Uma coisa que não deixa de ser extraordinária nestes dias de grande “informação” é a capacidade do espaço público e mediático, enquanto obceca com o pormenor, deixar passar incólume os diversos elefantes que se passeiam tranquila e diariamente pelo meio desse mesmo espaço mediático, sem que alguém repare neles. Estranhamente, o “espaço público” consiste em milhares de jornalistas, centenas de programas de “informação”, infinitos analistas, ainda mais comentadores, e todos aos gritos e urros 24 horas por dia, 7 dias por semana, sempre sem parar, em constante repetição, tudo alegadamente escalpelizando ao seu mais ínfimo pormenor: desde as viagens do Primeiro-Ministro, passando pelo tanque-piscina do Ministro, a indumentária da filha do Sr. Presidente, o peso e a dieta dos atletas da Selecção, a que horas toda essa gente adormeceu e acordou, o que comem, o que lêem nas férias, etc., etc., etc.. Já dos elefantes, nicles, zero, bola. São, para todos os efeitos, invisíveis, inodoros, inaudíveis.
Depois, claro está, domina a moda do momento. Por estes dias, está em voga a patética emergência climática que anuncia, desde há anos, secas e vagas de calor, ou enxurradas e comboios de frio, isto consoante a estação do ano. Vai daí e todas as parangonas anunciam agora dezenas de afogados em França barbaramente assassinados pela vaga de calor, ou infinitos recordes estatísticos desde o século XVIII que, contando com a subjectividade dos algoritmos e dos modelos cibernéticos, juntando-lhe a boa-vontade de quem mais aprecia afinar o coro mediático num uníssono proveitoso, são ininterruptamente reorganizados, reinterpretados e republicados numa infindável pilha de “mortos pelo clima” — que é como quem diz mortos por nós, os terríveis agentes disruptores do milenariamente tranquilo, ameno e imutável clima terrestre.
No final, nem é o pormenor que cansa, é o ridículo ao qual tanta gente — ainda para mais uma caterva de auto-proclamados “profissionais da informação” supostamente dotados de neurónios e capacidade cognitiva individualizada — se dedica a repetir com o afã próprio dos histéricos, maníacos e fanáticos. Veja-se, por exemplo, como o Primeiro-Ministro, aparentemente um deles, correndo atrás porque tem que “surfar” cada onda de agitação social, promete no X “salas climatizadas” — o quer que seja que isso signifique —, isto enquanto, noutro post, se vangloria por ter as melhores vírgulas económicas da Europa — como se melhor exemplo do distanciamento entre a estatística e a realidade não houvesse — que farão, diz ele sem se rir, a “inveja” de todos. Junta-se, portanto, o ridículo da moda climática com o ridículo de quem não faz noção de como o povoléu que, em curtíssima minoria, o elegeu vive no país por si governado. Tudo parece, portanto, uma ode ao absurdo onde uma chusma de loucos canta, dança, cabriola em alegre fanfarra, mas, lá está, sempre ao largo de qualquer coisa remotamente importante para a vida das pessoas.
É ridículo, sem dúvida, visto de fora e sem os pejos próprios da tristeza decorrente da constatação do “estado a que isto chegou” — mais vale rir que chorar, diz o sábio povo —, mas também é, como tudo no espaço público português, comezinho e pequenino. Nesse campo, as declarações do Primeiro-Ministro acertam o passo na perfeição com o coro generalizado onde a grande discussão e análise política se centra precisamente aí — na ridícula moda do dia e nas vírgulas e respectivas casas decimais dos diversos documentos que a cada dia circulam entre mãos políticas e jornalísticas.
