As previsões já apontam novamente para temperaturas próximas dos 40ºC na próxima semana em várias regiões do interior do país, quando o calor vai voltar a apertar. Ainda assim, nos últimos dias começaram a surgir mapas e análises que sugerem que o verão poderá já ter ultrapassado o período mais intenso. As duas ideias parecem incompatíveis, mas ambas podem estar certas.
Perceber porquê obriga a entrar numa realidade que raramente aparece nas previsões meteorológicas: a das previsões subsazonais, as intermédias entre as previsões tradicionais e as previsões climáticas de longo prazo. Quando um meteorologista ou um instituto aponta para que no domingo poderão estar 39ºC em Castelo Branco ou 40ºC em Évora, está a fazer uma previsão do tempo relativamente convencional. Os modelos conseguem, hoje em dia, descrever com bastante detalhe a evolução da atmosfera durante vários dias e com muita segurança a 3/4 dias.
Mas quando os modelos apontam para que “o verão poderá já ter passado o pico”, já não estão a prever o estado do tempo para um determinado dia, mas a falar da circulação média da atmosfera. E, na meteorologia, esta que parece uma pequena diferença nas palavras é enorme. Durante muitos anos acreditou-se que até cerca de dez dias os modelos conseguiam descrever razoavelmente bem a evolução da atmosfera. A partir daí, a previsibilidade caía rapidamente devido ao comportamento caótico da própria atmosfera. Só voltava a existir alguma capacidade de antecipação quando se olhava para escalas de vários meses, através das chamadas previsões sazonais. Entre uma coisa e outra existia um vazio.
Foi precisamente para tentar preencher esse vazio que nasceu um dos maiores projetos internacionais de investigação meteorológica das últimas décadas: o S2S – Subseasonal to Seasonal Prediction Project, desenvolvido pela Organização Meteorológica Mundial (WMO) em conjunto com o Programa Mundial de Investigação Meteorológica (WWRP) e vários dos principais centros meteorológicos do mundo, entre eles o Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF). Pretendiam dizer alguma coisa de útil sobre a atmosfera entre duas semanas e um mês e meio. Durante muito tempo, muitos cientistas acreditaram que não seria possível. Mas enganaram-se.
Segundo o ECMWF, existe efetivamente informação útil nesse intervalo, só que não funciona da mesma forma que uma previsão para amanhã ou para domingo. Em vez de tentar antecipar se Lisboa vai atingir 34ºC numa determinada quarta-feira de agosto, os modelos procuram identificar qual será o padrão dominante da atmosfera nas semanas seguintes: haverá maior probabilidade de calor persistente? De bloqueios anticiclónicos? De circulação atlântica? De temperaturas acima ou abaixo da média? De chuva acima do previsto? É por isso que as previsões subsazonais não dizem exatamente o tempo que fará, dizem qual dos vários cenários possíveis é o mais provável.
“Subseasonal forecasts are probabilistic“, recorda o ECMWF na documentação técnica das suas previsões de médio alcance. Ou seja, trabalham com probabilidades e não com certezas, porque o objetivo não é prever um dia específico, mas identificar tendências atmosféricas em grandes regiões do planeta até cerca de 46 dias de antecedência. É precisamente por isso que uma previsão pode anunciar quase 40ºC para o próximo domingo e, ao mesmo tempo, sugerir que a probabilidade de novos episódios prolongados de calor extremo poderá diminuir nas semanas seguintes.


As duas afirmações não se anulam, respondem a perguntas diferentes. E aqui entra outro conceito fundamental da meteorologia moderna: os ensembles.
Se as previsões subsazonais não dizem que tempo vai fazer num determinado dia, então o que fazem exatamente?
A resposta está numa das maiores revoluções da meteorologia moderna. Chama-se ensemble forecasting, ou previsão por conjuntos, e mudou completamente a forma como os meteorologistas olham para a atmosfera. Durante muitos anos, um modelo meteorológico produzia uma única previsão. Introduziam-se as observações recolhidas por satélites, estações meteorológicas, radares, balões atmosféricos, navios e aviões, o computador fazia os cálculos e surgia um único cenário para os dias seguintes.
