Cabeça de cartaz da 34.ª edição do Curtas, que arranca esta noite (até dia 26), Mohammad Rasoulof regressa a Portugal após a sua anterior visita em Novembro de 2024 (no âmbito do Leffest), na altura em que A Semente do Figo Sagrado, última longa-metragem até à data, andou pelas bocas do mundo. Nascido em Shiraz há 53 anos, Rasoulof é um dos mais proeminentes artistas persas desde a morte de Kiarostami e, actualmente, a par de Panahi, um dos rostos da contestação política ao regime iraniano desde o movimento “Mulheres, Vida, Liberdade”, que cobriu o país de sangue em Setembro de 2022. O cineasta estava em prisão preventiva quando os iranianos protestaram nas ruas contra a morte da jovem Mahsa Amini, espancada pela “polícia da moralidade” em Teerão por falta de uso do hijab. Ela morreria no hospital, três dias mais tarde. Foi nessa altura que Rasoulof começou a escrever A Semente do Figo Sagrado, tratando de rodá-lo na clandestinidade, com financiamentos europeus, nos meses de liberdade seguintes em que aguardou pela sentença.
Quando a sentença foi anunciada, não deixando margem para dúvidas — oito anos de prisão efetiva com vergastadas e arresto total de bens — a pós-produção do filme ultimava-se na Europa. Cannes anunciara entretanto que o estrearia a concurso pela Palma de Ouro na sua edição de 2024, com ou sem a presença do seu autor. Nisto, recorde-se que Rasoulof fazia manchete, mas por outros motivos: com o passaporte confiscado, conseguira escapar do Irão a salto, em fuga digna de Hitchcock. Chegado a Cannes, foi premiado e continuou a promover a obra nos meses seguintes em praticamente todas as cidades da Europa. Hoje, continua a viver exilado na Alemanha.
Entretanto, Rasoulof realizou uma curta-metragem para não perder a mão, Sense of Water (estreou-se em Roterdão em janeiro passado). Foi a partir deste belo filme, feito de detalhes autobiográficos, que o Curtas se lembrou de convidar o cineasta e de o homenagear com uma retrospectiva parcial da obra que o próprio programou — cinco longas-metragens que espelham a evolução de Rasoulof ao longo dos últimos 25 anos. “Este ciclo encaixa-se numa vertente política que o festival tem vindo a explorar”, esclareceu Nuno Rodrigues, do Curtas, “e foca-se numa obra que reflecte a sociedade iraniana sob vários aspectos — a censura, a repressão, a violência — com uma grande subtileza. Quando a disponibilidade do autor em visitar-nos surgiu, decidimos avançar e mostrar em Portugal uma parte da obra dele que ainda não é conhecida entre nós. Rasoulof é uma das maiores figuras do cinema contemporâneo.”

Sense of Water, que integra a competição internacional do Curtas deste ano, fala-nos, precisamente, de um exilado; no caso, um escritor iraniano proscrito, confrontado na Alemanha com um país diferente e uma língua estrangeira. Terão o amor, a alegria e a raiva a mesma força e o mesmo significado em alemão que em farsi? Ou, como também disse Rasoulof, qual é a lacuna entre perceber uma palavra e senti-la? Sense of Water, que dura 39 minutos e é protagonizado por Ali Nourani e Behnush Najibi, toca nestes assuntos — tal como disse Nuno Rodrigues — com grande subtileza. A uma dada altura, a encruzilhada do protagonista é figurada pela visão da cena final de Nostalgia, de Tarkovski — cena essa que é uma prova de fé. E pouco importa saber se Rasoulof olha ou não para o escritor como um alter ego. Certo é que este filme, dos seus momentos espirituais aos mais mundanos (e até permeáveis à comédia), é um belo resumo da vida recente de um artista que sente a sua existência a prazo, perguntando-se: “conseguirei sobreviver nestas condições?”
