Visitei Filadélfia, na Pensilvânia, e Boston, na Nova Inglaterra, cidades dos Founding Fathers, nestes últimos 15 dias. Foi durante o Mundial de Futebol, com os estádios todos a deitar por fora, apesar dos preços elevadíssimos dos bilhetes. Não havia café ou restaurante que não tivesse uma televisão com imagens dos jogos que decorriam. Há 15 anos, poucos sabiam na América o que era o nosso futebol, apenas conheciam os seus desportos favoritos, como o futebol americano, o baseball e o basquetebol. Hoje não há bicho careta nos Estados Unidos que não saiba o que é o futebol, o soccer, o nosso.
Acompanho empolgado os meus grandes heróis da Seleção Nacional, mas não vejo desafios em directo, tal o estado de ansiedade em que me deixam. Prefiro ver os resumos das vitórias e os golos dos nossos selecionados. Depois, celebro com eles as vitórias, choro com eles os desaires.
Esta visita aos 250 anos do 4th of July não foi futebolística, não foi bombástica: nunca os meus interlocutores de várias raças e credos falaram de Trump, nem de política… Foi uma ocasião para relembrar a história de uma democracia, do seu dealbar, e para viver o presente da América profunda.

Portugal está na moda
Tive a sorte de em Filadélfia ter sido recebido por bons amigos, muito próximos das raízes dessa história da independência dos Estados Unidos.
O que mais me chamou a atenção foi constatar que Portugal e os portugueses estão na moda. Desde as pessoas que conheço, ou conheci por estes dias, fossem ligadas à vida empresarial de Filadélfia, fosse o motorista do Uber, o empregado do restaurante ou o do hotel, não houve ninguém que não fizesse uma exclamação de satisfação quando lhes dizia de onde vinha, todos com vontade de cá vir, muitos já tendo visitado Portugal. É claro que, aqui e ali, lá vinha o Cristiano Ronaldo à conversa; mas do que queriam falar, ou ouvir falar, era de Portugal.
Os turistas americanos vieram a Portugal em número crescente nos últimos anos: cerca de 1 milhão em 2022, 2,29 milhões em 2024 e cerca de 2,45 milhões em 2025. As projecções para 2026 estimam cerca de 2,55 milhões de americanos, e para 2027 apontam-se cerca de 2,7 milhões, devendo os EUA ultrapassar os 3 milhões de visitantes anuais antes de 2028.
Os americanos são, desde 2021 e até hoje, os maiores investidores imobiliários no setor de luxo em Portugal. Há projeções que indicam a chegada de entre 3.000 e 5.000 novos investidores norte-americanos até ao final de 2026. São, na estatística oficial entre 2023 e 2025, os que mais crescem. Alugam casas na Comporta a €1.500, ou talvez o dobro ou o triplo, por noite, e comem em restaurantes de €200 ou mais por pessoa. Os britânicos gastam mais no total, mas os americanos gastam muito mais por pessoa/por dia.
Há quinze anos, quando me dizia português, nem faziam ideia do que eu estava a falar. Hoje sabem muito bem, e querem saber muito mais.
O regresso ao passado com os Amish
Mas vamos à frente humana e cultural: no Estado da Pensilvânia, que tem por “capital” Filadélfia (era capital em 1776, mas em 1812 Harrisburg ganhou esse título e, nas comemorações dos 250 anos foi pouco relevante, com os seus cerca de 50.000 habitantes), encontrei nestes últimos quinze dias três casos particularmente interessantes, que nem todos conhecem.
Primeiro, o caso dos Amish — pois tive a oportunidade de almoçar em casa de uma família daquele credo cristão.

Distribuem-se por 32 estados, mas mais na Pensilvânia, no Ohio e em Indiana, com cerca de 60% da população Amish americana. Em 25 anos, de 178.000 em 2000, passaram para cerca de 410.000 em 2025, duplicando aproximadamente a cada duas décadas, fruto de famílias com 6 a 10 filhos.
Os Amish descendem dos Anabaptistas suíços e alemães do século XVI, e emigraram no início do século XVIII para a Pensilvânia, terra tolerante de William Penn, onde hoje mantêm o maior núcleo. A vida deles rege-se pela Ordnung, código não escrito de disciplina, desde o vestuário austero (mulheres com toucas e vestidos escuros, homens de barba — mas sem bigode — desde que casam), rejeição da corrente eléctrica pública, do automóvel (deslocam-se em carroças puxadas a cavalo), do telefone dentro de casa e da internet. Vivem da agricultura tradicional, com arados puxados por cavalos. Cultivam milho, outros cereais, e produzem lacticínios. As explorações são familiares e assentam em grande entreajuda: quando é preciso construir um celeiro, a comunidade inteira aparece e constrói-o num dia (o famoso barn raising), sem seguros, sem contratos.