Quantas décimas de “crescimento”, quantas de “despesa”, quantas de “dívida”, e consoante a quinzena, se “os mais recentes dados apontam para” menores ou piores décimas nos meses seguintes, eis a suprema preocupação nacional, ainda maior que o esturricanço global que enche noticiário atrás de noticiário, mas não preocupa verdadeiramente ninguém porque não há alma que nele acredite. Já as vírgulas, essas são outra história, ou melhor, novela, a célebre e infindável novela das décimas: aí, há a oposição que se enxofra com a “vergonha” das vírgulas e das décimas, não falta “a comissão” que aprova ou reprova as décimas, ou o Governo que se orgulha das ditas décimas, bem como, fundamental, os comentadores que vaticinam a “morte” ou a “viabilidade” das diversas equipas partidárias nas próximas, hipotéticas, corridas eleitorais em função dessas mesmas ”décimas” que perfazem os delírios de orgulho, ou as acusações ao opróbrio, de cada um dos participantes. Andamos, portanto, sempre assim: entre a moda histérica do momento, normalmente importada, e, depois, o regresso à normalidade das décimas — já dos elefantes, nada.
Vivemos, portanto, no esplendor do pormenor, da grande economia ora tornada doméstica, assim perfeitamente entronizada no Zeitgeist e no inconsciente de cada bom cidadão que nos assegura a todos que é desse modo que deve mesmo ser: um gigantesco electrodoméstico onde cabe ao Estado o papel central de motor centrifugador, garante máximo na equidade da distribuição pela população de modernidade consubstanciada em maquinetas diversas, cupões de subsídio, ou aparelhos de informática e TV. Valentim Loureiro, reconheçamos, compreendeu muito bem, e muito antes de todos os outros, aquilo que a populaça verdadeiramente pretende e exige aos seus representantes políticos — o electrodoméstico, que é como quem diz, a ilusão da “modernidade”.
No fim de tudo, como se não bastasse essa obsessão constante com o pormenor e a moda, com o “jornalismo” de lupa grossa que esquadrinha, sempre aos gritos, sob os alertas encarnados que anunciam permanentemente a hora que se vive como sendo a “última hora”, do outro lado da cortina de fumo que a comunicação social erige em redor de quem ainda lhe preste atenção, acaba escapando o essencial — a tal manada de elefantes que, passeando pelo meio dos ecrãs, bem à vista de todos, acaba fazendo-o sem que alguém neles repare.
Que elefantes são esses, então?
Bom, desde logo, um, bem grande e que por isso deveria ser motivo de grande discussão já há muitos anos, anuncia o facto do modelo de desenvolvimento económico da Europa estar, para ser simpático, falido. Assente num estado-social que se construiu em modelo Ponzi, ou seja, pagando os lucros dos que saem com as transferências daqueloutros que entram, este tradicional esquema de pirâmide colapsou a partir do momento em que, por diversas razões, os Europeus deixaram de ter filhos.
Depois, e este é o segundo elefante, não por acaso filho do primeiro, eis a razão verdadeira pela qual toda uma chusma de governantes europeus entendeu que a solução para os seus predicamentos político-económicos assentaria na imigração: onde não há filhos para pagar as contas do estado-social virão os imigrantes salvar o sistema. Só que não, exclama o terceiro elefante, a imigração do terceiro-mundo que inundou a Europa acabou causando mais despesa social do que rendas futuras, motivo peço qual todo o projecto, evidentemente, falhou. Aliás, não apenas falhou como afectou e causou extremo dano no tecido social da sociedade europeia.
Eis, então, o momento onde aparece o quarto elefante, um pequenino e que passa bem despercebido, mas que explica o essencial: todo este esforço para salvar o estado-social não passa de uma gigantesca falácia, pois não é o estado-social que está em causa, é apenas a sua dimensão — se o estado-social fosse proporcional à sociedade que o paga, e que dele usufrui, ele cresceria quando a população cresce, por necessidade logística, mas também diminuiria, ou deveria diminuir, quando a população diminui, por necessidade financeira. Ou seja, o discurso está completamente virado ao contrário: estão os políticos a destruir a sociedade para salvar o Estado quando deveriam estar a reformar o Estado para proteger a sociedade.
