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(A) :: Os 30 anos da Lux Records e Rui Ferreira, um "mecenas" do rock'n'roll em Coimbra: "Se não editar estas bandas agora, elas acabam"

Os 30 anos da Lux Records e Rui Ferreira, um "mecenas" do rock'n'roll em Coimbra: "Se não editar estas bandas agora, elas acabam"

A rádio mudou-lhe a vida, descobrir bandas e editar discos foi inevitável — só lhe falta ser músico. Hoje tem uma loja de discos, organiza um festival e promete continuar a apostar em novos artistas.

Carina Fonseca
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Maria João Gala
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Rui Ferreira trabalhou durante 25 anos como enfermeiro no Hospital da Universidade de Coimbra, quase sempre na Cirurgia Geral. “Gostava imenso. Em enfermagem, depende de onde se trabalha. É diferente trabalhar na maternidade, ver todos os dias alguém a nascer, ou trabalhar na oncologia e ver todos os dias alguém morrer. Em Cirurgia Geral, o trabalho não era monótono. E era tutor de alunos da Escola de Enfermagem”, conta. Claro que havia desvantagens, como ter de trabalhar por turnos, ou abdicar do tempo em família nas épocas festivas: “Em 25 anos, gozei duas vezes o Natal”. É uma profissão muito absorvente, mas conseguiu conjugá-la com o trabalho na música até 2016, a altura da troika, em que as condições de trabalho dos funcionários públicos pioraram bastante. Quando deu por si a ganhar 900 euros enquanto enfermeiro, pensou que, para isso, mais valia ser patrão de si mesmo.

Acabou por se dedicar à música. Nessa indústria, fez de tudo: foi editor, produtor de espetáculos, manager de bandas… Só não foi músico. Talvez pudesse tê-lo sido, se não tivesse trocado as aulas de solfejo por uns chutos na bola. “Para quem tem 12, 13 anos, o solfejo é um horror”, recorda, ele que ainda foi às aulas durante três meses, mas desanimou, porque não o deixavam tocar no piano enquanto não dominasse a leitura de partituras. Certo é que o gosto pela música nunca foi à barra. Tanto que, no dia do seu primeiro casamento, foi assistir a um concerto de James, com a mulher. Contou isso ao vocalista mais tarde, nos bastidores do Festival do Sudoeste, quando o entrevistou para a Rádio Universidade de Coimbra — RUC. No camarim recheado “de comida do bom e do melhor”, o artista pegou numa caixa de chocolates e ofereceu-lha, dizendo que era para a noiva.

Rui tem muitas histórias para contar em torno do universo musical, cuja paixão despontou em casa, muito embora os discos que o irmão comprava nada lhe dissessem. “A minha família era pobre e só tínhamos uma telefonia com onda média e onda curta. Em 1985, a minha mãe comprou-me um rádio gravador com FM e, quando tive acesso ao FM e ouvi o [programa] Som da Frente, do António Sérgio… Essa frequência mudou a forma como eu ouvia música e o que ouvia. Só no Som da Frente, ganhei tantos discos à borla, e bilhetes para concertos… Papava os passatempos todos”, recorda. Lembra-se de, nesse mesmo ano, ter comprado o seu primeiro disco de vinil, na discoteca Almedina, em Coimbra, sua cidade natal.

Os primeiros discos foram comprados com dinheiro que a mãe lhe dava para tomar o pequeno-almoço e fazer fotocópias, confidencia. Poupava-o e, ao fim de umas três semanas, tinha o suficiente para comprar um. “Quando percebi que já tinha uma coleção razoável, pensei: tenho de mostrar estes discos a alguém.” E surgiu a oportunidade de fazer rádio na Nova Rádio de Coimbra, uma rádio pirata.

Quando acabou o curso de enfermagem, em 1992, Rui já tinha muitos discos e inscreveu-se no curso de locução da RUC, o que “aumentou exponencialmente” o seu envolvimento na música. No primeiro programa de autor, Os Últimos Dias do Vinil, só passava discos desses, mesmo se lhes vaticinavam o fim. E depois juntou-se a José Braga para fazer um programa de versões: Cover de Bruxelas, que dura até hoje e acumula com Talk Talk Talk, dedicado a conversas sobre música. Ao serviço dessa rádio, entrevistou ainda personalidades como Nick Cave, Jarvis Cocker, Moby ou Tindersticks, entre outros nomes de topo, alguns deles ídolos seus.