Mas hoje já não funciona assim, porque o Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF) corre o mesmo modelo dezenas de vezes, introduzindo pequenas alterações nas condições iniciais. Essas diferenças são quase impercetíveis — uma ligeira mudança na temperatura, uma pequena variação do vento ou da humidade numa determinada região do planeta. Como a atmosfera é um sistema caótico, alterações mínimas podem produzir evoluções completamente diferentes semanas mais tarde.
É essa a ideia descrita pelo meteorologista norte-americano Edward Lorenz, considerado o pai da teoria do caos. O famoso “efeito borboleta” não diz que uma borboleta algures provoca uma tempestade num outro lado qualquer. Diz apenas que, num sistema tão complexo como a atmosfera, pequenas diferenças nas condições iniciais podem amplificar-se ao longo do tempo e conduzir a resultados completamente distintos. É precisamente para lidar com essa incerteza que nasceram os ditos ensembles.
Não vamos à anedota típica do bar, mas imagine cem meteorologistas fechados numa sala em que todos recebem praticamente os mesmos dados sobre o estado da atmosfera. A diferença é que cada um parte de um conjunto de observações ligeiramente diferente, porque nenhuma medição é absolutamente perfeita. Uma semana depois, talvez noventa deles cheguem praticamente à mesma conclusão. Daqui a quatro semanas, as respostas já podem ser muito diferentes: sessenta apontam para um verão mais quente do que o normal; vinte sugerem temperaturas próximas da média; os restantes admitem uma circulação mais atlântica e um ambiente relativamente mais fresco; e nenhum deles está necessariamente errado. Estão apenas a mostrar que a atmosfera admite vários futuros possíveis (a anedota das opiniões dos advogados talvez servisse melhor como exemplo).
Mas é exatamente isso que fazem os modelos do ECMWF. O resultado deixa de ser uma previsão única e transforma-se numa distribuição de probabilidades. Quanto maior for a concordância entre as dezenas de simulações, maior é a confiança dos meteorologistas. Quanto mais dispersos forem os cenários, maior é a incerteza. E é também por isso que as previsões mudam. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, um modelo não “muda de ideias”, o que muda é o conhecimento que tem sobre a atmosfera.

Basta uma pequena alteração de uma depressão ou do anticiclone dos Açores para mudar tudo
Todos os dias entram milhões de novas observações provenientes de satélites, radares, boias oceânicas, aviões comerciais, estações meteorológicas e radiossondagens. Esses novos dados são integrados num processo conhecido como assimilação de dados, considerado por muitos meteorologistas tão importante como o próprio modelo numérico. Cada atualização começa com uma fotografia diferente da atmosfera e basta uma pequena alteração na posição de uma depressão no Atlântico, na intensidade do anticiclone dos Açores ou na ondulação da corrente de jato (jet stream), para que, três ou quatro semanas mais tarde, o cenário seja completamente diferente.

É por isso que um mapa publicado hoje para daqui a um mês pode não se parecer nada com o mapa divulgado amanhã. Não porque o modelo tenha falhado, mas porque a atmosfera continua a evoluir e os modelos passam a conhecê-la melhor. Segundo o ECMWF, esta é precisamente uma das maiores dificuldades na comunicação das previsões de longo prazo: muitas pessoas esperam delas a mesma precisão de uma previsão para dois ou três dias, mas não é isso que elas pretendem fazer.
As previsões subsazonais trabalham com tendências e essas tendências são influenciadas por fenómenos que evoluem muito mais lentamente do que uma simples frente fria. Entre eles estão a temperatura da superfície do mar, a humidade dos solos, a cobertura de neve, o estado da estratosfera e até perturbações tropicais como a Oscilação Madden-Julian (MJO), uma enorme zona de convecção que percorre os trópicos e pode alterar a circulação atmosférica em diferentes regiões do planeta semanas mais tarde — na prática, o maior elemento da variabilidade intrassazonal (30 a 90 dias) na atmosfera tropical, com progressão para o leste de grandes regiões de chuvas tropicais, principalmente sobre o Oceano Índico e o Pacífico.
