Identificada apenas como Sarah, uma das funcionárias do Tribunal Penal Internacional (TPI) que apresentou uma queixa de má conduta sexual contra o procurador-geral britânico Karim Khan, falou pela primeira vez em público sobre os alegados abusos de que diz ter sido vítima. Em entrevista à CNN, na quinta-feira, a antiga assistente pessoal de Khan — que permaneceu em anonimato até ao momento — descreveu “uma escalada de tentativas” não consensuais.
“Não há forma de algo ser consensual quando existe uma disparidade de poder tão grande. O que muitas pessoas não compreendem é que o Khan não era apenas o meu chefe, era o chefe de toda a gente“, disse Sarah, funcionária do TPI desde 2017, segundo a emissora. “E não pode ser consensual”.
https://observador.pt/2026/06/24/orgao-de-supervisao-do-tpi-conclui-que-karim-khan-deve-ser-afastado-do-cargo-por-alegada-ma-conduta-sexual/
Sarah, natural da Malásia, disse ter começado a trabalhar como assistente pessoal do procurador-geral do TPI em fevereiro de 2023, sustentando que os alegados episódios de assédio se prolongaram durante cerca de um ano. “Não tenho outra forma de descrever senão como uma escalada de tentativas“, relatou, acrescentando que sentiu uma “invasão gradual dos limites”, não apenas a nível físico, mas também emocional.
Durante uma visita oficial à Colômbia, a funcionária afirmou que Khan terá entrado no seu quarto de hotel, durante a noite, enquanto fingia estar a dormir. “Começou a colocar a mão dentro das minhas leggings, a apalpar-me e a colocar a língua no meu ouvido“, descreveu.
Em entrevista à CNN, Sarah relatou ter vivido momentos de paralisia em que sentiu não conseguir dizer “não” ao seu chefe. Segundo a própria, receava perder o emprego e o visto de trabalho que lhe permitia residir nos Países Baixos (onde fica a sede do tribunal) com o marido e o filho. A funcionária disse ainda que se sentia “humilhada” e “profundamente nervosa” por estar nesta posição. “Se houvesse sequer um indício de suspeita de que eu fosse funcionária do Estado, teria sido despedida”, acredita a mulher.
“Apalpava-me, agarrava-me, beijava-me o rosto, tocava-me no cabelo, tentando levar-me a ter relações íntimas com ele”
A segunda mulher que apresentou uma queixa de má conduta sexual contra o procurador-geral do TPI também falou com a CNN sob anonimato. Recorrendo ao pseudónimo “Patricia”, contou que trabalhou com Karim Khan no início da sua carreira enquanto advogado, em 2009, período durante o qual afirma terem ocorrido os comportamentos que denuncia.
No ano passado, a mulher tinha já tornado públicas as suas alegações em declarações ao The Guardian. Terá afirmado que, enquanto estagiava para o então advogado britânico, era obrigada a trabalhar na casa de Khan. “Sem falta, todas as vezes que lá estava, ele assediava-me constantemente, apalpava-me, agarrava-me, beijava-me o rosto, tocava-me no cabelo, tentando levar-me a ter relações íntimas com ele”.
Entretanto, Sareta Ashraph, uma das advogadas de Karim Khan, afirmou que as alegações das duas mulheres não são novas e reiterou que o procurador-geral continua a negar as acusações de má conduta sexual “na íntegra“. “O conjunto de provas revela um quadro muito diferente do que foi aqui apresentado hoje”, declarou à CNN.
No mês passado, o gabinete executivo do órgão de supervisão do TPI recomendou a destituição de Karim Khan, concluindo que o procurador-geral cometeu uma grave violação dos deveres inerentes ao cargo, funções que se encontram atualmente suspensas. Na próxima semana, os Estados-membros do tribunal internacional vão reunir-se na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, para uma votação sobre a possível destituição.
Os apoiantes de Khan, de acordo com Reuters, acreditam que o procurador se tornou alvo de perseguição política depois de ter solicitado, em 2024, mandados de captura contra o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, e o seu então ministro da Defesa, Yoav Gallant, pela atuação de Israel em Gaza.
“A minha queixa deveu-se ao que me aconteceu, e não por qualquer outro motivo“, argumentou Sarah, rejeitando insinuações sobre motivações externas. O processo judicial contra Khan, segundo o The Guardian, também concluiu que não existem provas que sustentem alegações de que a funcionária estaria a ser “usada por terceiros”.