A primeira edição do Festival Alquimia invade as salas do Coliseu do Porto Ageas e arredores esta sexta e sábado, dias 17 e 18 de julho. E, ao contrário do habitual nos festivais de verão, tem como protagonista a população sénior da cidade. Com uma programação diversificada e que interceta vários âmbitos da cultura e das artes, é o mais recente projeto do serviço educativo da sala de espectáculos, destinado a combater a solidão de uma faixa etária muitas vezes esquecida e cujos interesses não são contemplados pela oferta cultural disponível.
O trabalho de meses culmina agora em performances onde a memória e vitalidade coexistem sob a forma de criações coletivas e a idade não é um obstáculo, mas antes encarada com otimismo. “Muitos [participantes do Alquimia] dizem que ganharam uma razão para sair de casa”, admite Miguel Guedes, presidente do Coliseu, ao Observador.

Convidado pelo antigo autarca do Porto, Rui Moreira, Miguel Guedes assumiu o comando da instituição que celebra 85 anos a 19 de dezembro. Desde então, e já com Pedro Duarte à frente da Câmara Municipal, o advogado e vocalista da banda Blind Zero foi reconduzido no cargo, pelo qual mereceu muitos elogios da classe política e dos agentes mediáticos.
No primeiro mandato, concretizou um conjunto de intervenções estruturais no edifício e “absolutamente decisivas para revogar o fantasma que sempre pairou sobre o Coliseu”, isto é, a necessidade de recorrer a empresas privadas ou de fazer uma concessão para financiar obras indispensáveis ao conforto e acessibilidade do espaço.
“Houve muito pouco tempo para fazer muita coisa”, recorda Miguel Guedes em entrevista ao Observador. O telhado, que o atual presidente descreveu como “uma patologia indescritivelmente assustadora”, estava revestido de amianto e foi totalmente substituído. Juntam-se a essa obra o tratamento do teto, a renovação das casas de banho, a instalação de um sistema de ar condicionado e de elevadores em todo o edifício, e ainda a criação de um museu na torre da infraestrutura, procedimentos em curso ou que estão previstos para os próximos meses — ao abrigo dos fundos europeus do Portugal 2030.
“Estamos a falar de um edifício de 1941, que em 85 anos nunca teve uma obra de intervenção de fundo e que apresenta dificuldades e idiossincrasias próprias do momento histórico em que foi construído”, enfatizou Miguel Guedes.
https://observador.pt/especiais/miguel-guedes-a-ideia-e-nao-estarmos-num-circulo-a-volta-do-porto-mas-sermos-nacionais/
Mas a renovação de um dos espaços culturais mais relevantes do país está longe de ser o único legado do atual presidente. Criado em 2023, quando Miguel já ocupava o cargo, o serviço educativo do Coliseu inaugurou uma nova era de intervenção social e trabalho cultural junto da população do Porto. “O serviço educativo [é uma] peça fundamental da identidade do Coliseu, [que] além de casa de espetáculos” tem “o golpe de asa, a centelha e a obrigação de devolver à comunidade, trabalhando com ela muito daquilo que nos trouxe e possibilitou ao longo de 85 anos”, reconhece Miguel, enfatizando a “educação verdadeiramente inclusiva, democrática e diversa” que o espaço que preside proporciona.
Com uma atividade distribuída em várias frentes, incidente sobre a população em idade escolar — do jardim de infância ao ensino superior —, e inspirada na partilha intergeracional, o serviço apresenta agora os resultados de uma iniciativa exclusivamente destinada ao universo sénior. O projeto Alquimia começou em outubro de 2025 e colhe agora os frutos de vários meses de trabalho artístico com foco nas pessoas de terceira idade que residem ou usufruem do centro histórico do Porto.