Quando Rasoulof, que se expressa unicamente em farsi, passou pela última vez em Portugal, a convite de Paulo Branco, contou-nos com precisão, pela voz da intérprete que o traduziu, de onde vinha aquela obra e o que esperava do seu futuro imediato. Também ele se perguntava se conseguiria sobreviver, depois de um acto tão corajoso. A Semente do Figo Sagrado decorria durante os ditos protestos do movimento iraniano que se opôs ao regime dos aiatolas. Trazia a história de Iman (Missagh Zareh), oficial de justiça e pai de família que acaba de ser promovido pelo Tribunal Revolucionário Islâmico no momento em que o regime começa a punir os infratores com execuções sumárias. Só que, para lá dos problemas de consciência, o oficial de justiça tem duas filhas já adultas que andam a protestar nas ruas. A família dele revolta-se então contra o patriarca. Aproveitamos a nova visita de Rasoulof a Portugal para recuperar uma conversa inédita sobre aquele filme e que continua a falar dos dias de hoje.
[N.R.: A entrevista seguinte foi gravada em Lisboa a 10 de Novembro de 2024]
Qual foi a origem de A Semente do Figo Sagrado?
Antes de as autoridades iranianas me prenderem, pensei em fazer um filme igualmente clandestino sobre a política do meu país, com traços mais gerais. Mas a cadeia afastou-me desse projeto. E quando o movimento “Mulheres, Vida, Liberdade” eclodiu, em Setembro de 2022, eu estava atrás das grades. Só podia saber o que estava a passar-se pelo que conseguia ouvir na prisão, rumores, subentendidos, ruídos e ecos, mensagens codificadas. Mas a revolta da rua, ao ganhar amplitude, deu esperança a muitos prisioneiros, ao mesmo tempo que exerceu sobre todos nós uma espécie de fascínio, pois só podíamos imaginar o que se estava a passar. A história do filme em si foi escrita na cadeia e inspirada por alguém que encontrei lá dentro, um guarda prisional, com quem desenvolvi, para meu grande espanto, uma inesperada cumplicidade. Este encontro acabou por ser decisivo para dar forma à personagem do pai de família de A Semente do Figo Sagrado.
A sua longa-metragem anterior àquela, premiada em Berlim 2020 com o Urso de Ouro, There Is No Evil [O Mal Não Existe] – precisamente aquela que o regime iraniano usou como desculpa para prendê-lo – não foi já feita nessas circunstâncias?
Em parte sim, há cerca de 15 anos que tenho vindo a trabalhar com pessoas que têm responsabilidades no aparato de censura do meu país, de forças policiais a funcionários do sistema judicial. ‘Trabalhei’ — se é que posso usar este verbo – com censores, inquisidores, detectives, espiões, guardas prisionais e até juízes. Pessoas importantes que continuam a servir o sistema mas que, em segredo, o detestam e mo confessaram. Pergunto-me porque continuam eles a servir o que servem. Por isto acredito que o muro vai acabar por ceder e que a revolução no Irão tornar-se-á inevitável.
No caso de A Semente do Figo Sagrado, o que lhe disse o guarda prisional em concreto?
Tive muita sorte em encontrá-lo. Um oficial experiente, não é nenhum rapazola. Confessou a profunda vergonha que sentia pelo seu trabalho, confiou-me que os filhos o criticavam duramente em casa e que a pressão era tanta que já tinha pensado em acabar com a própria vida. As taxas de suicídio no Irão não são abertamente divulgadas. Tudo o que é incómodo do ponto de vista ético e moral é abafado. Mas são taxas alarmantes. Foi devido a este encontro e ao que o oficial me contou que comecei a escrever a história de uma família a atravessar uma grande ruptura.
Quando foi libertado, começou imediatamente a filmar?
Estava tudo a postos com as minhas equipas de produção [europeias], queria filmar o mais rapidamente possível pois receava ser novamente preso. Entretanto, não me podia permitir dar um passo em falso. Era Outono e o meu advogado, conhecendo o sistema judicial iraniano, disse-me para me preparar para o pior na Primavera seguinte. As acusações estavam praticamente todas relacionadas com O Mal Não Existe. Isto é: na melhor das hipóteses, teria seis ou sete meses para concluir A Semente do Figo Sagrado.
Entretanto, estava em casa, vigiado?
