Devo confessar: prefiro a Ilíada. As muralhas de Troia, a birra e a cólera de Aquiles, a despedida entre Heitor e Andrómaca, a incursão noturna de Príamo ao acampamento do inimigo, os enganos nas batalhas, acima de tudo a permanência. Mas ninguém pode dizer que não a Homero.
No canto V, no «umbigo dos mares», no frente a frente com Calipso, num espaço à margem, num nenhures onde o Ulisses pai, rei e marido parece ter desaparecido, para ficar só o Ulisses perdido e náufrago, ao futuro herói é prometida a imortalidade. Se ficar com Calipso, não morrerá.
Ulisses, no entanto, luta contra a memória. Como ele, também vivemos presos e armadilhados por ela. Por isso, na proposta de Calipso, Ulisses percebe uma armadilha. Se escolher a vida imortal, a imortalidade trar-lhe-á o anonimato e o esquecimento. Ficará naquela ilha. Não terá a oportunidade de contar os seus feitos. Será substituído em casa. Desaparecerá. No entanto, se recusar a proposta, se escolher morrer, ficará desprotegido, correrá perigo, mas poderá atingir a glória, regressar a casa; viver para sempre, mas de outro modo.
Por este motivo, a Odisseia continua a encantar-nos. Subtilmente, explica que a imortalidade é a outra expressão da ausência; nunca salvação, remédio ou redenção. Cruelmente, mostra que só a mortalidade e as saudades da vida ferida guardam alguma promessa.
A existência pode ser, afinal, a escolha entre dois modos de imortalidade. Ulisses aprende que esta só está verdadeiramente acessível pela recusa da vida imortal. Um cristão acrescentaria: imortalidade não corresponde a eternidade ou a vida eterna.
Não existe imortalidade indolor, plácida e imaculada, embora ela apareça oferecida de tantas formas. Como diria o novo profeta nacional, Jorge Jesus: «Se quiseres ganhar, tens de pagar um preço». Não por acaso, chegado a casa, Ulisses é reconhecido através de uma ferida. Ele, o homem do «muito», cujo «muito» são, sobretudo, as suas contradições. Mas, infelizmente, o mundo de hoje não fará heróis, porque não suporta contradições.
Em Ulisses, como na vida, só o amor que assume a finitude e a limitação é verdadeiro. Não existe amar pelos dois, felizes para sempre, ou amar até ao fim. Se o máximo amor é a máxima liberdade, nenhum amor verdadeiro pode prometer a imortalidade. O amor promete sempre a extinção.
A Odisseia e Ulisses, no entanto, têm um problema. Como assinala o filósofo francês Emmanuel Levinas num texto intitulado «O Vestígio do Outro», a história do rei de Ítaca é o percurso que, por mais aventuras que atravesse, é retorno a si. No regresso de Ulisses, as peripécias pelas quais passa são assimilação e enriquecimento. Daí que a história de Ulisses necessite de uma rutura, de uma saída sem retorno, de um desejo do Outro sem que nada nos falte. A pergunta não é só se, como Ulisses, regressamos a casa porque algo nos falta. A pergunta também é: aceitamos partir sem voltar a quem somos?