Cumprir serviço cívico numa rádio

Rui Ferreira já estava na RUC quando, na época do serviço militar obrigatório, se declarou objetor de consciência. Conta que teve de ir a tribunal, pagar a um advogado para o defender e responder a perguntas do juiz como: “Se visse a sua mãe e a sua irmã a serem violadas, não fazia nada?”. Resultado: “Fui o primeiro objetor de consciência a fazer serviço cívico na RUC”. Se antes já lá tinha um pé, com a aplicação daquele castigo, entrou na rádio universitária de corpo inteiro e passou a conhecê-la “como ninguém”. Durante sete meses, cumpriu 35 horas de trabalho no hospital e mais 35 horas de trabalho na RUC, onde fez de tudo, desde catalogar todos os discos até cobrar dívidas. Depois disso, acabou por entrar para a direção da rádio, primeiro como tesoureiro e, nos três anos seguintes, como presidente da administração.

Do catálogo atual da Lux fazem parte nomes como The Twist Connection, Birds are Indie, John Mercy, Tracy Vandal, Victor Torpedo (sozinho ou com os Pop Kids) e bandas novas de que Rui gosta e nas quais investe, como So Dead. Em setembro, conta editar mais três projetos novos de Coimbra: Lovedust (uma espécie de superbanda); Voronet Blue; e Projétil Gulag (punk rock a cargo de Pedro Renato e companhia).

Em dado momento, António Cunha (que era dono da loja de discos Fuga, no centro comercial Primavera, sócio da antiga discoteca States e fundador da Kaos Records, editora de música de dança) partilhou com Rui Ferreira o desejo de ter uma editora dedicada à música alternativa. Era o início da Lux Records, em que Rui exercia funções sobretudo de A&R (Artistas e Repertório), ou seja, escolhia os músicos. Aquela editora discográfica independente, com sede em Coimbra, nasceu em setembro de 1995, com os dois a bordo, mas as primeiras edições só tiveram lugar em março do ano seguinte, razão pela qual se celebram neste ano as três décadas da Lux.

Para assinalar a efeméride, saiu, em finais de junho, um disco de covers de temas da editora, com voz e música de John Mercy (alter ego de João Rui, dos A Jigsaw), e Raquel Ralha como convidada. O álbum John Mercy – A Date With Lux tem na capa parte de um quadro da autoria de Victor Torpedo, no qual figuram o músico e o seu já falecido cão. Dele constam versões de temas de Sean Riley & The Slowriders, Bunnyranch e The Legendary Tigerman, entre outros. A propósito: os dois primeiros discos editados, em simultâneo, pela Lux, foram o álbum comemorativo dos dez anos da RUC e um que juntava António Olaio e João Taborda.

Todos os anos, em março, a RUC fazia um concerto de aniversário. Em 1998, não havia nenhum nome em cima da mesa e Rui sugeriu os Belle Chase Hotel, de quem tinha recebido, meses antes, uma maquete com cinco temas que apreciara bastante. Ora, o espetáculo daquela banda que “ninguém conhecia”, no Teatro Académico de Gil Vicente, teve lotação esgotada. E, entre o público, estava Nuno Ferro, que tinha ligações ao Festival de Paredes de Coura e mostrou interesse em levar lá a banda de Coimbra. “De repente, eu era o responsável pela estreia dos Belle Chase Hotel em Paredes de Coura e passei a ser o manager deles, sem saber porquê”, lembra.

Entretanto, Rui Ferreira acabou por ficar sozinho à frente da Lux Records. Quando surgiu a hipótese de vender o disco dos Belle Chase Hotel, produzido pela Lux, à Valentim de Carvalho, decidiu avançar, era então manager da banda. Isso deu-lhe fôlego financeiro para editar outros discos que estavam na prateleira. Garante que nunca fez contratos com os artistas nas edições da Lux (exceto um grupo cujo trabalho acabou por não sair), porque prefere confiar na palavra dada. Pelo caminho, tornou-se manager de outros artistas alojados na Lux, que editou os primeiros dois álbuns de The Legendary Tigerman, depositando fé na one man band de Paulo Furtado, também de Coimbra.

