A migração e a mão de obra são o bico de obra século XXI. Centenas de milhões de pessoas – na maioria homens jovens – estão em movimento, quase sempre numa única direção. No Ocidente a questão é o polarizador mais inflamável, reconfigurando sistemas partidários, robustecendo nacionalismos e testando a coerência dos partidos conservadores. As nações esmifram-se para conciliar imperativos conflitantes: a cooperação e a segurança, a pluralidade e a identidade compartilhada, o dinamismo econômico e a paz social.
Do ponto de vista ético, pulsam valores civilizacionais como a justiça e a dignidade. O chato é que expressões de orgulho étnico entre comunidades minoritárias são incentivadas e institucionalizadas, enquanto afirmações da identidade cultural maioritária tendem a ser “problemáticas”.
Nalguns países ocidentais, reservas à imigração (mesmo em massa ou ilegal) são criminalizadas – mas a realidade, como sempre, é prismática. Fatos: 37% dos londrinos hoje são brancos (em 1961, eram 98%). 1/4 da população de Bruxelas é muçulmana, assim como 40% das crianças do ensino primário e secundário em Viena. A Suécia, dantes uma espécie de nirvana social, é agora o país mais violento da Europa. Nas babélicas estações de metro das capitais ocidentais é comum que a língua nacional seja apenas um dos inúmeros idiomas ouvidos. Entre 2021 e 2024 mudaram-se para a Grã-Bretanha 2,6 milhões de pessoas, começando com “a onda de Boris Johnson.”
Estou à vontade, pois descendo de emigrantes portugueses no Brasil, e aos 20 anos fui dar só uma voltinha ao bilhar grande pela Europa fora, mas, na primeira paragem, e por culpa de uma certa alfacinha de olhos esfíngicos, acampei em Portugal a maior parte da minha vida (só há pouco voltei à vaca fria brasuca).
A globalização é irreversível. Há 50 anos, uma pessoa contava pelos dedos de uma mão os seus conhecidos que tinham andado de avião. Hoje, os dedos de uma centopeia não chegavam. Há milhões de imigrantes que só tinham andado a pé, e de súbito voam para outro continente.
As sociedades complexas, de comércio planetário, precisam de mão de obra, qualificada ou braçal. Ainda mais numa altura em que a natalidade ocidental (abaixo da reposição) quase corresponde a um voto de castidade, ao passo que a fecundidade de muitos adventícios (especialmente islâmicos) é de uma fogosidade priápica (segundo o Guiness World Records, o sultão marroquino Moulay Ismail é o humano que teve mais filhos comprovados na história: 888 pimpolhos inteirinhos!).
E os anfitriões também têm sarilhos: a erosão do acesso à habitação e o galope do custo de vida (pela primeira vez num bom tempo, a perspectiva da nova geração é pior que as anteriores – a lúgubre “mobilidade social descendente”). O multiculturalismo deita nitroglicerina à fogueira: as fronteiras devem ser escancaradas de par em par, pois todas as culturas são iguais (não há terráqueos ilegais na Terra). Com exceção, claro, do Ocidente, que é cancerígeno e cuja culpa no cartório remonta à Adão (ou ao Big Bang) – daí que seja o último que fala e o primeiro que leva: paga e não bufa!
Só que trata-se também de pertencimento, costumes, ritos, lastros históricos e cicatrizes culturais, que cimentam a coesão e a identidade nacionais. Toda a gente sente-se melhor na sua casa, e se expatria-se é porque esse lar-doce-lar está a falhar – seja pela guerra, por regimes ineptos, opressivos, teocráticos, etc., que precisam de ser responsabilizados. (A menos, claro, no caso de uns olhos esfíngicos.)
