E bruscamente, neste Verão, o tribunal da Relação de Paris tornou pública a sentença, algo ambígua, que reabriu a porta à candidatura de Marine Le Pen à eleição presidencial da próxima Primavera.
A acção judicial contra Le Pen por “desvio de dinheiros públicos” tinha vindo a ser profusamente anunciada e comentada com catónico escândalo e severidade na comunicação social. Dir-se-ia que a fundadora e ex-líder do Rassemblement National, que tem como uma das suas bandeiras a luta contra corrupção, se teria locupletado pessoalmente com dinheiros públicos.
Ora o crime em que Marine efectivamente incorreu – a atribuição a funcionários do partido de um falso estatuto de assistentes parlamentares dos eurodeputados para efeitos de pagamento de salários –, sendo uma prática ilegal, não deixa de ser comum a vários partidos franceses e europeus. Tanto que pelo menos dois outros partidos franceses, o MoDem, do centrista François Bayrou, e o La France Insoumise, do esquerdista radical Jean-Luc Mélenchon, são réus da mesma falta; embora, diz o Le Point, a justiça francesa tenha feito vista grossa à prevaricação de Mélenchon.
Mas é assim mesmo: juízes bons são os que decidem contra Trump, invalidam eleições em que a extrema-direita está à frente, como na Roménia, ou dificultam a vida a Marine Le Pen; juízes maus são os que, não o fazendo, se revelam cúmplices da “cabala montada pela extrema-direita” para “pôr em perigo a democracia”.
Adiante.
Como solução alternativa ao seu possível banimento da campanha, Marine Le Pen e o Rassemblement tinham posto de pé a solução Jordan Bardella, o jovem líder do partido, também com boas sondagens.
Poderá a História repetir-se?
Agora, com a teimosia e a tenacidade de sempre, Marine retoma em força a candidatura presidencial pela quarta vez consecutiva, avançando com Bardella como futuro primeiro-ministro. À falta de melhor, o previsível Le Monde, na sua edição de 9 de Julho, a par de mais um punhado de eruditas dilucidações jurídicas sobre a responsabilidade penal de Le Pen, dedica uma longa peça ao “ressentimento de Bardella” com a inesperada passagem, ou o inesperado regresso, a número dois.
Entretanto, numa primeira amostragem, as sondagens favorecem Marine que, à semelhança de eleições anteriores e como representante do primeiro partido de França em percentagem de votos, ficará certamente à frente na primeira volta, com larga diferença sobre o segundo. Assim, na sondagem Opinion Way de 8-9 de Julho, imediatamente a seguir ao anúncio da candidatura, na primeira volta Le Pen aparece no topo, com 35-37% dos votos; logo a seguir, vem o ex-primeiro-ministro de Macron e autoproclamado “candidato da direita” Édouard Philippe, com 17-18%; depois, vêm o também ex-primeiro-ministro e líder do partido macronista Renaissance, Gabriel Attal, com 15-16%, e o candidato da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon, com igual percentagem.
A esquerda, além de Mélenchon, tem outros candidatos, como a socialista Nathalie Arthaud, o comunista Fabien Roussel ou a verde Marine Tondelier, todos abaixo dos 3-4%. Já o social-democrata Raphaël Glucksmann anda pelos 9% e, à direita de Marine, Éric Zémour, pelos 4%. Bruno Retailleau, ex-ministro do Interior, vê o seu esforço de colagem às políticas duras anti-imigração recompensado com uns simpáticos 11%.
Assim, tal como nas campanhas de 2022 e 2017, Marine terá assegurado o primeiro lugar na primeira volta e, logo, a passagem à segunda volta. Mas irá a História repetir-se também na segunda volta? Era sabido que quem passasse com Le Pen à segunda volta tinha garantida a presidência, dada a taxa de rejeição da “extrema-direita” e a frente que logo se formava para “defender a democracia”. Foi assim que Macron foi eleito em 2017, com 66% contra os 34% de Marine, e em 2022, com 58,5% contra 41,5%.
Mas voltará a ser assim? É que, entretanto, o custo de vida, a insegurança e a incerteza das reformas e pensões agravaram-se. E quer à direita, quer à esquerda, há uma crescente preocupação com a deriva militarista e a febre armamentista de algumas elites, e com a possível escalada dos conflitos na Europa e no Médio Oriente. Também, os perigos da imigração descontrolada, cuja denúncia, há uns anos, vinha apenas do Rassemblement e que lhe merecia, e à sua dirigente, os epítetos de “racismo” e “xenofobia”, são agora partilhados pelos candidatos do centro-direita Édouard Philippe e Bruno Retailleau; e até, com alguma moderação, pelo macronista Gabriel Attal.
Sondagens e cenários
De acordo com as previsões, numa segunda volta contra Mélenchon, haveria uma vitória clara de Marine, com 70% dos votos, contra 30% para o esquerdista radical; já contra Édouard Philippe, Marine ganharia, mas mais tangencialmente, por 54% contra 46%; e contra Attal seria um 55% versus 45%.
Na sondagem da Elabe para La Tribune Dimanche de 12 de Julho, Marine bateria Mélenchon com 67,5% contra 32,5%, Attal com 54% contra 46% e Philippe com 52% contra 48%. Ora, em Março, Édouard Philippe era dado como ficando à frente de Marine, mas o estado da economia e da segurança (com a acção ou inacção da justiça no “caso Lyhanna”, a menina de 11 anos que desapareceu à saída da escola e foi encontrada morta seis dias depois) tendem a beneficiar o Rassemblement.
Além disso, a figura de Marine tem vindo a impôr-se. Le Pen passou, dolorosamente, de herdeira a protagonista e, de caminho, transformou o Front National em Rassemblement National, numa luta difícil entre sentimentos filiais e razões políticas.
Mas sondagens são sondagens, e mesmo quando correctas, só valem para o momento em que se efectuam. Bardella é, no plano económico, mais liberal e menos social que Marine, já que Le Pen herda, não só o sentido solidarista da direita nacional, crítica dos excessos da “mão invisível”, mas também uma transferência quase directa dos votos dos muitos que, no princípio deste século, trocaram o Partido Comunista Francês pelo Front National.
Bardella ganhou alguma confiança do patronato e o seu romance com Maria Carolina de Bourbon Duas Sicílias levou o actual líder comunista francês, Fabian Roussel (3% de intenções de voto), a proclamar:
“Bardella nunca esteve ao lado dos trabalhadores; prefere beber champanhe no Mónaco, com a sua princesa”.
Porém, com Marine, as coisas mudam. Teoricamente, o pior adversário para a candidata nacional-populista seria aquele que, à direita, não se confundisse com o Rassemblement. Mas conseguirá um liberal conservador ou um conservador liberal como Édouard Philippe, mesmo correndo contra Le Pen, atrair os votos de um eleitor de La France Insoumise ou de um comunista?
Falta muito para as eleições francesas e até Maio de 2027 ainda tudo, ou quase tudo, é possível. Só não restam dúvidas de que a eventual eleição de Le Pen em França seria uma revolução no sistema europeu. Tanto que o alarme soou entre os que, da esquerda-radical ao centro-direita, já começam a sofrer por antecipação.