Em casa e vigiado, sempre. Por vezes saía, em clandestinidade, e deixava o telemóvel ligado em cima da mesa. Tinha a certeza absoluta que me seguiam os passos. Desta forma, pela geolocalização, conseguia enganá-los, levando-os a acreditar que eu estava em casa. Tive que agir depressa. Sem acesso a dinheiro do meu país, tive que recorrer aos meus dois produtores franceses e alemães. A parte francesa conseguiu ser apoiada pelo CNC [Centre national du cinéma et de l’image animée – equivalente do ICA em França] graças ao programa Ajuda aos Cinemas do Mundo, que foi essencial.
E a rodagem propriamente dita, como aconteceu?
Foi uma experiência ingrata, dirigi a rodagem remotamente e só contactava pessoas específicas. Usava walkie-talkies, receando telemóveis. Só um número muito reduzido de pessoas estava ao corrente de que o filme era meu. O resto da equipa julgou quase até ao último minuto estar a trabalhar na curta-metragem de um jovem realizador atrevido em princípio de carreira. A rodagem foi clandestina do primeiro ao último segundo, nas cenas de interiores filmávamos só ao fim da noite ou ao nascer do dia. Quem sabia que eu estava por trás do projeto tinha bem a noção de que estava a correr riscos. A uma dada altura, toda a gente começou a perceber que estava envolvida numa experiência perigosa. Fez bem ao ego, melhorou a nossa auto-estima e a esperança de um dia nos vermos livres de quem nos oprime. Tínhamos o máximo cuidado tecnológico sempre que enviávamos as imagens para fora do país: a montagem foi feita no estrangeiro, paralelamente à rodagem. O nosso objetivo era terminar a tempo de submeter o filme à apreciação do Festival de Cannes, tal como veio a acontecer.
Por uma questão de visibilidade?
E de proteção, mais do que visibilidade ou prestígio. Um festival como Cannes é uma armadura. O regime iraniano detesta que se exponham mediaticamente os seus erros no estrangeiro e Cannes é o maior palco de cinema do mundo, não tem paralelo. Tenho que lhes agradecer – e ao diretor artístico Thierry Frémaux – o compromisso. Selecionaram uma versão ainda longe de estar acabada. O filme só chegou a Cannes na véspera da sua projecção.
Teve desde cedo a noção de que, a partir de A Semente do Figo Sagrado, não haveria retorno para si, como cidadão iraniano, no país em que nasceu, enquanto este regime estiver no poder?
Tive. E decidi avançar na mesma quando me apercebi que acabaria na prisão de uma forma ou de outra, filmasse ou não filmasse. Quatro dias depois de acabar a rodagem, foi anunciada a sentença que me condenou a prisão efetiva de oito anos [com acrescento de vergastadas e apreensão total de bens]. Tentei saber com os meus advogados quanto tempo ganharia se recorresse da decisão – e no Irão, não há possibilidade de segundo recurso. Oito semanas. “É o que me basta”, disse a mim próprio. Foi o tempo de ultimar a pós-produção e de concluir o que era preciso.
Que aconteceu depois?
A sentença, a definitiva e já sem possibilidade de recurso, foi confirmada e eu contactei os meus amigos fora do país, avisando-os que teriam que terminar o filme por mim no estrangeiro. Deixei para trás todos os meus pertences, eliminei toda a minha pegada tecnológica, telemóveis, computador pessoal, etc, e preparei uma pequena mochila. Pus-me então a caminho rumo a uma região montanhosa, com a intenção de deixar o país ilegalmente.

Quanto tempo durou essa viagem?
28 dias, até à fronteira.
Como é que foi possível desenvolver o casting de uma produção tão complicada, preparada em sussurros?
