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(A) :: "Murdle", "Murdoku" e "Cluedle": que febre é esta dos livros em que o leitor resolve crimes e enigmas?

"Murdle", "Murdoku" e "Cluedle": que febre é esta dos livros em que o leitor resolve crimes e enigmas?

Combatem o stress, exercitam o cérebro e são um fenómeno de vendas. Como é que a tendência nasceu e que opções há em Portugal? Explicamos-lhe tudo enquanto, desse lado, só precisa de ter um lápis.

Andreia Costa
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Atenção: se ainda não conhece este mundo, e tendo em conta os tops de vendas, corre o risco de sair deste artigo diretamente para uma livraria (isto se, entretanto, não tiver feito uma encomenda online). E, depois, prepare-se para não querer fazer absolutamente mais nada a não ser riscar nomes, decifrar frases encriptadas, fazer contas ou prencher tabelas. Só precisa mesmo de um lápis para começar.

Chamam-lhes livros puzzle ou livros enigma, há versões para adultos e para jovens e dominam os primeiros lugares das listas de vendas. Murdoku, Murdle, Clube dos Crimes Misteriosos, Criminalia, Quem é o Culpado?, Não Foi a Alice, Cluedle — as opções no mercado são cada vez mais e as editoras concordam que o fenómeno não vai abrandar tão cedo.

Que obras são estas, porque são tão viciantes, como chegaram cá — também já há livros 100% portugueses — e em que é que se distinguem? O Observador dá-lhe todas as respostas. Ou melhor, todas menos uma: afinal, quem é o culpado?

Que livros são estes?

Têm geralmente um mistério (ou vários), seja um roubo ou um homicídio para resolver através de enigmas e quebra-cabeças. No caso dos livros que pretendem revelar um assassino, têm suspeitos, armas e dicas — como no jogo de tabuleiro Cluedo — que ajudam a chegar à solução. Quem não conseguir à primeira, tem sempre as soluções para consultar no final do livro. Alguns têm também um sistema de pontuações (quantos mais mistérios resolver sem ajudas, mais acumula) e o grau de dificuldade vai aumentando ao longo das páginas.

Porque são tão viciantes?

O leitor faz parte da história e tem influência, é tão simples quanto isso. “O principal fator de atração destes livros reside na forma como envolvem ativamente o leitor”, considera a Porto Editora (responsável pela coleção Cluedle).

São sempre um jogo, que nos obriga a pensar, desenvolver teorias, perceber que estamos no caminho errado, voltar atrás, recomeçar, etc. “Há muitas semelhanças com o Cluedo [conhecido jogo de tabuleiro]”, compara Marta Miranda, diretora editorial da Manuscrito (editora de Criminalia). “Temos um local do crime, uma arma, uma lista de possíveis suspeitos. É um conceito que conhecemos e de que gostamos, e que agora podemos desfrutar sozinhos ou com amigos, em casa ou nos transportes públicos, num jogo rápido de dez minutos ou numa noite inteira a resolver desafios e quebra-cabeças.”

Há outro fator simples que desperta imediatamente o interesse. “[Estes livros] socorrem-se, logo à partida, de um universo central na literatura: o crime, o policial”, destaca Miguel Cardoso Pereira, editor executivo do grupo Infinito Particular (que edita Quem é o Culpado? na chancela Cultura).

Marta Serra, diretora de marketing e comunicação da Penguin Random House, acredita é um formato que está a “conquistar um público muito alargado, desde fãs de Agatha Christie e jogos de lógica até pessoas que gostam de escape rooms ou desafios de dedução”.

Apesar de alguns já estarem publicados há vários meses, houve novamente um aumento de vendas, agora que estamos no verão. “São o companheiro ideal para as férias: fáceis de transportar, permitem resolver um mistério em poucos minutos e são ótimos para momentos de descontração na praia, na piscina ou durante uma viagem”, justifica Andreia Rasga, diretora editorial da Presença (detentora das séries Murdle e Murdle Júnior).

Além disso, há ainda a mais-valia de fazer com que o leitor esteja focado numa tarefa, exercitando o cérebro e combatendo o stress. Por fim, segundo a Porto Editora, “tem-se observado um interesse crescente por formas de entretenimento sem recurso a ecrãs, uma tendência que ganhou maior expressão nos últimos anos e que continua a afirmar-se”.

Qual foi o primeiro?

A ideia é bem mais antiga do que se possa imaginar. O primeiro livro em que o leitor é o detetive, com provas para analisar e um culpado para encontrar, data de 1936 e foi pensado por Dennis Wheatley. A coleção Murder Off Miami era uma espécie de dossier com fotos, cartas e mapas que o leitor tinha de examinar.

