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Miami Vice, heróis da I Guerra, e peças de museu: por dentro do guarda-roupa de Andy Burnham

O novo primeiro-ministro, que trocou os fatos Armani pelas t'shirts e blusões, faz do guarda-roupa um elemento de proximidade com o povo. Mas neste registo casual smart nada é deixado ao acaso.

Maria Ramos Silva
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A evocação dos caídos recomendava a sobriedade do vestuário, mas em 1981 foi Michael Foot quem não sobreviveu ao escrutínio dos jornais alinhados mais à direita. No Cenotáfio, ao lado de Margaret Thatcher, apresentava-na na qualidade de líder da oposição e surgia com um casaco de lã verde escuro que mereceu até o elogio da rainha mãe. De pouco importou ao The Sun que a mulher o tivesse comprado no Harrods por boa maquia: no dia a seguir o tabloide arrasou a “jaqueta de burro” do trabalhista, considerando que não estaria à altura do momento solene. A peça em tweed é hoje objeto de museu, o mesmo museu que acolhe outros sucessos e fracassos no guarda-roupa da elite de Westminster.

Com a segunda grande vaga de Covid pela frente, aquele discurso ao ar livre de Andy Burhnam viralizou, ao ponto de a revista Vogue o considerar inesperadamente sexy, de ter cimentado o epítome de Rei do Norte, e de ganhar terreno como futuro líder do Labour. Mais história faria o casaco que usou nessa jornada em outubro de 2020, quando deixou o recado ao então primeiro-ministro Boris Johnson de que a Grande Manchester não iria aceitar mais restrições impostas pela pandemia. A peça seria exposta ao público em julho de 2022, no People’s History Museum, que requisitou este “símbolo das credenciais da classe trabalhadora”. Andy doou o casaco azul escuro à instituição. No bolso, deixou uma cópia amarfanhada da sua intervenção junto a Bridgewater Hall, no centro de Manchester, a um passo do massacre de Peterloo.

O The Guardian dava conta do dia em que Burnham se encontrou com os conservadores daquela instituição, que estiveram a preparar a peça da marca Howick – preferiam não lavá-la, conservando a sua “evidente sujidade”, qual comprovativo de autenticidade. Desde logo, congratulava-se pelo facto de a doação não ter consistido num corta vento da North Face, que se iria degradar muito mais facilmente que o algodão. Andy admitiu que esta esteve para a ser a primeira escolha mas a sua mulher, Marie-France, recomendou-lhe que elegesse outro look, caso contrário o público ainda pensaria que era patrocinado por aquela marca. Acabou por convocar o seu casaco da segunda liga, que costuma vestir aos fins de semana, para ver os jogos do Everton.

Como isto anda tudo ligado, o casaco de Andy fora comprado no Boxing Day de 2012, no Kendals, a versão de Manchester dos londrinos armazéns Harrod’s. Burnham explicava ainda que o seu estilo evoluíra para um registo mais casual depois de abandonar Westminster, em 2017, onde era forçado a usar fato e gravata.

 – “Não vou voltar”.

 – Não vai voltar a Westminster?, pergunta-lhe o jornalista.

 – “Não vou voltar aos fatos”, clarificou.

Onde anos depois, sai Keir Starmer, com o look metódico do colarinho e gravata, e entra o homem que fez dos acessórios desportivos uma descontraída imagem de marca. Ou, nas palavras cáusticas da líder dos conservadores, Kemi Badenoch, “Um par de pestanas e uma t’shirt preta” (chegaram a correr rumores de que usaria até máscara de pestanas e que pintaria o cabelo, apenas dois mitos que perduram no folclore urbano).

Mas na primeira intervenção pública como Primeiro-Ministro, talvez sem grandes surpresas, o cânone prevaleceu sobre a ousadia — mais que não fosse porque a agenda implica encontro com o Rei Carlos III. Lá estava o fato, a gravata (azul) e os mínimos olímpicos da formalidade, o que leva a crer que o seu estilo pessoal terá alguma dificuldade em sobreviver à realidade de Westminster. “Embarcou no comboio em Manchester Piccadilly com sua marca registada, T-shirt escura, calças e ténis Adidas, apenas para emergir, mais de duas horas depois, em Londres Euston de fato vestido. Vinte minutos depois, ele apareceu no Parlamento, tendo adicionado uma gravata ao seu conjunto.”, notava a BBC em vésperas da sua tomada de posse. Ao seu lado, Marie-France van Heel levou um vestido de mil euros da marca de Victoria Beckham.

