Os 93 mil milhões de euros em depósitos sem proteção do Fundo de Garantia de Depósitos não deviam servir apenas para assustar. Devem servir, sobretudo, para acordar as pessoas para uma verdade simples: guardar dinheiro no banco não é uma estratégia financeira, é apenas uma etapa da gestão do património.
Em Portugal, ainda existe uma relação excessivamente passiva com a poupança. Muita gente acredita que “ter dinheiro parado” é sinónimo de segurança, quando na realidade está apenas a aceitar um risco mal compreendido e, pior ainda, um custo de oportunidade enorme. O Fundo protege até 100 mil euros por depositante e por instituição, mas tudo o que excede esse limite fica fora da rede de segurança.
É precisamente aqui que entra a literacia financeira. Sem conhecimento, o aforrador confunde liquidez com proteção, confunde depósito com investimento e confunde estabilidade com rendibilidade. E essa confusão tem um preço: dinheiro que poderia estar a crescer, a diversificar risco e a trabalhar para o futuro continua imobilizado, muitas vezes por medo, hábito ou simples falta de informação.
A verdade é que poupar é importante, mas poupar sem investir é uma meia decisão. Numa economia onde a inflação corrói o valor real do dinheiro, deixar capital permanentemente parado significa perder poder de compra ao longo do tempo, mesmo quando o saldo nominal parece intacto. Investir não é apostar; é organizar o património com método, horizonte e disciplina.
O debate sobre estes 93 mil milhões devia ir além da proteção bancária. Devia levar-nos a falar de planeamento financeiro, diversificação, fundos, obrigações, ações, seguros de capitalização, imobiliário e outras formas de pôr o dinheiro a trabalhar com inteligência. Quem tem literacia financeira não procura apenas segurança: procura equilíbrio entre segurança, crescimento e flexibilidade.
No fundo, o problema não é haver depósitos acima do limite coberto. O problema é haver demasiadas pessoas que nunca foram ensinadas a fazer melhor com o seu dinheiro. E num país em que a cultura de investimento ainda é fraca, a verdadeira vulnerabilidade não está só no banco: está na falta de preparação de quem confia demasiado no banco para resolver aquilo que deveria ser decidido com conhecimento e estratégia.