São estes elementos, que possuem uma espécie de “memória” do sistema climático, que permitem aos cientistas extrair alguma previsibilidade para além das duas semanas — o tal intervalo que, durante muito tempo, era considerado praticamente impossível de antecipar. Mas essa previsibilidade continua a ter limites e é precisamente por isso que ninguém pode afirmar, hoje, que agosto será fresco ou que será escaldante. O que os modelos conseguem fazer é bastante mais modesto, conseguem apenas dizer qual desses cenários parece, neste momento, o mais provável.
O pico do verão já passou, ou ainda não?
A resposta curta é: ninguém sabe. E não é por causa de uma limitação da tecnologia, mas por uma característica da própria atmosfera. O que alguns modelos começaram a sugerir nos últimos dias é que, depois deste novo episódio de calor, a circulação atmosférica poderá tornar-se menos favorável à instalação de bloqueios persistentes sobre a Península Ibérica. Em linguagem simples, poderá diminuir a probabilidade de se repetirem, durante várias semanas seguidas, as condições que favoreceram algumas das vagas de calor mais intensas deste verão.
Mas isso está muito longe de significar que o calor desapareça, ou que agosto venha a ser fresco. Basta olhar para a história recente para perceber como a atmosfera consegue surpreender mesmo quando as tendências parecem apontar noutra direção. O verão de 2003, um dos mais extremos de que há registo na Europa, teve o seu período mais intenso em agosto. Em 2018, Portugal registou a temperatura mais elevada alguma vez observada no país — 46,8ºC, em Alcácer do Sal, a 1 de agosto. Em 2023, várias regiões da Europa voltaram a enfrentar ondas de calor persistentes durante a segunda metade do verão. E mesmo setembro já trouxe episódios de calor excecional em diferentes anos.


Portanto, julho não decide agosto e agosto também não decide setembro. Basta uma alteração na posição do anticiclone dos Açores, uma ondulação diferente da corrente de jato ou uma nova dorsal subtropical proveniente do Norte de África para que a Península Ibérica volte rapidamente a entrar num período de calor intenso. Essas mudanças podem acontecer em poucos dias e é precisamente por isso que os meteorologistas evitam afirmações categóricas quando falam de previsões subsazonais.
Segundo o ECMWF, estas previsões devem ser interpretadas como cenários de maior ou menor probabilidade, nunca como uma antecipação exata do estado do tempo. O próprio centro europeu sublinha que o objetivo é apoiar a tomada de decisão em áreas como a agricultura, os recursos hídricos, a energia ou a proteção civil, e não dizer aos cidadãos se dentro de quatro semanas estarão 36ºC ou 39ºC numa determinada cidade.
Nos últimos anos, a meteorologia entrou numa nova fase. Além dos modelos físicos tradicionais, começaram a surgir sistemas baseados em inteligência artificial, como o AIFS (Artificial Intelligence Forecasting System), desenvolvido pelo próprio ECMWF. Estes modelos aprendem a partir de enormes quantidades de observações e conseguem produzir previsões muito rapidamente, complementando os sistemas tradicionais. Mas mesmo eles continuam sujeitos ao mesmo limite fundamental: a atmosfera continua a ser um sistema caótico. A inteligência artificial pode melhorar as previsões, mas não elimina a incerteza.
https://observador.pt/programas/quente-e-frio/ja-atingimos-o-pico-do-verao-ainda-calor-mas-mais-moderado/
É provável que, nos próximos anos, estas previsões de tendência se tornem cada vez mais precisas. Os cientistas esperam melhorar a representação da humidade dos solos, da temperatura da superfície do mar, da neve, da estratosfera e de fenómenos como a Oscilação Madden-Julian, fatores que influenciam a circulação atmosférica durante várias semanas. Cada melhoria acrescenta um pouco mais de previsibilidade, mas nenhuma permitirá transformar uma previsão probabilística numa certeza.
Quando se lê agora que “o verão já passou o pico”, não devemos interpretar como uma previsão fechada. Devemos interpretar como aquilo que realmente é: o cenário que, hoje, parece mais provável à luz dos dados disponíveis.