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Convicções de largo espectro

As convicções de largo espectro são uma parte principal da vida das pessoas. São aquilo que dá um tom geral reconhecível às vidas delas, como um tempero ou uma cor. 

Miguel Tamen
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Como os antibióticos, há convicções de largo espectro e convicções de pequeno espectro.   No entanto, tal como todos os antibióticos são antibióticos, assim todas as convicções são convicções.  Acredito que tenho maçãs no frigorífico e também acredito na existência de Deus.   Num certo sentido, acredito nessas coisas da mesma maneira: tenho em ambos os casos a certeza absoluta de que uma coisa é realmente o caso; e ajo a respeito de muitas outras coisas porque acredito que é esse o caso (por exemplo, compro bananas porque tenho a certeza absoluta de que já tenho maçãs).

Noutro sentido parece no entanto possível dizer que se acredita de várias maneiras, e que existem diferenças entre acreditar-se que temos maçãs no frigorífico e que Deus existe (muitas pessoas, embora não todas, que acreditam que Deus existe acham esta analogia despropositada).  Não é que se acredite mais intensamente em Deus: mas o espectro das coisas que fazemos porque acreditamos que temos maçãs no frigorífico é diferente do espectro das coisas que fazemos quando temos convicções de largo espectro (naturalmente nem todas as convicções de largo espectro são convicções religiosas).

Uma diferença óbvia é a de que para determinar convicções de pequeno espectro basta muitas vezes considerar as acções de quem as tem, ou aquilo que diz; concluímos que alguém acredita que há maçãs no frigorífico porque está à procura de maçãs no frigorífico.  Não existem porém comportamentos que indiquem tão inequivocamente as nossas convicções de largo espectro.   É frequente ter dúvidas sobre as convicções religiosas de alguém que diz coisas religiosas ou participa em actividades religiosas.  Não é simples determinar os comportamentos próprios de uma convicção de largo espectro.

Isto não significa que certas acções ou certas palavras não nos ajudem a caracterizar convicções de largo espectro; indica apenas que nem as acções nem as palavras das pessoas do nosso interesse são suficientes, ou sequer necessárias, para chegarmos a conclusões sobre as suas convicções.    É de resto habitual chegar a conclusões sobre convicções de outras pessoas sem grandes observações.   Nem sempre o fenómeno a que chamamos conhecer bem uma pessoa é o resultado da análise das suas palavras e das suas acções. Um detective não conhece melhor pessoas por ser detective.

Há razões para estas dificuldades com convicções de largo espectro.  As convicções de largo espectro são uma parte principal da vida das pessoas, mas não coincidem sempre com as opiniões que têm ou as coisas que fazem; são aquilo que dá um tom geral reconhecível às vidas delas, como um tempero ou uma cor.  A diferença mais importante em relação às suas primas de pequeno espectro é por exemplo a de que podemos concluir que alguém é religioso apesar daquilo que acha e faz em matérias de religião: a partir de acções não-relacionadas com as suas convicções, ou pela maneira como fala de outras coisas.