso ao mundo exterior, como se estivessem num bunker. A meio da reunião a ajudante de campo do Presidente foi segredar-lhe ao ouvido, o que levou deputados a comentar entre si: “Já começou uma guerra ou caiu um ministro e nós aqui sem saber nada”. Afinal, não era nada disso. Aliás, deixar os telemóveis à porta deixou vários deputados desconfortáveis, mas alguns saíram em defesa do Chefe de Estado a dizer que eram “regras NATO”.
No final do almoço o Presidente da República emitiu uma nota no site da Presidência em que confirmava a mensagem principal revelada pelos deputados ao Observador, que manifestou “a vontade de voltar a receber todos os presentes em julho do próximo ano”. A Presidência da República escreveu ainda na sua página oficial que, “independentemente das diferenças políticas que os protagonistas parlamentares têm entre si, há um objetivo comum: resolver os problemas das pessoas e cuidar da democracia e da República”. O clima era de pré-férias. Mas a política, para todos os protagonistas presentes, nunca tira férias.
[Já saiu o segundo episódio de “O Candidato Perfeito”. Em “Câmara Lenta”, José Valbom acorda num armazém, vigiado por homens que falam russo. Os inspetores seguem o rasto de um carro preto. A polícia aperta o cerco, mas o tempo está a esgotar-se. Este novo podcast de ficção do Observador, em parceria com a Coyote Vadio, é a continuação da história de “O Zé faz 25”. Conta com as vozes de José Raposo, Tiago Teotónio Pereira, Madalena Almeida, Vera Moura, Paulo Calatré, Susana Brandão, Sara Matos, Fábio Baptista, Pedro Laginha e Carla Andrino. Pode ouvir o primeiro episódio no site do Observador, no Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]
