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Depois de 19 anos de espera, Messi e Yamal vão partilhar mais do que apenas uma fotografia

São muitas as coincidências que têm a fotografia apenas como ponto de partida. O círculo fecha-se este domingo na final do Campeonato do Mundo, entre a Espanha de Yamal e a Argentina de Lionel Messi.

Manuel Conceição Carvalho
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A imagem já corria na internet há algum tempo e ficou conhecida quando Lamine Yamal começou a brilhar no futebol europeu. Agora, em vez de partilharem apenas uma fotografia, o jovem jogador espanhol e Lionel Messi vão partilhar pela primeira vez o relvado, como adversários e logo numa final do Campeonato do Mundo. Nessa mesma imagem, datada de 2007, vê-se Lionel Messi, então com 20 anos, ajoelhado junto a uma pequena banheira de plástico, a segurar com cuidado um bebé de cinco meses dentro de água.

O retrato nasceu de uma iniciativa solidária e foi feito por Joan Monfort, então fotojornalista do jornal Sport, no âmbito da segunda edição de um calendário solidário organizado pelo jornal em parceria com a UNICEF e a Fundação FC Barcelona. O calendário reunia 12 jogadores da equipa principal dos culés — nomes como Ronaldinho, Eto’o ou Puyol — posando com crianças em risco de exclusão social ou ligadas a programas da UNICEF. Messi foi um dos jogadores escolhidos para aparecer no calendário e o destino tratou de juntá-lo ao então futuro craque do Barcelona, muitos anos antes de o ser.

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A presença daquele bebé específico ao lado de Messi não foi planeada — foi pura sorte. Os pais da criança, Mounir Nasraoui e Sheila Ebana, moradores do bairro humilde de Rocafonda, em Mataró, na província de Barcelona, tinham inscrito o filho num sorteio de bairro organizado pela UNICEF e pela organização solidária Casal dels Infants — e ganharam. E o destino colocou aquele bebé, ao acaso, ao lado de Leo Messi, com o balneário visitante do Camp Nou como pano de fundo.

“Fizemos o calendário com a ajuda da UNICEF. A UNICEF fez um sorteio no bairro de Rocafonda, em Mataró, onde a família do Lamine vivia. Eles inscreveram-se no sorteio, para o bebé tirar uma fotografia no Camp Nou com um jogador, e ganharam. Mas o Messi é um tipo bastante introvertido, é tímido. Estava a sair do balneário e de repente estava noutro balneário com uma banheira de plástico cheia de água e um bebé lá dentro. Foi complicado, ele nem sequer sabia como pegar nele”, revelou Monfort.

Os bastidores da sessão fotográfica tiveram contornos muito próprios, revela o fotojornalista. “Foi uma foto complicada. Messi antes era ainda mais tímido do que agora“, revelou Joan Monfort ao El País. Já Yamal era um bebé fácil. “Lamine era muito simpático. Ganhou o Messi com dois sorrisos”, acrescentou. Para os sorrisos terão contribuído a banheira e o pato de borracha que Monfort trouxe de casa. Certamente, também a mãe, que esteve presente durante toda a sessão, chegou a surgir na fotografia original escolhida para o calendário, junto a Messi e ao filho.

A fotografia ficaria arquivada durante mais de uma década, esquecida em discos rígidos e arquivos do jornal. O próprio Monfort não sabia que aquele bebé era Lamine Yamal até a imagem se tornar viral. O reaparecimento aconteceu durante o Euro 2024, quando o pai de Lamine a publicou no Instagram com a legenda “O início de duas lendas”. Curiosamente, os dois nunca chegaram a cruzar-se em campo pelo Barcelona: Lamine estreou-se na equipa principal já depois de Messi ter saído para o Paris Saint-Germain.

O paralelismo entre os dois percursos vai além da fotografia. Ambos vieram da mesma “fábrica” que produziu nomes como Xavi, Iniesta e Sergio Busquets. Messi juntou-se ao Barça em 2000, aos 13 anos, e estreou-se na equipa principal aos 17 e, a partir da sua segunda época pelos culés, vestiu a camisola número 19, até começar a envergar a ’10’; Yamal entrou na academia aos sete anos e estreou-se aos 15, tornando-se o jogador mais jovem do século XXI a vestir a camisola do Barça — também a número 19, na temporada 2024/2025. E, como se a simbologia não bastasse, Yamal herdaria esta época no Barcelona a icónica camisola 10 que Messi vestiu durante 13 temporadas nos catalães.

Uma série de coincidências tão improvável que Zohran Mamdani, autarca de Nova Iorque, pensou que a fotografia entre os dois jogadores tinha sido feita através de inteligência artificial.

https://twitter.com/el_pais/status/2077864600368787680

“Como pessoa que gosta de se considerar especialista em tecnologia e capaz de distinguir entre uma imagem gerada por IA e uma real, pensei que a imagem de Messi e Lamine Yamal era de IA”, admitiu o autarca da cidade que dá um dos nomes ao palco da final do Mundial, no próximo domingo — o New York New Jersey Stadium.

É por lá que este círculo se fecha e que os caminhos de Messi e Yamal voltam a cruzar-se. A seleção espanhola, de Yamal, conseguiu o lugar na final ao vencer a França por 2-0 em Arlington, Texas, com um penálti convertido por Oyarzabal, depois de uma falta sobre o próprio Yamal, e um segundo golo de Pedro Porro. A Argentina, de Messi, sofreu mais: a Inglaterra adiantou-se com um golo de Anthony Gordon, mas a Albiceleste voltou a dar a volta ao marcador, com o golo do empate aos 85 minutos e o da vitória já nos descontos — ambos os golos com assistência de Lionel Messi.

Para Messi, que fez 39 anos durante o torneio, esta é a sua terceira final de um Campeonato do Mundo, depois da derrota com a Alemanha em 2014 e do título conquistado sobre a França em 2022, nos penáltis. Para Yamal, que soprou as velas do seu 19.º aniversário a 13 de julho, é a primeira. Questionado pela DAZN, ao ver de novo a fotografia da banheira, Yamal não hesitou: “Cresci um bocadinho, e o Leo também”, disse, admitindo que esperava há muito por este encontro. Naquela banheira do Camp Nou só cabia um. Este domingo, o MetLife Stadium (New York New Jersey Stadium, como apelida a FIFA), tem lugar para os dois — embora só um saia de lá com sorrisos.