A família é o centro absoluto daquelas comunidades: pais e mães com seis, oito, dez filhos (no nosso caso, o casal tinha oito filhos), a quem se transmite a fé em casa e nas escolas próprias, onde as crianças estudam apenas até ao 8.º ano. Falam entre si Pennsylvania Dutch, dialeto alemão, aprendem inglês na escola e exprimem-se em Hoch Deutsch (alemão correto) apenas na liturgia, que tem lugar nas casas — não têm templos. Os casamentos celebram-se depois das colheitas, tipicamente em Novembro, sem alianças, sem fotografias, com centenas de convivas. É um mundo à parte, disciplinado, coeso; mostram grande tranquilidade e a família onde estive dava claras mostras de ser feliz.

Precedida de uma oração em recolhimento, a refeição (almoço) foi a melhor desta estada nos Estados Unidos. Era tudo feito em casa: pão amassado naquela manhã, a manteiga era a batida na despensa, o puré de batata cultivada nas hortas estava feito com leite de vaca acabado de ordenhar nessa manhã, o presunto tinha sido curado e defumado no fumeiro do quintal, o frango tinha sido abatido no dia, o queijo era feito em casa. Não havia embalagens comerciais à vista, nada tinha conservantes.
Os Amish são apenas baptizados na idade adulta, entre os 16 e os 25 anos, e desde que bem aprendida a doutrina. Antes disso, é concedido aos rapazes mais jovens o direito de andarem dois a três anos «a correr por aí»: largam o traje escuro, vestem jeans, aprendem a conduzir, usam telemóvel, provam a cerveja, o cinema, fumam,
talvez tentem a droga. Ou seja, experimentam sem culpa um mundo de que, até então, apenas tinham ouvido falar.
É uma radical prova de fé. Findo esse tempo, cada um escolhe. Se aceitam o baptismo, regressam à comunidade para serem baptizados e ali ficarem toda a vida. Se não, saem sem ruptura, mantendo o afeto da família. A grande maioria, entre 85 e 90%, regressa à simple life dos Amish depois de viver o mundanal ruído.
É o regresso a um passado que, para todos os outros americanos, e para todos nós, portugueses, já se extinguiu.
O exemplo de Albert Barnes
Um outro caso cultural, e sério assunto, é o de Albert Coombs Barnes, que viveu entre 1872 e 1951 — uma das figuras mais fascinantes e rebeldes da América do início do século XX. Nascido pobre em Filadélfia, estudou química e medicina. Em 1902 inventou o Argyrol, um anti-séptico utilizado sobretudo para prevenir infeções oculares em recém-nascidos. Foi essa a cash cow que lhe fez a fortuna. Vendeu a empresa por um balúrdio em 1929, meses antes do crash.
E decidiu dedicar a fortuna ao colecionismo de arte. Entre 1912 e 1951, reuniu uma das maiores coleções privadas à face da terra: 181 Renoirs (a maior coleção do mundo), 69 Cézannes, 59 Matisses, 46 Picassos, além de Seurat, Van Gogh, Modigliani, Manet, Degas, El Greco, Toulouse-Lautrec, etc., etc. Tinha espírito litigante, odiava a alta sociedade dos Founding Fathers e o Museum of Art da cidade. Ficou e está tudo em Filadélfia. Mas deixou um testamento muito difícil de desembrulhar.

A coleção esteve durante 90 anos na sua casa, aberta a um público restrito, pois servia de escola de formação artística para trabalhadores e estudantes. O testamento proibia empréstimos, reproduções a cores, fotografias, mudanças de qualquer quadro para outro lugar da parede.
Depois de décadas de tribunais (ver filme The Art of the Steal, de 2009), finalmente um tribunal autorizou em 2004 a transferência da coleção para um novo edifício. O extraordinário deste Museu Barnes, já com 14 anos, é terem-se preservado religiosamente os locais onde originalmente Barnes dependurara os quadros: uma balbúrdia de pintores, em que os maiores se situam ao nível dos olhos e em cima das paredes estão muitos dos mais pequenos. As misturas de pintores muito distintos deixam o visitante perplexo.
Barnes é comparável a dois coleccionadores russos, Shchukin e Morozov. Foram contemporâneos os três, compraram em Paris nas mesmas galerias, muitas vezes disputando os mesmos quadros aos mesmos vendedores. Os russos foram desapossados e exilaram-se: em 1918, Lenine nacionalizou as colecções e transformou-as em museus do Estado.
O americano triunfou na vida e fez o que quis do que era seu. A base da pintura moderna francesa pode traçar-se hoje em três museus: Barnes na Filadélfia, Ermitage em S. Petersburgo, Pushkin em Moscovo. Sem os três, faltar-nos-iam quatro quintos do que Matisse pintou antes de 1917 e um terço do Cézanne tardio.
Sem o americano Albert Barnes, faltaria hoje ao mundo mais de metade dos Renoir.
A Milton Hershey School, sem a qual milhares de crianças acabariam na rua
O terceiro caso que aqui trago, e que fui conhecer por dentro, é o de Milton Hershey, pois tenho um amigo que tem dois órfãos a seu cargo, num caso complicado de vida, e que hoje frequentam com grande sucesso a Milton Hershey School.
Milton Snavely Hershey, que viveu entre 1857 e 1945, é uma daquelas figuras da América do Gilded Age: originário de uma modesta família não Amish, embora Menonita, começou como aprendiz num confeiteiro aos 14 anos. O seu quarto projecto empresarial, após ter falido em três, foi a Lancaster Caramel Company, fundada em 1886, que em 1900 vendeu por um milhão de dólares, fortuna colossal para o tempo. Apostou tudo no chocolate de leite, com segredo de preservação que ele descobriu, cujo processo de fabrico industrial era até então segredo dos suíços e que ele descodificou. Construiu uma fábrica gigantesca e uma cidade inteira à volta dela: casas, escolas, jardim zoológico, parque de diversões (o Hersheypark), trolley eléctrico, orquestra sinfónica, tudo para os operários. Do casamento com Kitty Sweeney, irlandesa católica, não tiveram filhos. Essa foi a causa do que fizeram depois com o dinheiro.