Depois, vem o quinto elefante. Grande, pesado, imenso, anuncia com voz grossa que se o caminho que vem sendo seguido for para manter, então o destino será a falência, a miséria, a violência social. Pior, diz-nos ele, tudo o que na Europa se tem feito tem sido o contrário do que se deveria fazer: centralizou-se onde se deveria ter aplicado a subsidariedade, planificou-se onde se deveria ter acreditado na iniciativa privada, politizou-se tudo o que deveria ser neutro, uniformizou-se ideologicamente, seja através da regulação ou da propaganda, todo um continente que, por todas estas razões, em apenas 20 anos, perdeu todas as batalhas económicas, tornando-se absoluta e tristemente irrelevante económica, geo-estratégica e militarmente — não é coisa pouca, admita-se.
Eis senão quando, com trombetas, aparece o sexto elefante, de cabelo loiro despenteado e gravata encarnada, com maus modos, de seu nome Donald Trump, explicando com enfado que toda essa história de estafar no estado-social — falido — o que deveria a Europa gastar em defesa porque está habituada a que os EUA paguem, e façam, por si, isso, repete e repete e repete o elefante Trump, acabou. Curiosamente, o elefante Trump faz as delícias do “jornalismo”, mas nunca para ouvir o que o homem diz, sempre para gozar, fazer pouco, vilipendiar, sempre sem perceber o mundo novo que, com ele, aí vem: a partir de agora há que pagar, seja aos EUA para continuar a ter a NATO, seja por si próprios para construir mísseis e submarinos porque os EUA não estão mais para bancar a festarola europeia, capisce?
“Ó meu Deus”, exclama então o sétimo elefante, “quer isso dizer que para além de termos um estado-social falido e termos um modelo económico que não funciona ainda vamos todos ter que gastar mais dinheiro — e 5% do orçamento de cada país não é pechincha — para assegurar a defesa básica do nosso território?” Em coro, respondem o oitavo, nono e décimo elefantes: “mas não era evidente?”. Sobra, então, na manada de elefantes a perplexidade generalizada, todos abanando tristemente a cabeça: como é possível que tantas evidências pululem por aí sem que que haja políticos sérios, jornalistas credíveis e clamores públicos prontos a discutir, ou pelo menos ponderar, a forma como nos podemos safar de tamanho predicamento. Eis, então, que aparece o décimo-primeiro elefante explicando o óbvio: são milhões, meus filhos, milhões, que vivem desse estado-social, e em democracia cortar benefícios, salários e empregos públicos não é coisa “eleitoralmente sustentável”.
“Que se lixem as eleições”, gritou em tempos o décimo-segundo, e último, elefante, um que por aqui já ciranda há muito. Este, careca, um habitué, apesar de elefante chamado Coelho, Passos Coelho, passa a vida a alertar, avisar, explicar o óbvio — e o óbvio é o que os elefantes todos anteriores nos gritam às orelhas todos os dias. Mas, lá está, o homem fala e o espaço público, zurrando, logo se esquece dos alertas que foram falados, das explicações que foram oferecidas, dos avisos e murros na mesa que foram dados, tudo o que interessa à “informação de excelência” é saber se vai o homem a votos, e quando, e com quem, ou contra quem, que acha ele das eleições internas do PSD, ou dos comentários do Hugo Soares, essa sumidade, tudo sempre por baixo de um substracto de incapacidade para ver, ouvir, cheirar, o que esse particular elefante nos anda a tentar dizer.
Assim vamos, portanto, cantando e rindo, com as melhores vírgulas económicas do mundo. Entretanto, o Primeiro-Ministro teve 95% nas tais eleições no PSD, no Congresso ninguém viu ou falou de quaisquer elefantes, era o que faltava, haja união, solidariedade e amizade e, no final, vai ficar tudo bem. Continuemos, portanto, a discutir as vírgulas, excitados com o tempo, seguindo as narrativas mediáticas do momento. Uma coisa, no entanto, é garantida: se o povoléu mediático se agita, grita e ofende por causa de tal assunto, então não tal assunto não é importante — e quem alerta para tanto elefante ainda acaba gozado como louco, radical, extremista ou “conspiracionista”. É o que há.