A t’shirt que Burnham usa regularmente sob um blazer, reabilita um look popularizado nos anos 80 pela série Miami Vice, que abençoou a dessacralização dos códigos masculinos – outros chamar-lhe-ão simplesmente pecado. O mundo continua a dividir-se em matéria de gosto (ou falta dele) e, não, antes que nos atirem pedras não tencionamos compará-lo a Don Johnson. A série foi transmitida ao longo cinco temporadas na NBC de 16 de setembro de 1984 a 28 de junho de 1989, criada por Anthony Yerkovich e produzida por Michael Mann para a NBC. Nos papéis principais, a dupla Johnson como James “Sonny” Crockett e Philip Michael Thomas como Ricardo “Rico” Tubbs, dois detetives do Departamento de Polícia Metro-Dade trabalhando sob disfarce em Miami, Flórida. O formato norte-americano distanciava-se dos procedimentos policiais tradicionais e da iconografia mais soturna.

A cultura dos 80’s, como o rock contemporâneo e a música pop, cruzava-se com os carros desportivos, do Testarossa ao Lamborghini Countach, e a moda via ser escrita uma inesperada e recheada página ao nível das influências. Desde logo, pela popularização, se não mesmo lançamento, do binómio “t’shirt e fato Armani”, mas não só. Também os mocassins slip on sem meias entravam em cena, as principais marcas de relojoaria disputavam um lugar no pulso das estrelas — primeiro a Rolex, depois a Ebel levou a melhor para as temporadas seguintes — as barbas fartas ficavam em modo pausa, os Ray-Ban tornaram-se imagem padrão da década, e a alta rotatividade de looks expandia as opções no guarda-roupa de qualquer cavalheiro. Surpreendentes tons pastel como o rosa, azul, verde, pêssego, ou fúcsia, recebiam selo de aprovação e bebiam das linhas Art-deco de Miami, servidos por designers como Vittorio Ricci, Gianni Versace e Hugo Boss, que foram consultados para compor estes renovados códigos no masculino. Por sua vez, stylists e figurinistas dos programa, como Bambi Breakstone e Jodi Tillen voavam para Milão, Paris e Londres em busca de roupa e acessórios. O impacto foi tal na cultura popular que foram criadas linhas de blazers Miami Vice, sapatos com o nome Crockett and Tubs, e os famosos armazéns Macy’s abriram uma secção dedicada ao estilo do programa no seu departamento de homens. O nível de cooleness e desejo do consumidor chegou ao ponto de ser lançada em 1986, pela Wahl, uma máquina de barbear que prometia o look “barba de três dias” de Don Johnson graças ao uso do “Stubble Device”.

O ex mayor da Grande Manchester pode replicar a ausência de colarinho mas a paleta cromática (e a mensagem transmitida por cada tom) é bastante distinta. Burnham passou os últimos anos a reunir e consolidar aquele a que podemos chamar o seu armário cápsula, e nele destaca-se outra marca, como o blusão modelo Harrington de 700 libras, ou cerca de 820 euros, espelho da manufatura e legado oriundos de Manchester. Terá ficado impressionado com a visita à fábrica construída em 1853 de onde saem estas peças, um dos últimos sobreviventes da outrora vigorosa indústria de roupas na Grã-Bretanha, a partir de onde opera a marca Private White VC. De acordo com o Telegraph, mais de 90% de seus materiais são produzidos a menos de 32 quilómetros da fábrica, com roupas cortadas, costuradas e acabadas usando técnicas que desapareceram em grande parte.

A unidade deve o seu nome a um herói da I Guerra, o soldado Jack White (ou private White), que em 1917 foi condecorado com a Cruz Vitória depois de mergulhar num rio gelado sob fogo inimigo na Mesopotâmia para salvar os seus companheiros e mantimentos. No regresso a solo britânico, e a outra missão, foi aprendiz numa fábrica de Manchester, e foi o seu bisneto Eden que quase um século depois, em 2012, relançou o negócio de família, nas margens do rio Irwell.

O espírito destemido do soldado ressalta em cada rebite e outros detalhes que apontam para o fio de cobre que terá usado para se prender a um barco e puxá-lo para a costa, reforçando ainda mais a dimensão heritage e o conceito de manufatura. Os casacos orgulhosamente britânicos correm mundo mas além de Andy conquistam outros nomes de peso, como Tom Hardy, Daniel Craig, Pierce Brosnan, Jamie Oliver, David Beckham, ou Brian May, garante o jornal. Através do segmento Copper Club, ou bespoke, para uma discreta produção sob medida, o negócio já terá chegado ao clã real, incluindo o rei Carlos III, a princesa Ana, ou os príncipes William e Harry.

“Eu sabia que postar sobre Andy Burnham iria dividir a cidade, o país”, admitiu o chefe executivo no rescaldo da publicação nas redes onde surge a imagem do novo primeiro-ministro, incendiando as diferentes barricadas. A verdade é que se o Rei do Norte tenciona estreitar os laços com o povo através do seu guarda-roupa, não é certo que não tenha contribuído também para reforçar os níveis de tribalismo e belingerância. A discussão estende-se até ao tamanho dos calções que usa para fazer jogging.

