As guerras não são conceptualmente muito diferentes das zaragatas à porta de uma discoteca. Primeiro, um dos cavalheiros lança ao outro um olhar turvo e demorado. Depois pergunta se há algum problema. O interpelado arregaça as mangas da camisa, insulta a mãe do outro e responde que problema nenhum, num volume que informa o bairro inteiro de que existe um problema considerável.
Segue-se o dedo espetado no peito, o empurrão para assustar, o safanão em resposta e, cinco minutos depois, estão ambos engalfinhados no passeio, com as camisas rasgadas, um incisivo a menos e a secreta esperança de que apareça alguém para os separar. Não porque tenham descoberto subitamente as virtudes da paz, mas porque desejam abandonar a contenda conservando alguma dignidade e um número de dentes que permita mastigar.
A presente escalada entre o Irão e os EUA obedece a esta ciência exacta. É espantoso como certos dirigentes, embora rodeados de conselheiros, generais, serviços de informações e especialistas com diplomas de universidades caríssimas, ignoram não apenas os grandes tratados de estratégia, mas também a elementar psicologia das lutas. Aquela que muitos de nós aprendemos no recreio, num tempo em que as crianças andavam à pancada, estabeleciam hierarquias, faziam as pazes e voltavam para casa para tratar dos joelhos, em vez de passarem a tarde a olhar para o telemóvel.
Convém recordar que esta ronda de mimos começou com ataques iranianos contra navios comerciais que atravessavam o Estreito de Ormuz e não com Donald Trump a acordar maldisposto e a decidir bombardear o Irão para melhorar as audiências. Os EUA responderam à violação do cessar-fogo, atingindo a arquitectura de interdição que o Irão instalou na região.
Importa esclarecer isto porque andam para aí alguns “especialistas” a retratar o regime islâmico como uma donzela inocente, surpreendida pelos bombardeamentos americanos enquanto regava os gerânios.
Teerão atacou a navegação comercial porque concluiu que podia fazê-lo.
E chegou a essa conclusão porque, há uns tempos, quando o regime estava militarmente atordoado, com as defesas degradadas, a estrutura de comando atingida e a iniciativa perdida, as operações foram suspensas. Teerão cambaleava mas, em vez de lhe aplicar mais um golpe, os EUA deram-lhe uma cadeira, um copo de água e tempo para recuperar o fôlego e voltar ao ringue.
Há quem explique esta estratégia remetendo para a Guerra Civil Americana e o Plano Anaconda. Que consistia na progressiva asfixia económica e militar do Sul. A União envolvia a Confederação e apertava-a lentamente até esta deixar de respirar. No caso do Irão, até o regime concluir que o preço da resistência excedia o da capitulação.
A ideia possui racionalidade. Evita a perigosa tarefa de fazer a guerra num país vasto, montanhoso e populoso. Explora a superioridade naval, aérea, tecnológica e financeira dos EUA. Permite gerir a pressão conforme o comportamento iraniano. E situa Trump na agradável imagem de um homem que estrangula o adversário sem sujar excessivamente os sapatos.
O problema é que isto só funciona bem quando a presa deseja, acima de tudo, continuar viva.
Mas a Guarda Revolucionária, como sistema, opera num universo ideológico que não mede o êxito em pontos percentuais do PIB, sondagens e prémios de produtividade. A sua matriz contém uma componente milenarista, assente no martírio, na resistência, no regresso do Imã oculto e na ideia de que o sofrimento suportado em defesa da revolução possui um sentido transcendente. A morte não refuta a estratégia, a destruição apenas prova que se está a enfrentar as forças do mal, e o sacrifício da população pode ser convertido em legitimidade.
Não é que os dirigentes iranianos se levantem todas as manhãs ansiosos por alcançar o paraíso antes do almoço. Mas os custos que fariam recuar um governo normal podem, naquele ambiente, ser absorvidos, transferidos para a população e reinterpretados como prova de fidelidade.
Não é pois seguro que a estratégia Anaconda consiga obrigar a Guarda Revolucionária a capitular, especialmente quando se alivia a meio. Na verdade o regime tenderá a responder ao aperto com uma escalada horizontal tentando aumentar o preço económico e político suportado pelos EUA, os países do Golfo e a economia mundial.
Esta estratégia de aplicação gradual da força tem os seus “quês”. Falhou no Vietname, por exemplo.
A Operação Rolling Thunder, foi uma escalada gradual, cuidadosamente administrada, pela qual Washington esperava aumentar progressivamente a pressão até Hanói considerar demasiado caro o apoio à guerra no Sul.
Mas os comunistas de Hanói perceberam que os americanos receavam ir longe demais, que os alvos eram escolhidos de acordo com restrições políticas e que havia tempo para reparar, adaptar e continuar.
O caso da Rússia é ainda mais elucidativo. No início de 2022, Putin invadiu a Ucrânia com forças mínimas, supondo que Kiev cairia rapidamente, Zelensky fugiria assustado e a resistência seria simbólica. Não resultou e o Kremlin ficou então prisioneiro da própria aposta. Não podia retirar sem admitir uma derrota humilhante, mas também não conseguia alcançar os objectivos iniciais com a força empregue. A solução foi aumentar sucessivamente o compromisso, com mais soldados, mais mobilização, mais ataques, mais destruição, mais dependência da China, mais ameaças tremendas e mais mortos destinados a justificar os mortos anteriores.
