O agente do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE), responsável pela morte de um homem colombiano, no estado do Maine, esta segunda-feira, é um antigo membro do exército norte-americano, com um longo passado de problemas de saúde mental, revelaram os seus familiares.
Considerando que foi um “tiro justificado”, David Brouillette matou Johan Sebastián Durán Guerrero, colombiano de 25 anos, com autorização legal para trabalhar nos Estados Unidos, num tiroteio. Alegadamente, o veículo tentou fugir do local na direção de Brouillette e, “temendo pela segurança pública, um agente disparou a sua arma”, afirmou o ICE.
“Não creio que ele se considere um assassino”, disse Madison Brouillette, a filha de 18 anos do agente, em declarações à agência Associated Press. “Acho que ele acredita sinceramente que fez a coisa certa“, depois de o pai ter afirmado que “fez o que tinha de fazer”. “Disse que teve de se defender”, acrescentou.
O passado de comportamentos violentos de David Brouillette, entre os quais a agressão de mulheres com quem tinha relações, levanta questões sobre o rigor da avaliação do Departamento de Segurança Interna no recrutamento dos membros, numa altura em que foram realizadas várias contratações, para concretizar a política de repressão à imigração da Administração Trump.
A ex-mulher do agente, Ashley Brouillette, contou um episódio de violência passado no final de 2025, altura em que o homem se juntou à agência.
Numa mensagem de voz de três minutos, Brouillette ridiculizou a antiga parceira por esta ter requerido uma ordem de restrição contra ele, chamando-lhe “repugnante”. “Todas vocês deviam ter as vossas gargantas cortadas“, lançou, referindo-se a mulheres da sua “linhagem”. “Estou a ameaçar que vou fazer isso? Não. Mas acho que já as deviam ter cortado? Sim”, ouvia-se no áudio.
Já na sequência do recente tiroteio que matou o cidadão colombiano, David Brouillette entrou em contacto com Ashley através do Facebook. Depois de ter assumido, durante a chamada, que tinha disparado mortalmente contra Durán Guerrero, Brouillette pediu à ex-mulher que dissesse que ele “ele era uma boa pessoa e para não falar sobre os abusos”, de que tinha sido alvo durante o tempo em que estiveram juntos, defendendo que, atualmente, o mais importante é a sua “reputação”. Contou-lhe ainda que se encontra agora em custódia protetora.
“O Dave precisa de aconselhamento para a sua PTSD (Perturbação de Stress Pós-Traumático) e depressão“, escreveu a segunda ex-mulher do agente do ICE, que pediu à Associated Press que a sua identidade permanecesse anónima, por recear consequências. Os abusos físicos e verbais, cometidos contra si e contra a filha que têm em comum, levaram-na a fazer vários pedidos de ordens de restrição temporárias.
Diagnosticado em criança com transtorno bipolar e défice de atenção, um familiar próximo acredita que o tempo que Brouillette passou em teatros de guerra estrangeiros agravou a sua instabilidade emocional. “O Afeganistão destruiu-o. Treinou-o para ser um monstro assassino, uma máquina. Pegaram numa pessoa que sofria de uma doença mental grave e transformaram-na numa máquina de matar”. Nunca lhe devia ter sido entregue um distintivo e uma arma para patrulhar as ruas americanas, acrescentou a família.
Tendo exercido funções na Guarda Nacional do Exército do Maine, em 2010 David Brouillette passou a integrar o Exército dos Estados Unidos, onde foi destacado para a missão no Afeganistão. Em 2025, foi contratado pelo ICE, depois de ter sido rejeitado pela primeira vez, por tomar medicação para os problemas de saúde mental.
Quando contactada para comentar o historial de Brouillette e o papel deste agente no tiroteio de segunda-feira, a porta-voz do ICE afirmou num comunicado que o membro da agência do Departamento de Segurança Interna “tem quase uma década de experiência na aplicação da lei a nível federal, com a formação exigida, incluindo formação sobre o uso da força”. Lauren Bis acrescentou que “nunca confirmaremos nem negaremos tentativas de divulgar dados pessoais dos nossos agentes da autoridade”.
A morte no estado do Maine foi a mais recente de vários homicídios que envolvem agentes federais de imigração, num momento em que a administração Trump continua a sua campanha para detenção e deportação de imigrantes.
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