E é aí que a coisa pode dar para o torto. Tomas Pueyo documentou que entre 2014 e 2024, enquanto a população da UE cresceu menos de 2%, os casos de agressão sexual na Europa (a sociedade mais inclusiva do planeta: a constituição da União Europeia até excluiu referências ao Cristianismo) aumentaram 72% e as violações, 150%. O padrão é conclusivo: na Áustria, Dinamarca, Finlândia, Alemanha e Itália, imigrantes islâmicos estão sobrerepresentados naqueles crimes. As estatísticas policiais da Alemanha de 2025 mostram que os argelinos têm 26 vezes mais probabilidade de cometer tais delitos do que o alemão médio (e outras 13 nacionalidades muçulmanas têm pelo menos 5 vezes mais). No UK, islâmicos são agora 10% da população, mas suas taxas de condenação por crimes sexuais aumentaram 62% em 4 anos. A ONU informa que 5 mil mulheres são mortas anualmente no mundo islâmico por familiares que acusam-nas de desonrar as suas famílias.
Sem falar no terrorismo fundamentalista (só no UK, atentados no metro e autocarros londrinos em 2005: 52 mortos, 800 feridos; bombas em Manchester em 2017, 22 mortos, 1017 feridos; ataques em Westminster e London Bridge em 2017, 12 mortos, 98 feridos, etc., etc.), a concepção corânica da sexualidade colide com a das sociedades pós-iluministas – e são as mulheres que pagam a fava (embora certas feministas ocidentais mandem a igualdade de sexos lamber sabão, desde que os EUA e Israel se lixem, por isso até os aiatolás são fofinhos).
Em várias cidades britânicas, borrados de medo de serem acusados de xenofobia, a polícia, o sistema jurídico, assistentes sociais e políticos ignoraram por décadas que milhares de jovens brancas eram drogadas, torturadas, mantidas em cativeiro e violadas por redes maioritariamente de paquistaneses. Até hoje, as autoridades continuam a empurrar a infâmia com a barriga. Nenhum polícia conivente perdeu o emprego ou foi acusado criminalmente. Em “Prey”, a brilhante e valente Ayan Hirsi Ali (que nasceu na Somália e, depois de sofrer a proverbial mutilação genital, de lá fugiu para não ser obrigada a casar com um estranho que podia ser seu tataravô) conta como a sua mãe justificava o abuso das mulheres ocidentais, essas cabras: “Se deixas carne exposta na rua, e o gato a comer, de quem é a culpa?”
Quatro livros (três de imigrantes) e um filme mexericam no vespeiro da imigração. O mais antigo (1973) é “Le Camp des Saints”, de Jean Raspail, que morreu em 2020 aos 94 anos. Passa-se em 2000, e um milhão de bengalis chegam à França em embarcações coladas com cuspo. As autoridades assobiam para o lado, a população local baza e a sociedade entra em colapso. A obra foi chamada “racista”, embora Raspail tenha passado a vida a professar profunda empatia por gente não branca. O rabo que ele pontapeia é o da intelligentsia francesa (repimpada na sua torre de marfim T-6 no Marais), que descreve como pusilânime e moralmente narcisista, dilacerada pela culpa e autoaversão, subscrevendo a ideia de jerico de que o Primeiro Mundo só é rico porque o Terceiro é pobre, e vice-versa. A Europa não merece sobreviver: seu apocalipse é uma justiça poética, pois cá se fazem, cá se pagam.
Onde Raspail pisa na bola é ao fazer dos bengalis hindus os invasores – os hindus são pacatos. Já os bengalis islâmicos ocuparam um vasto enclave no East End de Londres e corromperam a política local (elegendo parlamentares a quem hoje só interessa vaporizar Israel do rio até o mar).