Porque é que o género se tornou tão popular?

Em 2019 surgiu a coleção Journal 29. É um livro de enigmas, mas não tem a componente de romance policial. Murdoku foi pensado pelo canadiano Manuel Garand, criador de puzzles, em 2020, mas só cinco anos mais tarde é que os crimes foram compilados em livro.

G.T. Karber criou o Murdle (editado pela Presença em Portugal) em 2022 e o que o tornou apelativo foi o facto de cada caso demorar entre 10 e 30 minutos a resolver, ser visualmente simples e arrumado e juntar humor a mistério. Cada mistério tem suspeitos, locais, armas, pistas e uma grelha para esquematizar tudo. “A dificuldade vai aumentando gradualmente e isso faz com que o leitor queira resolver “só mais um caso”. É precisamente esse efeito que torna a série tão viciante, descreve Andreia Rasga, diretora editorial da Presença.

Quem é G. T. Karber?

Nasceu no Arcansas, nos EUA, e cresceu numa casa com uma mãe advogada e um pai juiz. Ainda assim, durante muito tempo não soube bem qual seria o seu caminho. Estudou Matemática e Literatura Inglesa, fez um mestrado de Artes Cinematográficas e começou a trabalhar como programador informático. Certo dia, em 2022, criou um enigma para um amigo e enviou-lho por email. Foi um sucesso, o amigo pediu mais e Karber acabou a criar um site com novos desafios e jogos de mistério partilhados diariamente — o que continua a acontecer.

Os primeiros livros foram publicados no ano seguinte e não param de multiplicar-se — entre versões para adultos e crianças, e dedicados a épocas festivas, estão traduzidos em mais de 20 línguas e venderam acima de dois milhões de exemplares.

Quando é que os livros chegaram a Portugal?

Em 2024 foram publicados os primeiros Murdle traduzidos e as vendas foram aumentando a cada volume. “O fenómeno consolidou-se à medida que o passa-palavra foi crescendo. Muitos leitores compraram um volume e regressaram para adquirir os seguintes”, diz Andreia Rasga, diretora editorial da Presença, responsável pela coleção em Portugal.

Quais são as outras coleções?

O Murdoku é outro título que anda nas mãos de todos. Se o título faz lembrar o Sudoku, é propositado: aqui há puzzles que apresentam um mini-mistério de homicídio, aliando a lógica do Sudoku e a resolução de quebra-cabeças. É visualmente apelativo, tem cores e o puzzle recria divisões (quartos, salas, casas de banho) e apresenta móveis (cadeiras, camas) e elementos de decoração (plantas, televisões). Tudo isto influencia o local onde se esconde o assassino e a sua vítima.

Assim que o primeiro Murdoku foi publicado em Portugal, no início de novembro de 2025, entrou logo no top de vendas, mas segundo Pedro Reisinho, editor da In (chancela da Zero a Oito, responsável por esta coleção), no final de abril “o sucesso passou para um nível diferente, tornou-se fenómeno nas redes sociais, saltou para o primeiro lugar dos tops e aí tem permanecido”.

Além disso, há um “lado comunitário” que o editor tem visto aparecer de forma inesperada. “Há amigos e colegas que se juntam em grupo para resolver mistérios.”

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O mercado está cheio de livros enigma, livros puzzle, como quiserem chamar-lhe. A série Enigmas do Clube dos Crimes Misteriosos (da Arena, chancela da Penguin Random House) começa com o Crime na Aldeia, o primeiro volume. “O que a distingue é precisamente a integração entre narrativa e enigmas. Não se trata de um conjunto de puzzles independentes: os enigmas fazem parte da história e muitas das informações essenciais para resolver o caso estão escondidas neles”, explica Marta Serra, destacando igualmente o segundo volume, O Plano Perfeito.

Em Quem é o Culpado? (Cultura, chancela do Grupo Infinito Particular), o D.T. Ivo (nome ficcionado do autor) precisa de ajuda para resolver 60 casos. Aqui, o que conta é o tempo. “Os puzzles pedem soluções rápidas, de cinco minutos. É ideal para o ritmo acelerado dos jovens leitores, sobretudo os iniciantes, mantendo o humor e o estilo modular”, explica Miguel Cardoso Pereira, editor executivo.

Não foi a Alice (Porto Editora) começa igualmente com um crime, mas tem um bilhete enigmático e uma pasta com nomes. A missão é analisar as pistas e eliminar suspeitos: são só 46,600 nomes — um deles é o culpado. Mas há mais, contrariamente aos outros livros, este não tem soluções no final. “O leitor deverá submeter a sua resposta na plataforma online dedicada ao livro, onde ficará a saber se identificou corretamente o responsável pelo crime”, explica a Porto Editora.

