Durante décadas bastava olhar para um número: se o termómetro (estávamos longe dos telemóveis) marcava 35ºC, sabíamos que estava muito calor. Mas hoje, independentemente da tecnologia, já não é assim. Dois locais com exatamente a mesma temperatura podem representar riscos completamente diferentes para quem lá vive. E essa diferença pode decidir quem passa muito mal ou até acaba no hospital durante uma vaga de calor.
Um dia com 34ºC pode ser mais perigoso do que outro com 40ºC. E isto não é um paradoxo: depende da humidade, do vento, da radiação solar, da capacidade de o suor evaporar e até do calor que o asfalto e os edifícios libertam muito até depois de o Sol se pôr. O termómetro continua a medir a temperatura do ar, nada mudou nesse aspeto. Mas sabe-se agora que o corpo humano nunca respondeu apenas a esse número dos graus centígrados e que há mais por detrás do “eu não me dou bem com o calor” ou “eu vivo muito melhor com o frio”.
É precisamente esta mudança de perspetiva que está por detrás de um estudo publicado esta semana na revista Nature Climate Change, um dos estudos mais completos alguma vez realizados sobre a forma como o aquecimento global está a alterar o calor que realmente sentimos. Em vez de perguntarem apenas quanto aumentou a temperatura média do planeta, os investigadores decidiram responder a outra questão: como mudou o esforço que o corpo humano tem de fazer para sobreviver à subida do calor?
As respostas foram inquietantes, porque mostram que o planeta não está apenas a aquecer. Está também a aumentar o número de dias em que o organismo entra em stress térmico, uma situação em que perde capacidade para dissipar o calor que absorve e mantém a temperatura interna próxima dos 37ºC. E isso significa que duas previsões meteorológicas aparentemente iguais podem representar riscos completamente diferentes para a saúde.

O trabalho foi desenvolvido por investigadores do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF), que opera o Copernicus Climate Change Service (C3S), e baseia-se num conjunto de dados que até há poucos anos simplesmente não existia. Chama-se ERA5-HEAT e permite reconstruir, praticamente hora a hora, o ambiente térmico sentido pelo corpo humano em qualquer região do planeta desde 1950.
“Com o ERA5-HEAT conseguimos analisar como o stress térmico mudou em todo o mundo ao longo das últimas sete décadas. Ao estudarmos o calor durante o dia e durante a noite e ao cruzarmos esses resultados com dados da população mundial, conseguimos quantificar como evoluiu a exposição das pessoas ao calor perigoso”, explica Rebecca Emerton, cientista do Copernicus e primeira autora do estudo.
Ou seja, andámos anos a medir o aquecimento global quase exclusivamente através da temperatura do ar. E se é verdade que os graus Celsius continuam a ser fundamentais, o organismo humano reage a um conjunto muito mais complexo de fatores: a humidade, o vento, a radiação solar, o calor refletido pelo solo e até a energia acumulada pelos edifícios. E é aqui que entra este novo conceito que começa a aparecer cada vez mais nas previsões meteorológicas: stress térmico.
Medir não em graus Celsius mas pelo indicador biometeorológico
Apesar do nome, este stress não tem qualquer relação com ansiedade ou pressão psicológica, é um fenómeno puramente fisiológico. O corpo produz calor continuamente e precisa de o libertar para manter uma temperatura interna estável. Faz isso através da transpiração, do aumento da circulação sanguínea junto à pele e da troca de calor com o ambiente. Enquanto estes mecanismos conseguem acompanhar o calor exterior, o organismo adapta-se. Quando deixam de o conseguir, a temperatura corporal começa a subir e aumenta o risco de desidratação, exaustão pelo calor e, nos casos mais graves, de golpe de calor.

É por isso que duas cidades com exatamente os mesmos 34ºC podem representar riscos completamente diferentes. Num ambiente seco, com alguma brisa e à sombra, o suor evapora rapidamente e ajuda a arrefecer o corpo. Mas se o ar estiver húmido, praticamente imóvel e rodeado de superfícies que continuam a irradiar calor horas depois do pôr do sol, esse mecanismo perde eficácia. O número no termómetro não mudou, mas o esforço que o organismo faz para sobreviver mudou completamente.
