O que se tem dito sobre o caso de Luís Neves é tão óbvio, que é difícil não achar o caso um pouco inexplicável. Como pôde um director da PJ achar boa ideia empregar numa obra particular um empresário com contratos de milhões com a PJ e fazer-se “amigo” dele? Nunca lhe ocorreu que esse tipo de relação entre o dirigente de uma instituição pública e um dos seus fornecedores pudesse suscitar suspeitas de troca de favores? Como pôde um ministro da Administração Interna passear pelos ecrãs a contar histórias que a imprensa pouca dificuldade teve em desmantelar, ao mesmo tempo que se negava majestaticamente a partilhar os únicos documentos capazes de limpar um pouco as nuvens de desconfiança que se acumulavam sobre a sua cabeça? Não percebe que, nestas situações, é fatal parecer que se está a contar mal as coisas ou que se tem algo a esconder?
Ninguém alegou que o ex-director da PJ e agora ministro tivesse cometido alguma ilegalidade ou prejudicado o interesse público. Mas tudo o que já sabemos autoriza a que se discuta, pelo menos, o que o comentário nacional classificou como “informalidade” e “imprudência”. Ora, esta aparente informalidade e esta notória imprudência não são, de um ponto de vista político, menos graves. Porque revelam uma falta de noção que deveria inibir quem quer que fosse para o exercício de cargos públicos de responsabilidade.
A política democrática não tem de ser uma penitência, nem os políticos monges triturados pela consciência pesada de infinitas obrigações. Mas de um político, em democracia, é legítimo esperar algumas coisas. Primeiro, que esteja ciente das limitações que o exercício de cargos públicos impõe à sua vida pessoal, e que seja capaz de compreender o sentido dessas limitações em termos de confiança pública. Segundo, que perceba que não é o único juiz dos seus próprios comportamentos, e que aceite o debate e o escrutínio, e até a curiosidade e alguma desconfiança, como parte da sua carreira política.
Ninguém é obrigado a entrar na vida pública. Quem o faz, deve-o fazer com consciência dos deveres e dos percalços. Tem de estar preparado para toda a atenção, vistoria e discussão. O mínimo que podemos dizer sobre Luís Neves é que não estava preparado. Já muita gente estranhou essa situação. É de facto extremamente bizarro. Luís Neves foi director da PJ durante vários anos. Deve ter visto, ouvido e lido tudo o que há para ver, ouvir e ler neste país. Um homem que passou por isso não pode permanecer inexperiente ou ingénuo. Como é que se dispôs a entrar na política com uns rabos de palha tão crassos, tão básicos, tão inexplicáveis? Reparem: não é a sua honestidade que agora está em causa. Mas é algo igualmente sério para um político: o seu bom senso, ou até, se preferirem, o seu instinto de sobrevivência.
O caso, de tão estranho, obriga-nos a deixar a pessoa de Luís Neves, e a passar a questionar o meio em que isto foi possível. Que se passa com o que poderemos chamar a “classe dirigente” portuguesa, isto é, com os políticos e os altos funcionários do Estado, entre os quais os governantes são frequentemente recrutados em Portugal, como no caso de Luís Neves? Haverá por ali demasiada gente com o sentimento de impunidade de uma casta superior, e por isso desleixada em relação a regras e a cuidados elementares? Ou certos aproveitamentos pessoais tornaram-se tão comuns, tão banais, e por isso tão insignificantes para quem os pratica, que já não passa pela cabeça de ninguém, mesmo dos mais probos e cautelosos, coibir-se ou precaver-se? Tudo é possível, quando vemos que Luís Neves é possível.