Valorizo quem sobe na vida. Quem consegue fazer mais do que o esperado, vencendo obstáculos, limites e dificuldades. Admiro quem conquista altos cargos, protagonismo, visibilidade e poder.
Mas, nesse percurso, é preciso conquistar também cultura, decência e sentido ético. Sem isso, tudo não passa de uma vitória vazia. Uma ascensão sem grandeza. Um triunfo apenas aparente.
Luís Neves, atual ministro da Administração Interna, chegou alto. Mas mostrou que, por muitos talentos que possa ter, lhe faltam dois fundamentais: ética e cultura.
O conflito de interesses, ao contratar para um serviço pessoal alguém que trabalhava para o serviço público que dirigia, é tão evidente que o próprio reconhece que devia ter feito as coisas de outra maneira. Mas, para mim, sendo isso grave, nem sequer é o pior.
Dono de um pequeno monte no Alentejo, quis remodelá-lo para instalar um negócio de turismo de habitação. É legítimo e razoável. Mas fê-lo da pior maneira. Não apenas pelas trapalhadas dos pagamentos, das faturas que teimam em não aparecer, ou das habilidades que transformam uma piscina num tanque. Sobretudo, fê-lo com aquela informalidade tão recorrente em Portugal, que muitos confundem com simplicidade, mas que é simplesmente incultura.
Lançou a obra sem projeto, sem garantir as autorizações necessárias — ou, pelo menos, sem se preocupar em saber se eram necessárias —, sem plano de obra e, ao que se sabe, sem sequer um orçamento claro. E, se isto sucede em tantos casos de um Portugal pobre, não é aceitável em alguém que estudou, ocupou cargos importantes na administração pública e chegou a ministro.
Não por acaso, escolheu um empreiteiro, no mínimo, pouco profissional. Nenhum verdadeiro profissional aceitaria fazer uma obra nestas condições: aos fins de semana, sem projeto, sem plano de obra, sem regras, sem método. Uma coisa feita à mão, à deriva, no regime do desenrasca.
Já para não falar do resultado. Mais um monte alentejano descaracterizado. Mais uma paisagem degradada. Mais uma intervenção sem cultura, sem cuidado e sem consciência do lugar.
Este caso diz muito sobre o baixo nível da classe política em Portugal. E diga-se que esse baixo nível atravessa todos os partidos. Dirão alguns que os políticos são o reflexo do povo que temos. Talvez. Mas, se a política não serve para escolher os melhores e elevar o país, então serve para quê? Para perpetuar o marasmo da mediocridade?
O mesmo espírito atravessa outro caso da época: os exames nacionais. Na sua vontade de modernizar — o que, em si, é positivo —, o Ministério decidiu avançar em força com a digitalização. Só posso dizer: até que enfim. Mas a questão é sempre a mesma: como?
Imagino que, por não haver computadores para todos, os alunos tenham feito os exames à mão, sendo depois as provas digitalizadas e enviadas para uma plataforma, onde são avaliadas por professores habilitados. A intenção até poderia ser boa. A execução foi, mais uma vez, pindérica.
Qualquer pessoa que já tenha digitalizado textos manuscritos sabe que esta tecnologia produz inúmeros erros. Erros que obrigam a rever tudo de novo e a corrigir manualmente aquilo que a máquina leu mal.
Não houve ninguém no Ministério capaz de dizer ao ministro que a ideia não iria funcionar? Não apenas pelos erros técnicos, mas também pelo potencial de reclamações e até de eventuais ilegalidades, já que muitas provas terão sido alteradas sem conhecimento dos seus autores.
Para finalizar, no domínio do pindérico e da mediocridade, não posso deixar de falar da Amalia, a dita IA portuguesa, que de inteligência artificial parece ter muito pouco.
A Amalia, tal como foi apresentada, não funciona. E, no dia em que eventualmente funcionar, estará sempre muito longe de qualquer ChatGPT, e até de ferramentas básicas de pesquisa que usamos todos os dias. O problema não é Portugal querer ter uma IA própria. Pelo contrário: seria desejável. O problema é anunciar como grande feito nacional aquilo que não passa de uma promessa frágil, mal implementada e tecnologicamente atrasada.
Nestes episódios, mais do que os casos em si, choca o mesmo fundo comum: o atraso, a falta de cultura, a mediocridade, a ausência de exigência.
O que é verdadeiramente pindérico é o poder que se comporta sem grandeza. É a autoridade sem cultura. É a modernização sem competência. É a ambição sem método. É o país oficial a querer parecer sofisticado, quando continua preso ao improviso, ao desenrasca e à pequena esperteza.
Portugal não é pindérico.
Pindérico é o poder que nos governa como se a mediocridade fosse destino.