Para medir essa diferença, os investigadores recorreram ao Universal Thermal Climate Index (UTCI), atualmente considerado o indicador biometeorológico mais completo para avaliar a forma como o ambiente afeta o corpo humano. Ao contrário de um termómetro convencional, o UTCI combina cinco variáveis: temperatura do ar, humidade, velocidade do vento, radiação solar e radiação emitida pelas superfícies à nossa volta. E já não vale a pena ver “quantos graus estão?”, mas sim perceber quanto calor está realmente a sentir uma pessoa. Foi quando leram as respostas a essa pergunta que os investigadores perceberam que o assunto era mais preocupante do que parecia.
Um exemplo teórico: imagine os mesmos dias de verão, em que a previsão aponta os tais 34ºC. Mas um é em Évora, com ar seco, alguma brisa e uma descida acentuada da temperatura ao anoitecer e o outro é em Lisboa, depois de vários dias de calor, com humidade elevada, pouco vento e uma noite tropical pela frente. A previsão parece exatamente a mesma, mas em Lisboa o suor evapora mais lentamente, o organismo perde menos calor e chega ao fim do dia mais desgastado. E se durante a madrugada a temperatura continuar acima dos 20ºC, o corpo recupera menos e acumula esse esforço no dia seguinte. Em Évora, apesar de a temperatura poder até ser superior noutras situações, o ar mais seco e um arrefecimento noturno mais rápido ajudam normalmente a dissipar o calor. É precisamente essa diferença — que um simples termómetro não consegue mostrar — que o Universal Thermal Climate Index (UTCI) procura medir.
Noites tropicais cada vez mais frequentes
A primeira conclusão forte do estudo nem sequer aparece nas temperaturas máximas, aparece nas mínimas, durante a noite, que estão cada vez mais altas. E quando os investigadores analisaram sete décadas de dados, perceberam que as noites estão a aquecer mais depressa do que os dias: desde 1950, as temperaturas mínimas aumentaram, em média, 0,32ºC por década, enquanto as máximas subiram cerca de 0,27ºC no mesmo período. A diferença parece pequena, mas não é.
É durante a noite que o organismo consegue recuperar do calor acumulado ao longo do dia. A temperatura corporal desce, o ritmo cardíaco abranda e o sistema cardiovascular deixa de estar sob tanta pressão. Mas quando essa pausa desaparece, o desgaste deixa de terminar ao pôr do sol e prolonga-se pela madrugada. “O calor durante a noite está a tornar-se uma parte cada vez mais importante desta história porque as noites quentes reduzem a oportunidade de o corpo humano recuperar do calor acumulado durante o dia”, explica Rebecca Emerton.

É precisamente por isso que os médicos olham hoje para as noites tropicais de uma forma muito diferente da que olhavam há 20 ou 30 anos. Quando a temperatura mínima não desce abaixo dos 20ºC, as casas deixam de arrefecer, o sono torna-se menos reparador e o organismo continua sob pressão durante horas. Em Portugal isso já faz parte da realidade em muitas regiões. Lisboa, Setúbal, Faro, o vale do Tejo e grande parte do Alentejo registam um número crescente de noites tropicais. Nos episódios mais extremos, a temperatura mantém-se acima dos 25ºC durante toda a madrugada e surgem as noites tórridas. E já houve mesmo noites acima de 30ºC, as equatoriais.O estudo mostra que esta tendência não é um fenómeno isolado: em muitas regiões do planeta registam-se hoje mais duas noites tropicais por década do que nos anos 70. Mais significativo ainda, na Europa os episódios em que dias muito quentes são seguidos por noites igualmente quentes aumentaram 73% desde a década de 1970. E os períodos mais persistentes — aqueles em que o calor se mantém entre 15 a 30 dias consecutivos — são agora 3,4 vezes mais frequentes.
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O calor também deixou de aparecer como um pico isolado, passou a instalar-se e isso faz toda a diferença porque o organismo humano consegue suportar temperaturas muito elevadas durante algum tempo, mas começa a sentir dificuldades quando deixa de ter intervalos para recuperar. E foi isso que os investigadores decidiram medir. Recorrendo ao Universal Thermal Climate Index (UTCI), classificaram cada dia em diferentes níveis de stress térmico, desde condições moderadas até situações consideradas fortes, muito fortes e extremas. Os resultados mostram uma tendência inequívoca: cerca de 70% da população mundial vive em regiões onde ocorrem pelo menos 90 dias por ano classificados como de stress térmico forte. Na década de 1970 essa proporção rondava 55%.