A memória de um jardim
O número de idosos beneficiários da iniciativa totalmente gratuita — e que tem como únicos critérios de seleção ter idade superior a 65 anos e frequentar a cidade — já ultrapassou os 360, sendo que cerca de 280 devem integrar as performances e atividades do festival que começa esta sexta-feira. “Esta faixa etária tem uma assiduidade um bocadinho irregular”, reconhece a diretora do serviço educativo, Filipa Godinho. “À medida que algumas pessoas iam saindo por motivos de doença ou questões familiares, fomos deixando entrar outros participantes.”
Os alunos foram agrupados em turmas — 12 ao todo — a partir dos seus interesses, sem qualquer avaliação prévia de competências. “Temos pessoas doutoradas ou pós-doutoradas, mas também temos pessoas com a quarta classe”, observou Filipa. “Há desde arquitetos e médicos reformados até aos que trabalharam na construção civil […], e muitos professores. Temos uma representação de quase todas as profissões e classes sociais que frequentam a cidade.”
A orientação das atividades semanais ficou ao cargo de seis mentores, cada um dos quais responsável por duas turmas, que, sem grandes linhas orientadoras e com liberdade quase total, co-criaram diferentes atividades. Teatro, música, dança, poesia, pintura ou filosofia — e ainda um coro comunitário com entrada livre para todas as faixas etárias — são apenas uma fração das formas artísticas escolhidas para tratar um tema unificador e estimado por todos os participantes.
“Muita gente desconhece que, antes de existir este edifício, havia aqui um quarteirão quase inteiramente cultural e dedicado às artes a céu aberto”, explica Filipa. “O Jardim Passos Manoel [que dá nome à rua onde hoje reside o Coliseu] era um jardim cultural e quando eles souberam dessa história, quiseram invocar as memórias de outro tempo. […] Deram a ideia de trazer de volta o jardim [já extinto], mas desta vez para dentro do Coliseu, onde teve um novo florescimento. Essa “árvore” acaba por ser uma metáfora muito representativa do que está a acontecer, da ramificação de projectos, de ideias, de pessoas que se unem num tronco comum.”

A memória do jardim desativado em 1938 para dar início à construção do Coliseu é evidente, desde logo, na programação do Festival Alquimia — o desfecho de uma temporada em que a população sénior se sentou no lugar do criador. Numa leitura mais ampla, “jardim” é um espaço onde a natureza e civilização convergem, um espaço de encontro e de “alquimia”, enquanto mistura de substâncias e sensações, e que, neste caso, se insere no património da cidade e na memória de um povo. “Há pessoas [no projeto] que têm a mesma idade que o Coliseu”, recorda Filipa.
Mas a idade não deve ser entendida como um obstáculo, e esse é o principal propósito de uma inciativa que, a curto prazo e de acordo com quem acompanhou processo, já mudou as vidas de muitos idosos. “Queríamos arriscar e tentar desconstruir o preconceito e o estereótipo do que significa ser idoso hoje”, refere Filipa. “O desafio que foi lançado à equipa logo na primeira formação, foi que tratassem os alunos como se tivessem todos 25 anos. Também nos tratamos todos por ‘tu’, toda a gente, porque queremos essa intimidade e queremos desconstruir que a idade seja um fator [de exclusão].”
“Aqui a idade é determinante para entrar, mas depois queremos esquecê-la”, continuou a diretora do serviço educativo. “Se olharmos aos comportamentos, às conversas, aos temas, àquilo que foi feito, não dá para adivinhar que estas pessoas têm a idade que tem. Muitas das propostas seriam creditadas a alguém com 30 anos ou 35, algumas até com 15, porque temos aqui uma genialidade latente enorme.”

Combate à solidão e capacitação dos idosos
Os resultados são evidentes, e Filipa admite que, se não 100, 99,5 por cento dos participantes apresentam um aumento de bem-estar visível e significativo. “Posso dizer que são vários os alunos que foram encaminhados para nós pelos seus psicólogos e psiquiatras, e que, desses, há vários que já não estão a fazer medicação e até tiveram alta ao fim de muitos meses.”
Os efeitos terapêuticos não se esgotam aí, já que Filipa notou um aumento de autoestima generalizado, que se refletiu numa maior atenção dos participantes à respetiva aparência e autocuidado. “Temos uma senhora que durante os últimos dois anos praticamente não tirava o pijama porque estava sempre em casa, de manhã à noite. Neste momento ela é a mais arranjada. Maquilhagem, cabelo pintado, boina, brincos, acessórios — ficou muito vaidosa e isto revela uma oportunidade fantástica. ‘De repente, vou cuidar de mim. Vou passar a existir, não só para o mundo, mas para mim própria.’”
A solidão entre os mais velhos é um problema crescente num país onde “um quarto da população é sénior”. “Estar só é uma opção, mas estar sozinho é muitas vezes inevitável e afunda as pessoas em problemas graves, até do ponto de vista de saúde mental”, reflete Miguel Guedes. De acordo com Filipa Godinho, pessoas que não se sentiam integradas na sociedade e ingressaram no Alquimia, demonstram ser mais capazes e “já fazem ioga e pilates, vão ao cinema, até escrevem piadas”. “Temos aqui vários alunos que recentemente até fizeram viagens sozinhos, como nunca tinham feito antes.”