“Suicidal Empathy, Diying To Be Kind” (2026) é de Gad Saad, judeu libanês no Canadá desde os 9 anos, psicólogo evolucionista e com um canal no Youtube de espirituoso trocadilho: “The Saad Truth” . Ele acha um tiro no pé a obsessão ocidental com criminosos sortidos, imigrantes ilegais, atletas transgéneros, etc.. Para expor o disparate de renomear grupos para não estigmatizá-los – “indocumentados” em vez de imigrantes ilegais -, sugere sardonicamente que o mesmo tratamento seja dado a violadores: “Proponho ’doador de esperma gratuito’”
Em “Carta de Amor de um Imigrante ao Ocidente” (a edição da Guerra e Paz acabou de sair), Konstantin Kisin mostra os dois lados da barricada. Nasceu em Moscovo, nos estertores do totalitarismo soviético. Aos 13 anos foi enviado pelos pais à Inglaterra, obteve a dupla nacionalidade e, com o humorismo sagaz do podcast Triggernometry, é hoje uma proeminente voz política e cultural na anglosfera. O vídeo da palestra dele de 2023 em Oxford é quase lendário (amado ou odiado). “Eu conseguiria muito mais trabalhos na TV, pedidos para escrever e participações como convidado em tudo e mais alguma coisa, se me juntasse ao coro contra o Ocidente. Afinal, os ocidentais adoram quando pessoas de outras culturas nos explicam como somos repelentes.”
Já o romance “A Better Life” (2026) é de Lionel Shriver – americana, viveu em Belfast, Israel, Nairobi, Bankog , Londres (é cronista da “Spectator”) e Lisboa. Ela tem mais pelo nas ventas do que Frida Kahlo nas sobrancelhas. Em 2016, para denunciar a parvoíce da “apropriação cultural”, subiu ao palco do Festival Literário de Brisbane a usar um “sombrero” mexicano. Caíram o Carmo e a Trindade. Ela tornou-se Eva Braun.
O romance fantasia uma proposta real (do anterior presidente da Câmara de New York, Eric Adams) para abrigar dezenas de milhares de imigrantes (no governo Biden 7 milhões de estrangeiros entraram nos EUA pela fronteira do México) em lares particulares de nova-iorquinos. É o que faz Gloria Ventura, uma sessentona altruísta que vive no Brooklyn. Gloria acolhe a hondurenha Martine, uma dos milhares de “novos nova-iorquinos” (como os imigrantes ilegais são chamados pelos progressistas na vida real).
Nico, o filho de Gloria, não acha piada nenhuma. Martine troca farpas com ele: ““Você não gosta de imigrantes .” “Gosto de alguns. Mas vocês são muitos.” “Os EUA são um país grande. Há bastante espaço.” “Mas você não veio para os grandes espaços. Veio para Nova York, que é apinhada e cara. As pessoas que moram aqui têm que pagar por você.” “Ah, e você vai pagar?”
Shriver, como boa ficcionista, não faz propaganda rasa. Todos os personagens têm matizes, e o próprio Nico é um parasita que vive às custas da mãe. Mas enquanto cidadã, Lionel põe as cartas na mesa: “Sou a favor da discriminação: sem dúvida devemos deixar entrar as pessoas que fazem bem ao país, mas nem toda a gente é integrável. Isso não significa que aprove que se pegue numa arma e dispare contra imigrantes”.
Como aliás acontece em “Citizen Vigilante”, de Uwe Boll, que não conseguiu sequer jogar em casa – a tolerantíssima Alemanha. A FSK, o órgão oficial que classifica os conteúdos cinematográficos, simplesmente baniu o filme. O inefável Elon Musk meteu-se ao barulho, franqueando a fita no X por 48 horas, onde foi vista por milhões de pessoas, e agora é o número um nas plataformas de streaming na América do Norte. Com uma cotação crítica de só 6% no Rotten Tomatoes, mas aprovação do público de 93%.
Faz parte de um subgénero vetusto, o do justiceiro – remontando a “Dead Wish” (1974), com Charles Bronson, passando por “Taxi Driver” e às cacetadas veteranas de Liam Neeson –, porém banhado nas ansiedades contemporâneas. O protagonista é o empresário americano Michael Sanders (Armie Hammer, ele próprio canceladíssimo sob acusação de abusos e até… canibalismo!) que, passado dos carretos com a inoperância do sistema judicial, abre a temporada de caça aos criminosos – a maioria imigrantes e juízes venais.