Há versões portuguesas?

Chama-se Criminalia (editado pela Manuscrito, que faz parte da Editorial Presença), foi criado pelo neuropsicólogo Vasco Catarino Soares  — autor da coleção Exercícios para o Cérebro — e a lógica é muito parecida com a da série Murdle. Aqui há um elemento que torna as coisas mais divertidas: além de ter sentido de humor, reúne referências portuguesas. “Logo no exercício ilustrativo, em que se explica como funciona o livro, a história é sobre um presidente que vai dar um mergulho nas águas do rio Tejo quando descobre um cadáver.”

“Quando o Murdle explodiu em Portugal, percebemos que fazia sentido fazer um novo projeto, tendo em conta os exercícios que o Vasco já tinha nos livros dele. No início, a ideia era relançar o primeiro livro da saga Exercícios para o Cérebro com um booklet de oferta, que traria 10 jogos deste género”, recorda Marta Miranda, diretora editorial da Manuscrito. Porém, o inspetor Massadas ganhou rapidamente mais protagonismo. “É uma personagem super engraçada: falamos de um detetive que um dia foi fenomenal, mas que agora é só preguiçoso e não tem paciência para pessoas.”

A Manuscrito apostou ainda noutra tendência que se destaca lá fora, mas que é ainda pouco explorada em Portugal. “A Maria Não é Culpada é um livro 100% português, criado por uma autora que assina com o pseudónimo Leonor Ridell. Mas surgiu porque nos apercebemos de que, nos tops internacionais, começavam a surgir livros que tinham um conceito muito simples, mas disruptivo e deveras interessante: os livros eram páginas e páginas só com nomes”, explica a diretora editorial.

A história expõe um crime e, no livro com 30 mil ou mais nomes — “sim, há livros que ultrapassam os 50 mil”, como  —, apenas um pertence ao culpado. O objetivo é ir recorrendo às pistas para riscar nomes até sobrar um, o assassino. “Sobretudo no Tik Tok, [os leitores] vão partilhando as suas suspeitas, colocando dúvidas, mostrando em que etapa se encontram. Já começamos também a receber mensagens de pessoas que acham que conseguiram chegar ao nome do culpado, e querem confirmar connosco se acertaram.”

Há versões juvenis?

Sim, o Murdle Júnior (Presença) tem já dois volumes no mercado e, ainda que o Murdoku, por exemplo, não tenha nada especificamente para leitores mais jovens, estes livros são perfeitamente acessíveis a miúdos. “Na Feira do Livro de Lisboa tivemos compradores que iam dos 10 aos 80 anos. É perfeito para retirar as pessoas dos telemóveis. Cada página dupla é um mistério, pode fazer só um ou vários e, se encravar num puzzle, pode sempre saltar para o seguinte. As soluções explicam a resolução do mistério”, explica Pedro Reisinho.

A Porto Editora tem no catálogo os Cluedle (dois volumes editados até agora), dirigidos ao público juvenil, e, contrariamente aos Murdle ou Murdoku, em que a lógica de jogo é sempre a mesma, aqui os desafios vão variando: tanto pode descodificar uma palavra através das correspondências do abecedário, como ter de encontrar a sequência lógica de um conjunto de setas. Todas as tarefas são apresentadas como fazendo parte da história que está a ser contada.

Há novidades a caminho?

Muitas. No final do ano, a In vai lançar o volume 3 do MurdokuÀ volta do mundo —, e para o primeiro semestre de 2027 está previsto o quarto livro da coleção.

Na Manuscrito também há a garantia de que “enquanto houver procura no mercado”, haverá resposta, tal como no grupo Infinito Particular. “Estamos a fechar a contratação de mais projetos nesta área”, revela Miguel Cardoso Pereira, embora não avance datas.

A série Murdle conta com mais de 50 mil exemplares vendidos; o primeiro Murdoku teve 140 mil exemplares impressos, enquanto o volume 2, à venda desde 19 de maio, vai em 40 mil. Criminalia (Manuscrito), o único de um autor português está a caminho da terceira edição. Os números vão, certamente, continuar a aumentar e é bem possível que o monopólio dos primeiros lugares de vendas continue. Deste lado, podemos hipoteticamente já estar a contribuir para esta loucura; podemos hipoteticamente ter perdido o foco do texto para passar horas a resolver crimes; podemos hipoteticamente estar irremediavelmente viciados. Deixamos este enigma em aberto.