Pegar o n.10 pelos colarinhos com uma T’shirt preta? Perdão, azul escura?

Em 29 de junho de 2026, em passo apressado para a sua conversão no sétimo primeiro-ministro britânico em dez anos, Andy Burnham voltaria ao simbólico Museu de História do Povo  — o museu nacional de democracia do Reino Unido, em Manchester — , para expor a sua visão, sentenciando que “Westminster está acabada” e anunciando planos para desviar o poder de Whitehall, propondo estabelecer uma operação “No. 10 Norte” em Manchester para governar mais colaborativamente e garantir “bom crescimento em cada código postal”. Outfit? Dentro do manchesterismo esperado.

“Tive que obter permissão especial para usar aquilo a que as pessoas em Westminster chamam de roupas de Manchester”, ironizou. Burham aproveitou ainda para lançar umas farpas a Badenoch, esclarecendo que a sua t’´shirt é azul escura e não preta, num momento que entretanto viralizaria nas redes. O tom, muitas vez usado em look integral, descende de um sentido de rebelião associada a subculturas, dos beatniks e folk-rockers dos anos 50 e 60 (como o Homem de Negro Johnny Cash), ao emo, punk ou metal, quase sempre contra o status quo, e assumindo quase sempre um lugar confortável na gaveta da ala esquerda. O resto do guião atual fica completo com polos da Uniqlo e sapatos Wallabees da Clark’s.

Andy não inventou nada, ou pelo menos não inventou tudo. A evolução (e rejeição) das convenções daria um longo tratado, mas basta recuar aos primórdios da era de massas, da cultura pop e do apogeu do fator imagem. Lendário pelo seu estilo preppy, os norte-americanos bem podem agradecer ou culpar John F. Kennedy pelo fim do uso do chapéu. Na sua caminhada para a Casa Branca celebrizou-se pela relutância em aderiar ao acessório e só concordou em surgir com uma cartola para a tomada de posse, em 1960, depois de o Baltimore Sun lhe ter implorado. Ao cair daquele década, o público americano em geral votava o chapéu ao esquecimento, para uma nova página na política moderna.

O registo descontraído (mas nem por isso ingénuo) tem tanto de Tony Blair por volta de 1999, como de Alexis Tsipas na fase troika, como de um David Cameron, que foi dos primeiros a dispensar o uso regular da gravata (fora do Parlamento), a arregaçar as mangas e a desabotoar o botão de cima. Encorajou os restantes conservadores a seguir o exemplo, para que deixassem de ser vistos como membros de um exclusivo clube privado — mas entre a eleição de 2015 e o referendo do Brexit, não hesitou em puxar da formalidade para puxar as orelhas a Jeremy Corbyn, recomendando ao então líder trabalhista que “colocasse um fato adequado” e que usasse gravata.

Quando o escritor de esquerda e ativista Owen Jones foi entrevistado por Alastair Campbell para a edição de maio da GQ britânica causou uma agitação no Twitter. Não propriamente pelas posições defendidas pelo colunista do The Guardian sobre esse mesmo Corbyn ou a Guerra do Iraque, mas antes pelo facto de Jones ter sido fotografado usando um casaco que custa mais de 1100 euros. O tema é tão fraturante que os mais respeitáveis meios se encarregam de lavrar artigos ao estilo: “O que é roupa cara? E a esquerda pode usá-la?” Bom, teremos sempre o efeito provocado pelo cachecol Burberry de 438 euros do antigo ministro das Finanças grego Yannis Varoufakis.

Ao The Guardian, ainda a propósito da imagem de Andy Burnham, Andrew Groves, professor de design de moda e diretor do Westminster Menswear Archive, sublinha a intencionalidade de uma escolha que de casual tem zero. “O look todo-negro de roupa de trabalho é tão calculado como qualquer fato de Westminster, apenas destinado a um público diferente”, nota Groves, lembrando ainda como o vestuário escolhido “rejeita a sofisticação parlamentar e sinaliza proximidade com Manchester: prático, comum e deliberadamente fora dos códigos políticos de Londres.”

Sobre a formalidade do nó ao pescoço, a verdade é que o acessório deixou de ser uma imposição desde 2017, na Câmara dos Comuns, precisamente o ano em que Burnham trocou Westminster por Manchester. Respondendo ao parlamentar conservador Peter Bone, que perguntou por que é que o democrata liberal Tom Brake tinha sido autorizado a falar sem usar uma gravata, o presidente da Câmara John Bercow disse: “Enquanto um membro chegar a esta câmara em trajes de trabalho, a discussão de se esse membro está a usar uma gravata não é absolutamente prioritária”. A questão é o entendimento do conceito traje de trabalho, já que o de Silicon Valley pode ter feições bem distintas.

