Foi em 1969 que o Museu Calouste Gulbenkian abriu pela primeira vez as suas portas. Cinquenta e sete anos depois, volta a receber visitantes após um ano e três meses encerrado para obras. A renovação, apresentada como um regresso ao projeto original, quer preservar o legado e a visão do seu fundador enquanto “homem curioso por diferentes culturas”, bem espelhada naquela que se cimentou como uma das mais importantes coleções de arte do mundo. Ao cruzarmos novamente a entrada do museu, é essa também a leitura do novo diretor, Xavier F. Salomon, que assumiu funções em janeiro de 2026, sucedendo a António Filipe Pimentel. A reabertura acontece este sábado, 18 de julho, marcando o início de uma semana de entrada gratuita e de várias atividades integradas nas comemorações dos 70 anos da Fundação Calouste Gulbenkian, criada em 1956.
Aos poucos, o silêncio das salas vai sendo interrompido pelos últimos acertos meticulosos das equipas de conservação e restauro. À primeira vista, o espaço parece semelhante ao que o público recorda. Mas há mudanças por toda a parte. Desde logo, como explica Xavier F. Salomon, a principal mudança que se vislumbra começa na forma como a luz natural atravessa as amplas vidraças e estabelece um novo diálogo entre as obras e o jardim. “O balanço mais importante é manter os visitantes a pensar que está tudo igual, mas acima de tudo melhor”, sustenta em visita para a imprensa. “São sobretudo melhorias práticas que respeitam o espírito do edifício e as regras da sua arquitetura”.
Entre as principais intervenções destaca-se o regresso de elementos originais, como as paredes revestidas a seda, as alcatifas concebidas para o museu em 1969 e a recuperação da entrada de luz natural, agora plenamente integrada no percurso expositivo. A reorganização das salas procura também reforçar a relação entre as obras e o jardim, um dos princípios centrais do projeto arquitetónico original, assinado pelos arquitetos Alberto Pessoa, Pedro Cid e Ruy Jervis d’Athouguia. O resultado é um espaço que preserva a identidade do edifício, ao mesmo tempo que melhora a leitura das coleções e a circulação entre as salas.




Teresa Nunes da Ponte, arquiteta responsável pela intervenção, explica que o objetivo nunca foi transformar o museu, mas recuperar a sua linguagem original. Daí a decisão de manter as paredes sem pintura, revestidas apenas pelos materiais originais — granito e betão —, recuperar as vitrinas e reforçar a transparência entre o interior e o jardim. É a preservação daquilo que considera ser “um exemplo muito feliz de fusão entre arquitetura e museografia”. No meio disso, há espaço ainda para uma nova Sala de Numismática, criada a partir de um antigo gabinete de trabalho que estava oculto, e uma intervenção mais contemporânea da famosa Sala Lalique, que alberga uma das mais significativas coleções de joias e vidros do artista francês.
Uma viagem pelas galerias renovadas
Tal como no seu passado, o museu mantém a sua divisão entre três grandes secções: Antiguidade, Ásia e Europa. O percurso inicia-se assim, sem luz natural, como se “entrássemos numa tumba”, realça o seu diretor, para as duas primeiras salas onde se expõem objetos do Antigo Egito e Mesopotâmia. Nesta primeira paragem histórica, onde se reúnem objetos também da Grécia Antiga e do Império Romano, evidencia-se um Baixo-Relevo Assírio, que ganhou uma nova centralidade na sala. O restauro minucioso a que foi sujeito removeu as velhas camadas de cera acumuladas, devolvendo ao alabastro a sua textura e luminosidade originais. É também aqui que se visita a nova Sala de Numismática, espelhando o interesse de Calouste Gulbenkian pela coleção de moedas, com destaque para a moeda grega com a figura da quadriga, que inspirou o logótipo da Fundação.
Saindo da penumbra da Antiguidade clássica, a luz começa a desenhar o caminho à medida que avançamos para a Galeria da Arménia e do Mundo Islâmico. Para Xavier F. Salomon, que começou a acompanhar o processo de renovação sensivelmente a meio, esta “é uma das mais conseguidas e extraordinárias salas do museu” pela forma como o exterior e o interior dialogam. Nesse jogo visual com a vegetação do jardim, fundem-se agora os motivos florais de grandes tapetes expostos em estrados, os azulejos e as peças em cerâmica. Noutro canto, peças de vidro do período mameluco e vários objetos que que contam essa história, cruzam-se com a própria biografia de Calouste, nascido em 1869 em Üsküdar, na Turquia, em pleno Império Otomano, embora — como é sabido — fosse de origem arménia.
Os elementos naturais fazem também parte da transição para as salas dedicadas ao continente asiático. É aqui que a porcelana chinesa e a arte japonesa nos transportam para o Extremo Oriente. Entre estampas japonesas, objetos decorativos, peças de mobiliário e um biombo de Coromandel composto por 12 painéis (recentemente restaurado), a grande novidade surge na forma renovada como se passa desta secção para as salas dedicadas à arte europeia.