Os meus filmes foram sempre todos mais ou menos feitos na clandestinidade e ganhei experiência a trabalhar assim. Sei como agir. Na rodagem, sinto-me sempre um bocadinho aquele gangster intelectual que já pisou o risco. Mas neste filme estava mais aflito que o costume. Não só acabara de sair da prisão como sabia que, ao mínimo pretexto, voltavam a pôr-me lá dentro. Impus medidas apertadas de segurança. E aconteceu outro fenómeno interessante: durante o movimento “Mulheres, Vida, Liberdade”, uma grande parte dos intérpretes iranianos, homens e mulheres, bloquearam momentaneamente o seu trabalho nas ficções televisivas e nos canais oficiais do Estado, protestando dessa forma contra o regime e a censura. O meu filme acabou por tirar benefícios dessa paralisação. Não podíamos contratar ninguém abertamente mas ao menos tornou-se mais fácil identificar as pessoas que nos pareceram mais dispostas a correr riscos.
Não estão os seus intérpretes em perigo no Irão neste momento, podem continuar a trabalhar e a fazer as suas vidas?
É uma pergunta que me tem sido colocada imensas vezes. As pessoas sabem-me a salvo… mas então e os outros? E eu entendo-a perfeitamente por este motivo: a grande maioria dos espectadores do meu filme não é de origem iraniana. São pessoas como você que vivem em regimes não autoritários. Pois bem, as três actrizes que interpretam a mãe e as irmãs decidiram, antes da rodagem, que também elas deixariam o país. Essa decisão contribuiu em parte para a presença delas no elenco. As actrizes mais novas que interpretam as irmãs partiram, de facto, mas Soheila Golestani, que interpreta a mãe, mudou depois de ideias e decidiu ficar, tal como Missagh Zareh, que faz o pai [uma das imagens mais emblemáticas daquela edição de Cannes enquadrava Rasoulof entre as duas jovens atrizes com fotografias dos intérpretes mais velhos que ficaram no Irão]. Sei que estão ambos sob pressão, que correm o risco de ser processados mas, até ver, continuam em liberdade e as suas vidas não se alteraram. Não acredito que, por vingança, se tornem alvos prioritários do regime.
A Semente do Figo Sagrado também difere dos seus filmes anteriores pelo uso de imagens anónimas dos protestos captadas de todo o lado, no calor dos acontecimentos mas também de soslaio, à distância, atrás de portas e janelas. As tais imagens que você na prisão não conseguia ver. Fica-se com a sensação de que o país inteiro está a filmar-se a si próprio e a usar a tecnologia disponível – as redes sociais, em particular – para disseminar o resultado.
Sabe, os meus filmes anteriores estão impregnados de metáforas. Como a literatura iraniana, aliás, que se desenvolveu sob circunstâncias altamente repressivas e recorreu à metáfora para defender-se. Segui como artista o mesmo método dos mestres que me formaram e influenciaram. Acontece que houve um momento decisivo na minha vida em que eu disse a mim próprio que ia perder o medo. E que tinha chegado a hora de dar o exemplo. Dei-me então conta de que as metáforas vinham do medo e que as gerações mais novas já nem as usam. Fiz este filme para combater o medo. As imagens de telemóvel que registam as agressões do aparato policial chegaram pois de uma forma natural, por necessidade.
A guerra de A Semente do Figo Sagrado não é apenas familiar, é sobretudo geracional.
Este filme é um conflito entre a modernidade e a tradição. E a tradição é o patriarcado, profundamente enraizado no que a personagem do pai representa. O terceiro ato do meu filme fala disso, apercebemo-nos que o conflito vai atacar os laços familiares da nossa estabilidade, é a família enquanto célula de resistência a destruir-se. O pai a dar caça à mulher e filhas, num fundo de paisagem desolada, entre ruínas. O conflito entre a modernidade e a tradição não vem de hoje, não começou com Mahsa Amini. A linhagem é longa na história iraniana. E continuará.
Teve logo a noção de que o filme ia evoluir para o thriller que ele nos apresenta no final — aspecto prodigioso para uma obra rodada nestas condições? Isto é: há muitos filmes clandestinos na história do cinema, mas thrillers clandestinos… Não é género que costume passar despercebido.