“Na infância acontece muito isto: temos um conjunto de crianças que não se conhecem e têm vergonha de falar umas com as outras, não interagem a menos que haja um jogo de criação, uma brincadeira — que oferece um propósito e um conjunto de regras a seguir”, reflete Filipa. “Como resultado, elas ficam amigas e acho que é isso que acontece aqui. A criação artística serve de mote para o encontro mas, a partir daí, opera-se uma transformação social na vida das pessoas.”
Sendo a memória um conceito importante para a fruição artística dos envolvidos, perde proeminência enquanto linha orientadora das suas vidas. “Quando se está em sofrimento, só se tem o passado nas mãos, [estas pessoas] carregavam o passado ao colo”, refere Filipa. Agora, “há gente que admite sentir-se muito melhor na sua relação com o luto, com a perda do marido há um ano ou há 20, [por exemplo]. De repente as conversas já não são o cancro que tive ou as pessoas que perdi, mas onde é que eu quero ir para o ano? E como é que vou fazer isso? Com quem vou?”
A atenção dos mentores aos respetivos alunos é um fator determinante, uma vez que a escuta se afirma como palavra de ordem do trabalho coletivo que o projeto Alquimia propõe. “Há participantes que reportam que [antes] nunca tinham planos, que ninguém lhes ligava, não recebiam telefonemas. E nós ligamos quando a pessoa não vem. Tentamos perceber o que é que se passa e o mentor responsável fica quase um amigo de referência dentro do projeto, que acompanha sempre”, avança Filipa.
Aos seis “alfaiates” do projeto, que não têm qualquer formação em geriatria ou cuidados continuados, juntam-se os dinamizadores das oficinas, cada um especialista na área que está a lecionar, e ainda associações parceiras que trabalham com idosos. O Coliseu também conta com o apoio do BPI, das Fundações La Caixa e António Oliveira e da Junta da União de Freguesias do Centro Histórico do Porto.

Estudo de impacto
O impacto deste projeto pioneiro no Coliseu, e que deve regressar para uma segunda edição já no próximo ano letivo, estará sujeito a uma análise mais escrupulosa do que a leitura subjetiva dos educadores e artistas envolvidos. Projetos de inovação social desta natureza pretendem gerar conhecimento que pode inspirar políticas públicas mais abrangentes e reproduzíveis noutros contextos.
O Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto reivindicou este processo complexo e extensivo, que recolhe dados em formulários preenchidos pelos participantes e nos “diários de bordo”, onde os mentores registam a experiência de cada aluno. Para já, Miguel Guedes admite que, sem resultados autenticados por académicos, é prematuro assegurar a continuidade do projeto — que para já só prevê duas edições.

Até lá, os curiosos podem testemunhar o rejuvenescimento de uma população que já não se esconde no interior das casas da zona ribeirinha e reivindica o seu lugar no espaço público e meio artístico. Miguel Guedes promete um esforço de promoção da inclusividade na instituição que preside, onde os espectáculos com audiodescrição e interpretação em língua gestual portuguesa também garantem a participação de pessoas invisuais e com deficiência auditiva, respetivamente, na cultura da cidade.
Um local que usufrui de financiamento público e privado — e que, segundo o presidente, mantém uma relação muito saudável com a autarquia e Ministério da Cultura —, reúne as condições necessárias para planear um futuro onde o acesso democrático às artes favorece os interesses do país e a literacia dos portugueses.
“O foco central do projeto [Alquimia] não é beneficiar o Coliseu, mas convidar as pessoas para momentos de fruição comunitária, partilha comunitária e absorção do conhecimento de todos estes idosos que, muitas vezes, não tiveram acesso a uma única atividade artística ao longo da vida”, concluiu Miguel Guedes.
Todos os eventos do Festival Alquimia têm entrada livre. Em outubro, começa o segundo lote de atividades dirigidas à terceira idade.