A remoção de uma antiga parede opaca deu lugar a um elegante biombo de madeira ripada e metal, recuperando a transparência e a leveza que os arquitetos originais idealizaram nos anos 60. Esta abertura estratégica, realçada pela arquiteta responsável, permite ao visitante, ainda rodeado pelas peças asiáticas, antever à distância as salas da Arte Europeia e vislumbrar de imediato as obras-primas de Rembrandt e Rubens. É ali que se dá o mote para outra importante mudança, explica Xavier F. Salomon. A partir desse ponto, o chão volta a ser alcatifado, tal como acontecera originalmente. “O tom bege-esverdeado (um pouco mais claro do que o original) restabelece a continuidade visual entre os espaços interiores e o jardim envolvente. Esta reintrodução contribui para reforçar a unidade espacial do Museu, tornando os espaços mais harmoniosos e acolhedores. Nesta secção, a seda voltou a revestir as paredes, recuperando a elegância e o espírito original das salas”, explica a Gulbenkian em comunicado.
Nas salas europeias, mantêm-se a organização cronológica que vai desde os objetos de marfim e manuscritos medievais até às pinturas de Carpaccio, Bugiardini, Rembrandt e Rubens. A coleção de mobiliário e a sala das pratas (provenientes sobretudo da Rússia, mas também de Portugal) traçam o percurso onde não faltam trabalhos de escultura. Entre estes, destaca-se o original em mármore da célebre Diana, de Houdon, que pertenceu a Catarina da Rússia e que Gulbenkian adquiriu ao Museu Hermitage em 1930. Nomes como Turner, Degas, Monet, Renoir, Manet e Sargent, entre muitos outros, continuam a evidenciar o legado e importância da pintura na coleção de Calouste Gulbenkian — alguns dos quais pintados já durante o seu período de vida —, sem grandes alterações de disposição face ao que existia anteriormente.
Por fim, como cartão de visita incontornável do museu, a Sala Lalique foi objeto de uma leitura contemporânea. Esta é a quinta vez que o espaço é transformado desde a abertura do museu, segundo o diretor. Desta feita, a sala integra pinturas de Edward Burne-Jones e John Singer Sargent, estabelecendo um diálogo direto entre as jóias e os vidros de René Lalique e o contexto artístico mais amplo da Belle Époque. “Foi alguém que, de resto, foi próximo de Calouste e um artista que este apoiou ao longo de décadas”, sintetiza Xavier F. Salomon.
“Queremos focar-nos na coleção e em exposições que partam dos grandes trabalhos que a compõem”
Chegados ao fim deste percurso, o novo diretor Xavier F. Salomon destaca que o Museu Calouste Gulbenkian alberga uma coleção extensa e heterogénea que dificilmente pode ser apreciada apenas com uma passagem pelo museu. “Merece ser visto em diversos momentos, sendo por isso um museu a que devemos regressar”. O trabalho realizado por equipas portuguesas, mas também internacionais, comportou o grande desafio deste período de renovação, sobretudo em termos logísticos, acrescenta ainda.
A realidade das grandes obras não é, de resto, alheia ao historiador de arte. Antes de assumir estas funções, Salomon foi diretor-adjunto e curador-chefe da The Frick Collection, em Nova Iorque, onde dirigiu a renovação das galerias — um processo que implicou a mudança provisória da coleção, em 2021, para a Frick Madison, e o posterior retorno ao edifício histórico do museu, que reabriu em abril deste ano. “Pegando nesse exemplo, mudámos o museu para um edifício de características brutalistas por um período de tempo e uma das grandes inspirações para esse projeto foi, justamente, o Museu Calouste Gulbenkian. Por isso, posso admitir que fui antes bastante inspirado pela história deste edifício que agora reabre as suas portas também tendo sido objeto de intervenção”, explicou ao Observador.




Concluída a renovação arquitetónica, o diretor considera que o próximo desafio passa por recentrar a atenção na coleção e reforçar a forma como o museu comunica com os seus públicos. “Olhando para o futuro próximo, queremos focar-nos na coleção e em exposições que partam dos grandes trabalhos que a compõem e teremos novidades já em 2027. Será uma combinação de exposições, publicações, conferências, explorar diferentes áreas da coleção e partilhar essa pesquisa com o público de forma a reunir novos conhecimentos”, sustenta.
É nessa linha que se destaca igualmente a publicação de A Criação do Museu Gulbenkian, da autoria de Vera Mariz, conservadora do museu e especialista em colecionismo e mercados de arte, onde se detalha a história desta coleção reunida ao longo de mais de 60 anos. De acordo com a Gulbenkian, trata-se da primeira publicação de uma série de quatro que tem como objetivo dar a conhecer a figura de Calouste Gulbenkian e a forma como reuniu a sua Coleção, demonstrando como foi possível sediar a Fundação em Lisboa, cidade onde viveu os seus últimos anos.
Entre a reabertura do museu e a publicação deste livro, detalha-se assim a história desta coleção que esteve dividida entre diversos espaços, tendo sido transportada de forma completa para Portugal em 1960 e exposta no Palácio dos Marqueses de Pombal (em Oeiras) entre 1965 e 1969. O projeto do museu, não testemunhado por Calouste, que morreu em 1955, ganhou forma por disposição testamentária e assim abriu portas, tendo no seu átrio uma declaração sua, de 1952, sobre as obras que ali se veriam anos mais tarde: “Tenho plena consciência de que é tempo de tomar uma decisão sobre o futuro das minhas obras de arte. Posso dizer sem receio de exagero que as considero como ‘filhas’ e que o seu bem-estar é uma das preocupações que me dominam. Representam cinquenta ou sessenta anos da minha vida, ao longo dos quais as reuni, por vezes com inúmeras dificuldades, mas sempre e exclusivamente guiado pelo meu gosto pessoal. É certo que, como todos os colecionadores, procurei aconselhar-me, mas sinto que elas são minhas de alma e coração.”