Sanders está algures na “Europa” (o filme foi rodado na Croácia). Os atores falam com sotaques europeus e americanos. Os veículos de Sanders exibem matrículas com as letras “UE” (que, como sabemos, não existem), enquanto os carros ao fundo têm matrículas croatas. Na abertura, uma jovem mãe e o seu filho pequeno saem de um supermercado e um negro esfaqueia a mulher mortalmente. Hammer confronta putos que insultam um motorista de autocarro e se recusam a pagar o bilhete. Depois, trata da saúde a brancos que vão drogar e abusar de duas jovens num bar.
Spoiler: no clímax, o vigilante dá um saltinho à casa de um rapaz sírio já dispensado pela polícia depois de participar de uma violação coletiva. A irmã do jovem diz que as miúdas locais estão mesmo a pedi-las, porque andam por aí descascadas como as cabras que são. O pai alega que a família simplesmente fugiu de uma pátria inóspita. O vigilante liga o modo armagedão, e olha para a câmera: “Lembre-se, faço isso por si. Até aprender a fazer isso por si próprio.”
Sim, é diferente da agenda identitária que as Netflix e Prime Vídeo da vida martelam há anos – como que a manosfera de Andrew Tate e os adolescentes brancos de lares estáveis são os responsáveis por toda a peçonha da masculinidade (inerentemente tóxica) – ao contrário do machismo do fundamentalismo islâmico e do truculento lobby trans.
Quanto mais o negacionismo das indiscriminadas políticas de migração prevalecem, marimbando-se para as instituições democráticas do Estado de Direito em vez da mera etnia, mais irão proliferar o ressentimento e a paranoia – vazio que será preenchido, de forma civilizada ou chunga. Até já brotou uma teoria da conspiração de que “Citizen Vigilante” é… “sionista”. A podcaster Candace Owens (5 milhões de seguidores) associou o ator Armie Hammer a uma maquinação judaico-bolchevique. Pois: o antissemitismo é a mais longeva forma de racismo.
O espectador do filme não fica do lado do protagonista (nem mesmo desconfortavelmente). Sanders é ele próprio patológico: usa a entropia social (e mantras taralhocos como “abolir a polícia”) como álibi moral para matar – vingança é justiça. No fundo, o filme é um avatar e não uma crítica à imigração descontrolada.
O chamado ‘stress da diversidade” espelha sociedades ao mesmo tempo mais múltiplas e mais solipsistas do que nunca. A decadência cívica não diz respeito apenas aos migrantes, mas aos próprios anfitriões. Inúmeras das fontes normativas de significado definharam. Fomos exortados a moldar nossas próprias identidades (ou até identidades em série, fluídas como água), a exercitar valores camaleónicos e a buscar a realização pessoal como um fim transcendental. Maximizamos a liberdade, mas também nos desamparamos. Quando a identidade se reduz a uma partenogénese, não pode ser enraizada. O identitarismo depende da atomização e do antagonismo entre e dentro (a interseccionalidade) dos grupos – vampiriza o caos. Daí, entre outras anomalias, a crise epidémica de “saúde mental”.
A ficção (romances e filmes) pode dar vida à hipótese humanitária de que, biologicamente, ou afundamos ou nadamos juntos. Para que uma democracia funcione, é preciso um demos (uma comunidade operacional). Para que haja um demos, convém existir entre os seus membros mais do que apenas contiguidade geográfica. O que não é igual a exigir uniformidade absoluta: o mais do mesmo é repetitivo e pouco instrutivo. Em si, a diversidade é inestimável – a odisseia do espírito humano não floresce numa caverna bafienta. A.N. Whitehead notou: “Os homens esperam dos seus vizinhos algo suficientemente semelhante para ser compreendido, suficientemente diferente para despertar atenção, e suficientemente bom para inspirar admiração.”
Mas desde que a variedade não implique incompatibilidade antitética: o espírito humano tão-pouco prospera em guetos sectários e rancorosos.