A estrutura do filme é uma consequência do drama familiar lançado no momento dos protestos. Mas eu não queria ficar até ao fim entre quatro paredes. Era preciso que aquela família abandonasse a sua casa. O aspecto decisivo é o desaparecimento da pistola do protagonista. Já que estou a falar de vontade de liberdade num sentido lato achei apropriado dar também ao filme uma certa liberdade formal que não o estagnasse e que nos divertisse. E o terceiro acto vem disso mesmo. Como eu disse antes, não tinha a certeza de que o filme seria concluído…

Não perdia nada em arriscar.
A parte final do filme resulta de um ‘que se dane’. Vem da minha revolta interior. O pai e a mãe vão transformar-se com aquela viagem e, no caso dele, vai aumentar o desespero. O pai fica cada vez mais sozinho. Dá-se conta de que as regras que o endoutrinaram o levaram a uma guerra consigo próprio. Aquelas ruínas têm para mim um duplo sentido: são conflito entre modernidade e tradição, mas também o túmulo de uma convicção pessoal. O desfecho foi ganhando força à medida que o filme foi sendo feito. A Semente do Figo Sagrado só foi possível com um planeamento muito rigoroso mas, ao mesmo tempo, não sou contra a improvisação, contra a mudança de planos, se a criatividade bate à porta para entrar. Gosto quando algo inesperado acontece e somos obrigados a ajustar-nos, reagindo à confusão.
E agora, o que vai fazer?
Qualquer filme que eu faça sobre o Irão no futuro será inevitavelmente um filme político. Aliás, tudo no Irão é político: o que as mulheres vestem, a cor com que pintam o cabelo, até falar do tempo. Esta é a nossa realidade, somos dominados por um regime totalitário que quer controlar tudo. Mas acho que o mais importante já foi lançado. Talvez caiba agora às novas gerações continuar a desbravar este caminho. E já se notam as mudanças nestes últimos anos. Pouco a pouco, as pessoas começaram a despir as máscaras impostas pelo totalitarismo que sempre nos obrigou a escondermo-nos e a fingirmos ser aquilo que não somos. Também é claro para todos — e o regime está bem ciente disso — que a legitimidade do poder atingiu os mais baixos índices de popularidade de sempre.
Quer manter-se na Europa? Filmará o Irão à distância?
Não sei ainda o que vou fazer. Vi-me de repente envolvido em algo que nunca me tinha passado pela cabeça, nem nos meus sonhos mais selvagens: uma campanha para Óscares. Estou imensamente grato à Alemanha por ter decidido apostar no meu filme para a representar no Óscar do Melhor filme Estrangeiro. É óbvio que, na minha mente, sempre foi claro que o Irão nunca iria enviar o meu nome. Nunca considerei essa possibilidade. Então estou a passar por uma experiência totalmente nova, promovendo o filme no Ocidente com projeções, debates e entrevistas.
Anda de um lado para o outro?
Toda a gente quer mostrar o meu trabalho. E estou a aprender imenso com isto. O simples facto de a Alemanha ter apresentado o meu filme à Academia de Hollywood faz-me pensar porque é que só agora estou a beneficiar desta visibilidade. Por que é que, até hoje, só pensei em mim como iraniano? Por que me limitei a essa geografia? Vivi enganado até me deparar com uma de duas possibilidades: a prisão ou o exílio. Hoje, ainda me belisco quando olho para o documento de identidade que os alemães me concederam. Graças a esse pedaço de papel, tenho conhecido muita gente nova, em tantos lugares em que nunca julguei poder estar. Acima de tudo, estou grato ao cinema.
Para terminar, uma pergunta que poderia ter sido a primeira: de onde vem este estranho e poético título, A Semente do Figo Sagrado?
De uma planta concreta. A uma certa altura da minha vida, morei numa ilha do sul do Irão em que existem figueiras com largas centenas de anos. As suas sementes, pelos excrementos dos pássaros, caem sobre outras árvores e começam a germinar nos interstícios dos ramos, à medida que as raízes se alastram pelo chão. Até que novos ramos surgem e começam a abraçar a árvore hospedeira, estrangulando-a. O ciclo de vida da figueira selvagem e o modo como ela se ergue, livre da sua base, pareceu-me adequada para o título e foi uma inspiração.
O autor escreve segundo a antiga ortografia.