É a psicologia da escalada em todo o seu esplendor.
Após a resposta em espécie, a decisão deixa de depender apenas do cálculo estratégico. O líder teme parecer fraco. Os generais querem provar que o plano é bom. A população, depois de sofrer baixas, exige que o sacrifício tenha servido para alguma coisa. Cada custo suportado torna politicamente mais difícil abandonar o conflito, e a guerra passa a alimentar-se a si própria.
A alternativa à escalada gradual é a força decisiva, súbita, concentrada, dirigida às capacidades essenciais do inimigo e subordinada a uma finalidade política alcançável.
Em Junho de 1967, Israel, em vez de levar a cabo meia dúzia de ataques simbólicos para informar os inimigos de que estava ligeiramente incomodado com os seus movimentos militares, atacou de surpresa todas as bases aéreas egípcias, destruindo centenas de aviões. O golpe inicial decidiu militarmente a guerra antes que esta se transformasse numa longa sucessão de punições proporcionais, comunicados indignados e funerais nacionais.
Na Guerra do Golfo, em 1991, a coligação não enviou avisos mensais a Saddam Hussein, esperando que ele adquirisse bom senso por exposição prolongada a apelos e resoluções internacionais. Concentrou uma força esmagadora, definiu um objectivo político limitado (expulsar o Iraque do Kuwait) e conduziu uma extensa campanha aérea antes da ofensiva terrestre, a qual se resolveu em quatro dias.
Não se trata de bombardear tudo. Trata-se de destruir aquilo que permite ao adversário continuar a combater, antes que ele possa adaptar-se. Não se combate para castigar, atemorizar ou transmitir mensagens. Combate-se para o reduzir à inacção, se houver poder para isso. Quando o inimigo possui capacidade para responder e causar danos sérios, um ataque que apenas o irrite é um erro monumental.
O Krav Maga assenta precisamente nesta realidade desagradável. Não se trata de lutar de forma elegante, equilibrada e desportiva. Trata-se de neutralizar rapidamente a ameaça e sair vivo e funcional. Não se fica a trocar golpes para determinar quem tem o currículo marcial mais impressionante. Muito menos se interrompe a acção quando o agressor cambaleia, oferecendo-lhe tempo para recuperar e procurar uma arma.
Mas foi isto, no essencial, que sucedeu no caso iraniano. A suspensão das operações em 07 de Abril transmitiu uma mensagem oposta à que Washington julgava enviar. O regime, que estava militarmente abalado, compreendeu que sobrevivera e passou até a acreditar que vencera. Recuperou meios, reorganizou unidades e concluiu que os EUA preferiam gerir o conflito a terminá-lo.
Ao voltar a atacar navios mercantes no Estreito de Ormuz, está a agir segundo a sua natureza e a testar a memória, a determinação e os limites americanos.
Recebeu agora uma resposta mais pesada mas o problema é que ela é gradual e ocorre depois de o regime ter recuperado parte do equilíbrio. Os danos serão, por isso, superiores aos que teriam resultado de uma operação decisiva quando o regime ainda cambaleava.
É esse o paradoxo da aplicação gradual da força. Pretende evitar uma guerra grande e acaba por desaguar numa guerra maior em prestações crescentes. Cada gesto parece responsável e consequencial quando observado isoladamente. Somados, produzem resultados muito mais gravosos, com todos a explicarem que ninguém deseja escalar.
Naturalmente que ninguém deseja.
Também os dois homens confiantes, à porta da discoteca, não desejavam acabar no hospital. Queriam apenas que o outro se assustasse e recuasse. Faltou-lhes antever que, depois do primeiro soco, já ninguém está a ouvir. A partir daí entram em cena a raiva, o medo, o ego e, no caso iraniano, uma ideologia que consegue transformar a derrota em martírio e o martírio em vitória.
A Estratégia Anaconda pode enfraquecer, empobrecer e destruir os instrumentos de agressão do Irão. Mas não há garantia de que o obrigue a render-se. Sobretudo quando a serpente tenta sufocar homens convencidos de que morrer estrangulados é uma forma particularmente honrosa de vencer
Um ataque limitado, como o dedo espetado no peito à porta da discoteca, é, no caso dos aiatolas, interpretado não como prudência, mas como medo. Uma pausa é tempo para reparar radares, dispersar mísseis, escavar abrigos, reorganizar unidades e preparar a batalha seguinte e não uma oportunidade para negociar. A sobrevivência transforma-se em vitória, e cada vitória proclamada exige um gesto ligeiramente mais agressivo para demonstrar que não se tratou apenas de propaganda.
É isto, em síntese, o que se está a passar no Golfo Pérsico e torna-se óbvio que as coisas só mudarão com uma alteração da natureza do regime instalado em Teerão.
Com uma anaconda, uma marreta ou, provavelmente, com as duas.
A alternativa é intragável: um regime islâmico dotado de armas nucleares, o domínio da região, a aniquilação de Israel e o controlo do fluxo do petróleo.