Indicar o stress térmico além dos graus: a ferramenta útil
Ao mesmo tempo, cerca de mil milhões de pessoas enfrentam atualmente pelo menos um dia por ano de stress térmico extremo, níveis em que o organismo pode perder rapidamente a capacidade de regular a própria temperatura. E quando compararam a década de 1970 com o período entre 2015 e 2024, verificaram que, em partes da Europa, do Norte de África, da Península Arábica e do sul da Ásia, o stress térmico aumentou até 4ºC ou 5ºC. Não significa que a temperatura do ar tenha aumentado cinco graus. A combinação entre calor, humidade, vento e radiação tornou o ambiente muito mais exigente para o organismo humano. É essa combinação que dificulta a evaporação do suor, reduz a capacidade natural de arrefecimento e aumenta o risco de doenças relacionadas com o calor. E os autores acreditam que estes resultados poderão até estar subestimados.
O ERA5-HEAT trabalha à escala global e não consegue representar totalmente fenómenos muito locais, como as ilhas de calor urbanas, onde o betão, o asfalto e os edifícios acumulam energia durante o dia e a libertam lentamente durante a noite. Nessas zonas, o calor sentido pode ser ainda superior ao estimado pelo modelo. E, nesse caso, o estudo deixa de ser apenas uma investigação sobre alterações climáticas e passa a ser uma nova forma de olhar para o risco.

Há uma ideia que atravessa todo este estudo e que, provavelmente, vai obrigar a mudar a forma como olhamos para uma previsão do tempo. “Os resultados demonstram a importância de utilizar indicadores de stress térmico em conjunto com a temperatura do ar para compreender melhor a forma como as alterações climáticas estão a afetar a saúde e o bem-estar das pessoas”, afirma Claudia Di Napoli, cientista do Copernicus e coautora do estudo.
Os investigadores defendem que a pergunta sobre quantos graus vão estar no fim de semana continua a ser importante, mas já não é suficiente. E a mudança já começou, porque cada vez mais serviços meteorológicos recorrem a índices biometeorológicos para complementar a previsão tradicional. A temperatura máxima continua a ser divulgada, mas deixa de ser o único indicador de risco. Porque duas previsões com exatamente os mesmos graus centígrados podem representar impactos completamente diferentes. E é isso que mede o Universal Thermal Climate Index (UTCI), utilizado neste estudo. Em vez de perguntar apenas quantos graus marca o termómetro, tenta responder a uma questão muito mais útil para quem vive o calor: quanto esforço terá o corpo de fazer para manter a temperatura normal?
Nos últimos anos, Portugal tem assistido ao aumento da frequência das ondas de calor e ao tal crescimento do número de noites tropicais. O corpo nunca arrefece e o ritmo cardíaco mantém-se mais elevado, a desidratação prolonga-se e aumenta a probabilidade de agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias. É por isso que as autoridades de saúde insistem tanto na hidratação, na ventilação das habitações e na proteção das pessoas mais vulneráveis durante as vagas de calor. Nas cidades há ainda mais riscos: o betão, o asfalto e os edifícios funcionam como enormes reservatórios de energia que absorvem calor durante todo o dia e libertam-no lentamente durante a noite, criando as chamadas ilhas de calor urbanas. Em poucas centenas de metros podem existir diferenças de vários graus entre uma rua sem árvores e um parque urbano.
https://observador.pt/programas/quente-e-frio/fugimos-a-onda-de-calor-de-espanha-mas-temos-stress-termico/
Os próprios autores admitem que o estudo poderá até subestimar o problema porque o conjunto de dados ERA5-HEAT permite uma análise global sem precedentes, mas não consegue reproduzir totalmente fenómenos muito locais, como essas ilhas de calor ou pequenas diferenças entre bairros de uma mesma cidade. Na prática, isso significa que, em muitos ambientes urbanos, o stress térmico real poderá ser ainda superior ao estimado.
A Organização Meteorológica Mundial (WMO) tem vindo a defender que os sistemas de alerta evoluam precisamente nesse sentido: menos centrados apenas na temperatura do ar e mais focados no impacto que o calor terá nas pessoas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) lembra que o calor extremo é hoje uma das ameaças climáticas mais mortais e que sistemas de aviso precoce adaptados ao risco humano podem salvar milhares de vidas. No fundo, é isso que este estudo diz: as alterações climáticas não estão apenas a fazer subir o mercúrio dos termómetros, estão a mudar a forma como o corpo humano vive o calor.