Acompanhe o nosso liveblog sobre os conflitos internacionais
O plano de recuperação para a Faixa de Gaza, promovido pelo Conselho de Paz (o chamado Board of Peace, liderado por Donald Trump), foi reduzido de um projeto de reconstrução para todo o território a um programa-piloto junto à cidade de Rafah, no sul do enclave palestiniano, noticiou o The Guardian.
O projeto, que não deverá avançar antes do final deste ano, prevê a criação de um campo temporário composto por casas modulares, administrado por uma entidade palestiniana, com uma força policial local e proteção assegurada por uma Força Internacional de Estabilização (ISF, na sigla inglesa). O jornal britânico nota que, apesar de alguns preparativos, como a chegada de elementos marroquinos e kosovares a Israel e a construção de uma base logística na passagem de Kerem Shalom, os trabalhos no terreno ainda não começaram.
https://observador.pt/2026/01/22/kushner-apresentam-plano-mestre-para-gaza-arranha-ceus-a-beira-mar-desmilitarizacao-ajuda-humanitaria-e-mercado-livre/
Segundo os responsáveis envolvidos no processo, o avanço do plano deverá depender da evolução da situação política em Israel, uma vez que estão marcadas eleições para 27 de outubro. Diplomatas ocidentais acreditam que uma eventual mudança de Governo poderá facilitar progressos, embora não exista qualquer garantia de alterações significativas na política israelita para Gaza.
“O objetivo é simplesmente manter as coisas a avançar, manter a bola em jogo, porque, se pararmos, há outros com uma agenda mais radical à espera de intervir e assumir o controlo. E estão a falar de transferência populacional em grande escala e de colonização“, afirmou um diplomata ao jornal britânico.
Desde o cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos, anunciado em outubro do ano passado, Israel continuou a realizar ataques na Faixa de Gaza, restringiu a entrada de ajuda humanitária e impediu trabalhos de reconstrução. De acordo com fontes diplomáticas, o exército israelita ocupa atualmente mais de 60% do território.
https://observador.pt/especiais/podemos-fazer-praticamente-o-que-quisermos-o-que-e-o-conselho-de-paz-que-trump-criou-quem-o-lidera-e-quais-sao-os-aliados/
O projeto-piloto foi acordado há duas semanas, após a realização de reuniões no Chipre entre representantes do Conselho de Paz, do Tony Blair Institute e do Comité Nacional para a Administração de Gaza (NCAG), composto por técnicos palestinianos. O comité, contudo, continua impedido por Israel de entrar na Faixa de Gaza.
O financiamento do projeto também é indefinido. Dos 17 mil milhões de dólares (cerca de 14,8 mil milhões de euros) prometidos para o plano inicial de paz para Gaza, apenas uma pequena parte foi disponibilizada. O Conselho de Paz tenta ainda negociar a utilização de parte das receitas fiscais palestinianas atualmente retidas por Israel, proposta que foi rejeitada pela Autoridade Palestiniana.
O plano tem sido alvo de críticas por parte dos responsáveis palestinianos e de alguns políticos israelitas, que receiam que o campo-piloto possa aprofundar divisões entre a população deslocada e transformar uma solução temporária numa resposta permanente para a crise humanitária em Gaza.
“A catástrofe humanitária não pode ser gerida no meio de medidas fragmentadas ou parciais. Todo o esforço que realmente salve vidas palestinianas merece uma cuidadosa consideração”, afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros da Autoridade Palestiniana, Varsen Aghabekian.
“A nossa preocupação, no entanto, é que as medidas temporárias jamais substituam uma solução abrangente ou sirvam para normalizar uma realidade inaceitável”, sublinhou o governante.