O casal Hershey criou em 1909 a hoje denominada Milton Hershey School, destinada originalmente a rapazes órfãos brancos entre os 4 e os 8 anos, para lá ficarem até aos 18. Kitty morreu em 1915 e, três anos depois, em 1918, Milton Hershey transferiu toda a sua fortuna pessoal, 60 milhões de dólares da época em acções da Hershey Chocolate Company, para a Hershey Trust Company, um trust em benefício do colégio, que continua a deter o controlo da empresa cotada em bolsa, a Hershey Company. Nos anos 70 abriu-se a rapazes e raparigas de todas as raças, e o critério de admissão passou a ser a carência socio-económica, filhos de pais separados, viúvos pobres, avós tutores. Hoje recebe cerca de 2.100 alunos, do pré-escolar ao 12.º ano.

Os terrenos do colégio ocupam mais de 4.000 hectares, propriedade maior do que alguns concelhos portugueses. Os alunos vivem em residências familiares, cada uma com 8 a 12 crianças e um casal que faz de pais substitutos. Foi o Gregg, um “pai” já reformado, que nos serviu de guia.
A Fundação é não-confessional. As crianças frequentam cerimónias religiosas de diferentes cultos e têm carrinhas para as levarem a cada templo na região, sem qualquer tipo de imposição doutrinária.
Em 1963, o Trust doou 50 milhões de dólares à Universidade Estadual da Pensilvânia (Penn State University) para criar o Penn State Milton S. Hershey Medical Center, hoje um dos maiores hospitais universitários da Costa Leste — com faculdade de medicina, escola de enfermagem, hospital pediátrico e centro oncológico. Hershey criou ainda em vida o Hershey Hospital para servir a cidade, tudo grátis para os trabalhadores.
Além da educação e alojamento, os órfãos recebem também gratuitamente o vestuário, a alimentação e os cuidados médicos. Os graduados recebem bolsas de estudo que pagam até 115.000 dólares no total por aluno para financiar os quatro anos de curso universitário.
Comparada com o universo americano de crianças em situação análoga, ou seja, filhos de pais pobres, separados, alcoólicos, dependentes ou desaparecidos, a Milton Hershey School produz taxas de sucesso extraordinárias: duas vezes mais de probabilidade de conclusão dos estudos universitários, salários médios pós-graduação significativamente acima da média dos seus pares de origem, e, o mais importante, uma cultura de auto-estima e de disciplina que raramente estas crianças recebem em qualquer outro contexto americano. Não é um lugar utópico e tem os seus problemas, naturalmente. Mas, para milhares de crianças, sem a Milton Hershey School, elas teriam terminado na tutoria ou no foster care estatal ou na rua: a diferença entre ter vida e não ter.
injustamente hostilizada pelos europeus.
A Hershey Company é hoje o maior fabricante de chocolate da América do Norte, dominando o mercado interno com diversas marcas muito populares — incluindo os Reese’s Peanut Butter Cups (a marca de chocolate mais vendida dos EUA) e o Kit Kat. Globalmente, ocupa o 5.º lugar entre os grandes fabricantes de chocolate. No exercício fiscal 2024, a Milton Hershey School teve um rendimento anual de 814 milhões de dólares. É o produto de dividendos da Hershey Company, rendas de imóveis e portfólio de investimento. A despesa anual é de 370 milhões de dólares, com cerca de 75% para programas educativos, alimentação, habitação, cuidados médicos e bolsas universitárias.
Isto significa que a Fundação embolsa todos os anos mais do dobro do que gasta, ou seja, está sentada em cima de uma fortuna descomunal. Mas o testamento de Milton Hershey proíbe expressamente que se toque no capital, obrigando-a a gastar apenas o rendimento desse capital, designadamente dividendos, juros e rendas. E como o rendimento cresce mais depressa do que as necessidades da escola, o excedente acumula-se, ano após ano, sem ser aplicado directamente em mais crianças, mas noutros projectos solidários. O custo médio por aluno anda pelos 176.000 dólares/ano, bem mais do que melhores colégios caros da Europa, como Eton, no Reino Unido, e outros.
Trouxe aqui apenas três, entre milhares de exemplos, que marcam uma América intrigante. É uma América imune às transições políticas, ignorada e tantas vezes injustamente hostilizada pelos europeus. São exemplos da América real, que tem, ao lado de muitas misérias e muito crime, estes mundos surpreendentes.
(Continua num próximo número, com a visita do autor a Boston)