Como o ordenamento do território, a arquitectura paisagística e construtiva estão no epicentro da qualificação portuguesa que se espera venha a concretizar-se — por lentamente que seja — nos próximos anos pela frente. Os encargos demográficos e ambientais em intensa perspectiva carecem dum corpo de profissionais pensantes e capazes, instalados e activos em todo o território nacional, com reforço daquelas zonas ou regiões que o centralismo político e eleitoral abandonou à sua sorte sem outra herança que tutelas de caciques partidários inaptos a observar os desafios do seu tempo. Nesta perspectiva, qualquer publicação que dê conta da actividade dum atelier de arquitectura a considerável distância das principais centralidades — como sucede com este, do casal Carlos Antunes e Desirée Pedro, criado em 1996 em Miranda do Corvo, hoje uma vila de c. 7500 habitantes — representa já um benefício para o conhecimento de realidades locais em processo de renovação contemporânea, seja — como aqui sucede — em equipamentos sociais como escolas, mercados, casas de saúde ou um centro de artes, seja, mais privadamente, na reabilitação duma pequena casa serrana para estância dum artista ou duma abandonada fábrica para um belo espaço comercial de ambiente contemporâneo. Sem esquecer a intervenção na torre sineira, necrópole e cisterna do velho castelo da própria vila, a merecer uma visita de quem esteja por perto.
José António Bandeirinha escreve que a arquitectura do Atelier do Corvo “vive, floresce acima e para além dos carunchosos preconceitos territoriais que este país sempre exaltou, e por isso é épica” (p. 10), recorrendo às expressões náuticas inglesas “as a crow flies” e “crow’s nest” para qualificar “a belíssima colecção de ninhos” que são a dezena de obras apresentadas neste álbum da Caleidoscópio editado por José Manuel das Neves (além de três intervenções em exposições de arte e a requalificação dum laboratório no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra). O poeta Luís Quintais (1968-) está presente no início e no fim do livro, primeiro com um verso cinzelado num degrau de jardim, e no fim com o poema “O louvor da arquitectura: um corvo para a Desirée e para o Carlos” (já li melhor, diria alguém), e Luís António Umbelino faz uma leitura filosófica do trabalho deste atelier, referindo-o ao “conforto exigente” que resulta da criação duma casa seguindo “um princípio de aconchego, uma linhagem de pertença, uma promessa de refúgio, uma possibilidade de abrigo para o devaneio” (p. 21).
Uma residência do escultor e pintor Rui Anahory em Gondramaz, a intervenção no castelo de Miranda do Corvo e um centro de artes dito Escola de Talentos são entendidos por Umbelino como os expoentes deste modo de imaginar, construir ou reabilitar um lugar: “o imbricamento vivido entre o modo corporal de ser do espaço e o modo espacial de ser do corpo” (p. 19). Na pequena moradia da aldeia de xisto em que pedras da serra emergem do piso como raízes da própria casa, a madeira “rugosa e simples” nas paredes, tectos e escadas é já um “começo de conforto” e os quartos são “celas despojadas mas quentes, que se projectaram para repousar, para dormir e para ler”, “ritmo fundamental do ninho humano”. Na torre da vila, porém, é a “dimensão trágica do tempo humano” que é posta em evidência, pois se a extraordinária grelha de madeira que no topo permite espreitar com absoluta segurança todo o horizonte em redor e receber a música do vento entre os intervalos da madeira (v. fotos pp. 174-79), após vários lances de escada também em madeira de tacula, morte e vida e o perpétuo renovo das gerações são o húmus invocado pela medieval necrópole na base, iluminada por um sistema de cilindros de vidro suspensos que, num belo efeito, sugam a luz solar, figurando a presença de que quem esteve antes de nós. A ascensão física e a derradeira exposição aos elementos naturais adquire, portanto, um duplo sentido: “a torre que se eleva aponta para baixo”. “Os lugares têm raízes telúricas” (p. 23).