Do catálogo atual da Lux fazem parte nomes como The Twist Connection, Birds are Indie, John Mercy, Tracy Vandal, Victor Torpedo (sozinho ou com os Pop Kids) e bandas novas de que Rui gosta e nas quais investe, como So Dead. Em setembro, conta editar mais três projetos novos de Coimbra: Lovedust (uma espécie de superbanda); Voronet Blue; e Projétil Gulag (punk rock a cargo de Pedro Renato e companhia). Rui Ferreira edita, preferencialmente, bandas de Coimbra, embora, ao longo dos anos, tenha aberto exceções para nomes como Mão Morta (Braga), X-Wife (Porto), Houdini Blues (Évora) ou Born a Lion (Marinha Grande).

“Prefiro editar bandas de Coimbra porque, se não as editar agora, que estão com pica, elas acabam”, defende. Viu isso acontecer com algumas. Outras tiveram o empurrão de que precisavam para crescer. “Se não têm um primeiro incentivo, para poderem dar concertos, percebo que acabem”, afirma ainda, e por isso se vê como uma espécie de “mecenas" local.

Viveu sempre em Coimbra. “Quando os Belle Chase Hotel começaram a ter uma certa fama, pensei em sair, mas era complicado. Era funcionário público, os ordenados não falhavam… Tinha medo. Na altura dos Belle Chase Hotel, ia a todos os concertos enquanto trabalhava no hospital. Conciliar horários era muito difícil. Os Belle Chase Hotel, em 1999, deram mais de 80 concertos”, recorda, sobre esse tempo em que era manager da banda composta por nove elementos, entre eles Raquel Ralha e Pedro Renato, com quem continua a trabalhar.

Muitas bandas? “No fundo, são sempre as mesmas pessoas”

A razão pela qual Rui Ferreira tende a editar projetos de Coimbra prende-se com a proximidade, “que é importante”, mas não só. “Prefiro editar bandas de Coimbra porque, se não as editar agora, que estão com pica, elas acabam”, defende. Viu isso acontecer com algumas. Outras tiveram o empurrão de que precisavam para crescer. “Se não têm um primeiro incentivo, para poderem dar concertos, percebo que acabem”, afirma ainda, e por isso se vê como uma espécie de “mecenas” local.

Quanto ao rótulo de Coimbra, “capital do rock”, considera-o “um exagero” — não tanto quando o epíteto é “capital do rockabilly, porque não há muitas cidades com uma cultura rockabilly”. “Coimbra enquanto cidade, município, nunca apostou nas próprias bandas, não houve criação de salas de ensaio nem de locais para elas tocarem”, sustenta. A seu ver, o que aconteceu foi que os músicos dos Tédio Boys se dispersaram por “projetos muito bons, como D30, Wraygunn, Parkinsons, Tiguana Bibles ou The Twist Connection; no fundo, são sempre as mesmas pessoas”.

Em 2017, Rui Ferreira abriu a loja de discos Lucky Lux, na Baixa de Coimbra, que considera a sede da editora. Decidiu apostar no objeto físico, apesar da tendência para a desmaterialização da música. Recusa a ideia de que esteja a remar contra a maré, porque acredita que continua a haver quem compre discos. “Depois de 2017, o interesse no vinil aumentou”, constata. Se anda contra a corrente é por fazer questão de editar todos os discos em CD, contrariando a tendência atual da indústria. “De repente, os consumidores são privados de comprar CD?”, questiona, alertando para a repetição do erro que se cometeu na década de 1990, quando se acreditava que o vinil estava morto, ou, pelo menos, moribundo.

Também em 2017, nascia o festival Lux Interior, cuja oitava edição se realiza nos próximos dias 29 e 30 de outubro, no Teatro Académico de Gil Vicente (não houve festival em 2020 e em 2021, devido à pandemia). O nome remete para o músico dos The Cramps e para a ideia de olhar para dentro da Lux, na medida em que abrange muitos artistas do seu universo. Há ainda o ciclo de concertos “A Date with Lux”. Rui Ferreira sublinha que tanto a editora como o festival sobreviveram sempre sem apoios externos, seja da Câmara Municipal ou do poder central. Prefere assim.