Em 2012, para a BBC, o historiador David Cannadine evocava o mantra do antigo governador de Nova Iorque, Mario Cuomo — “faz-se campanha em poesia, mas governa-se em prosa” — e atualizava-o para o contexto da indumentária dos líderes britânicos: “Faz-se campanha de colarinho desapertado, mas governa-se de gravata”.

A história da gravata devolve-nos pelo menos até o século XVII, quando os parisienses recorreram a lenços de pescoço com nós usados pelos mercenários croatas que lutaram pelos franceses durante os trinta anos de guerra, lançando a precursora cravat. Popular no começo do século XX, consolidou-se depois da primeira guerra mundial. Na década de 20, nos EUA, a Brooks Brothers dava o tom em matéria de uniforme para as diferentes classes profissionais, apostando na formalidade tanto para os trabalhadores de Wall Street como para outros empresários, projetando no entanto as suas gravatas com riscas diagonais que se movem para baixo da esquerda para a direita, o oposto da diagonal britânica convencional.

Uma gravata precisa, historicamente, de um colarinho e a história deste, ora discreto ora exuberante, remonta aos primórdios do Renascimento na Europa, no final do século XV, inicialmente simples e como única parte visível da roupa usada por baixo, eleita pela classe clerical e expressão de humildade. Com o tempo, foi integrada no armário da nobreza e ascendeu a statement de moda. Visível ao público, devia mostrar-se sempre impecável. No século XVII conheceu proporções exuberantes, enquanto aristocratas e alta burguesia competiam em criatividade e estatuto numa sociedade ultra-estratificada.

A partir do século XVIII, o decote da camisa tornou-se novamente mais básico, menos carregado na goma, e muitas vezes fechado com uma tira de tecido, ou uma lavallière, esse antepassado da gravata. No século seguinte, a era industrial viu o advento do colarinho moderno, a estruturação do uniforme masculino e a importância redobrada da camisa.

A verdade é que se recuarmos, tempos houve em que Andy Burnham não se furtava a admirar, e usar, alfaiataria italiana — e a ser largamente ultrapassado por Jeremy Corbyn em matéria de informalidade. Em 2017, a GQ lembrava como numa entrevista dois anos antes Andy Burham confessara o seu amor por fatos Armani, o que desencadeou um frenesim nas redes sociais.

 – Está a vestir um Jaeger?

 – Não. Meu Deus, tenho de… Isto vai meter-me em sarilhos. Este é um fato Armani.

O jornalista tentou apurar se a heresia foi ainda mais pronunciada, perguntando a Andy se por acaso ter-se-ia rendido a uma criação por medida ou se se trata de um versão pronta-a-vestir, disponível em loja, o que aparentemente atenuaria os danos. “Meu Deus, sim. Para me redimir um pouco, só compro nos saldos do Boxing Day, compro dois blazers a metade do preço do que costumam ser.”, acrescentou, sacudindo encargos extra.

Em 2015, deixava-se fotografar na sua casa com uma camisa de ganga azul, quando era um entre cinco candidatos a render Ed Miliband na liderança do Labour, e secretário de estado sombra da Saúde. Mas em geral, o fato era uma presença assídua. Aqui e ali, em momentos mais informais, podia dispensar a gravata, mas não os colarinhos. A partir de 2016, é visível que Andy passa a usar óculos de forma mais regular. Analisando a evolução no arquivo de imagens dos últimos 15 anos, há de facto um ponto de viragem naquela fase da pandemia e naquele discurso em Manchester.

Degrau após degrau, a caminhada rumo ao lugar cobiçado acendeu o interesse sobre o Andycore, ou como vestir-se como Andy em sete pontos, um dos guias que pode encontrar no Substack. Para resumir, Burnham seria um consciente praticante do regime smart casual dad look, sempre com aquele toque despreocupado e relacionável para qualquer outro pai de família de 56 anos e arredores.

Mas e o que diz o público? De acordo com novos resultados do Public First, os parceiros de votação do Politico, o país em geral parece ser bastante descontraído: 44% dos adultos dizem que não importa como Burnham se veste como primeiro-ministro, embora, em geral, os entrevistados tendem a aceitar que vestir uma t’shirt o faz parecer menos profissional. Mais da metade dos entrevistados — 53% — acreditam ainda que o modo como Burnham se veste o faz parecer em contacto com pessoas comuns, conseguindo cativar até os eleitores mais conservadores. Já os homens são mais propensos do que as mulheres a concordar que Andy deveria preferir um fato formal.