A casa-atelier de Antunes e Pedro em Miranda do Corvo é ocupada pela família pelo menos desde o século XVIII. Tratando-se do seu segundo trabalho depois do concluído o curso na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, constitui sem dúvida o seu maior desafio, pelo juízo contínuo acerca das decisões tomadas, sendo por eles designada como “o nosso laboratório de experimentação”, “pretexto para a reinvenção continuada” (p. 34), juntamente com o seu extenso jardim, virado a poente. É, na verdade, até ao momento o único caso de requalificação duma residência unifamiliar, além do “abrigo de montanha” de Rui Anahory, já referido, recuperação, feita em 2004, duma construção em avançado estado de ruína, “obrigando a refazer totalmente os paramentos de alvenaria de pedra aparente de xisto, em que as novas fenestrações revelam as divisões e os usos” (p. 78). A casa Marcelo Cipriano, em Coimbra, construída de 2016 a 2020, não consta deste livro. Em 2001-8, em co-autoria com Luísa Bebiano, o Atelier do Corvo recuperou a fábrica da Sociedade Cerâmica Antiga de Coimbra (pp. 156-63), ainda em laboração no Quintal do Prior, na baixa da cidade, dotando-a de condições museológicas para expor o seu legado em simultâneo com a laboração oficinal. A intervenção mínima, não intrusiva, usando argamassas tradicionais quando necessário, aproveitou a “exemplar” (sic) ventilação natural com pequenas aberturas, e sobretudo manteve e conservou as paredes e pavimentos interiores de madeira de pinho, como as fotografias de Inês d’Orey nos mostram (outras ainda, no website do atelier, merecem ser vistas).
Praticamente no mesmo período, o atelier requalificou — também em parceria, desta vez com João Mendes Ribeiro — o laboratório químico do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, um edifício pombalino de um só piso com pés-direitos altos, a que se seguiu a renovação e ampliação da Escola Secundária de Pombal em 2008-10 — uma encomenda da bem controversa Parque Escolar SA —, com a construção de biblioteca, laboratórios, ginásio e auditório, usando vidro, cimento aparente e alguma madeira para dar um contraste de contemporaneidade ao edifício original, construído em 1958. Esta “vocação” social ganharia novas oportunidades anos depois, com duas obras marcantes, também de requalificação e ampliação: a Casa de Saúde Rainha Santa Isabel, em Condeixa, e a Casa Amarela — Escola de Talentos, uma vez mais em Miranda do Corvo, respectivamente em 2014 e em 2015. No primeiro caso, tratou-se da extensa reconfiguração funcional dum feio edifício de grandes dimensões, a que ainda foi acrescentado um piso, e no segundo de adequar uma antiga casa senhorial no centro da vila a pólo do Conservatório de Música de Coimbra e sede do Grupo Recreativo Mirandense — Filarmónica de Miranda do Corvo, acrescentando-lhe corpos novos e integrando o seu jardim no espaço público, também com um auditório ao ar livre.
A avaliar pelas duas pequenas fotografias que mostram a Casa Amarela antes desta intervenção, e pelas plantas e alçados expostos (ainda que sem legendas, e por isso dificilmente avaliáveis), trata-se dum melhoramento importante para a vila e arredores, a que se seguiu a intervenção feita no mercado local, também realizada em 2016. O Atelier do Corvo conseguiu convencer o Município a fazer mais do que lhe havia sido encomendado: “aproveitar a oportunidade para atribuir urbanidade ao edifício e ao seu entorno, redesenhando a praça e criando um novo piso que conferisse maior centralidade ao conjunto” (p. 96), com uma incubadora de empresas e uma sala de exposições. Mais ainda, recuperou-se para memória colectiva e Sede dos Baldios da Vila Nova a antiga Casa do Tronco, um estábulo onde outrora ferraduras eram colocadas em bois de lavoura e carga, e assim chamada pois a ele se prendiam os animais durante o processo de ferragem. Um novo pavimento em betonilha afagada e uma larga parede de estantes para arquivo histórico são os elementos novos numa construção em que se procurou toda a rusticidade original. Ou seja, num único ano — 2016 — o Município de Miranda do Corvo requalificou três equipamentos urbanos relevantes, enquanto decorriam as exigentes obras no velho castelo da vila.
Ainda que simpatia e reconhecimento possam ser dados ao Atelier do Corvo, o livro parece mostrar que a pandemia de covid-19, de 2020 a 2023, travou, como a muitos outros profissionais do mesmo ofício, um crescendo de encomendas, que não seria imerecido, forçando-o a encontrar noutras vocações — dito melhor: em vocações adjacentes todavia desde sempre implícitas — o modo de vida indispensável, que o Hortus Conclus de 2019, no convento de Santa Clara a Nova, de Coimbra, e última obra deste Senso (pp. 188-201), deixa reconhecer como efeito da experimentação realizada no jardim da casa familiar, a que se retorna no final, como erudita cobra herbertiana ou prosaica pescadinha de rabo na boca. Novas encomendas de intervenção profissional no território de proximidade surgirão muito provavelmente, em qualquer caso, ao dia de hoje, como se costuma dizer, o livro testemunha uma tentativa de intervenção de grande alcance que merece ser conhecida e valorizada. E um persistente editor de livros de arquitectura tem aqui um papel essencial.