Na noite antes do debate do Estado da Nação, José Luís Carneiro reuniu o PS e afunilou os problemas todos do Governo numa só figura: o primeiro-ministro. Acusa Luís Montenegro de desvalorizar problemas, como o dos exames nacionais, e ainda que continue a garantir que o PS não pode ter pressa e que o caminho da oposição é longo, vai dando gás à ideia de “falta de liderança”.
A reunião do principal órgão de direção política do partido arrancou com uma intervenção do líder, que insistiu no seu novo mantra, citado de José Saramago: “Não temos pressa mas não podemos perder tempo.” Entrou animado pela sondagem divulgada pela RTP, esta quarta-feira, sobre a lista dos principais problemas do país para os portugueses. Em segundo lugar, logo a seguir à saúde e antes do custo de vida, aparece a “gestão política/falta de estratégia/liderança” e apertou Montenegro.
Disse que é o primeiro-ministro que tem “falhado” na coordenação da sua equipa, que chega “tarde e a más horas” aos problemas — aproveitando as idas de Montenegro ao Mundial de futebol para apimentar esta imagem — e que mostra “desdém” pela crise dos exames nacionais. Na entrevista à CNN Portugal, que tinha gravado de manhã e que era transmitida à mesma hora da reunião, Carneiro carregava nas linhas dizendo tratar-se de uma das “mais graves crises” no acesso ao Ensino Superior.
Mais do que apontar responsabilidades a ministros que estão no olho do furacão (seja a da Saúde, seja o da Educação), o objetivo do líder socialista é tentar convencer os portugueses de que o problema é da liderança, ou seja, do primeiro-ministro.
No final da reunião, o secretário nacional André Moz Caldas veio sublinhar precisamente que o Governo “é visto pelos portugueses como um dos principais problemas do país”. Apontou a “falta de liderança e coordenação do primeiro-ministro” no Executivo e disse que o PS quer “forçar o primeiro-ministro a uma reflexão sobre o modo como está a desempenhar as respetivas funções”.
“Fraco rei faz fraca a forte gente”, disse citando Luís de Camões para atingir Luís Montenegro: “Um falhanço tão transversal não é responsabilidade dos ministros individualmente.” Ainda que o tiro ao primeiro-ministro seja o que o partido se prepara para fazer no debate do Estado da Nação marcado para esta quinta-feira, o líder socialista não esquece que a mesma sondagem que o animou também mostra que ninguém quer eleições tão cedo. O que leva à parte da “tranquilidade”, que o líder do PS prega como o único caminho possível para um PS que pretende voltar ao poder. “Forçar à reflexão” está (ainda) longe de ser um desafio direto ao lugar de primeiro-ministro.
O PS “não contribuirá para a instabilidade”, diz Moz Caldas ao mesmo tempo que admite que ela também não é “um fim em si mesmo”. O que é certo é que a liderança vai afastando o mais que pode os temas que exigem um posicionamento claro face ao Governo, caso do Orçamento do Estado para o próximo ano.
Na sala, entre os socialistas presentes, o ambiente foi mais de análise do momento político do que de acerto do passo ao secretário-geral, segundo apurou o Observador. Carneiro procura convencer o partido de que o momento é de criar alternativa ao Governo e não à sua própria liderança.
E vai apontando para os dois terços do eleitorado que estará “desencantado com a AD”, na expectativa de poder cobrir esses potenciais votos, apostando num discurso político que possa cativar o centro político.
A caça ao eleitorado perdido parece começar já pelos professores, aproveitando as declarações do primeiro-ministro na noite de terça-feira. Num evento partidário, Luís Montenegro falou de “algumas resistências” de professores à reforma da digitalização dos exames nacionais. No PS, isso é visto como uma insinuação de que “os professores dolosamente podem ter contribuído para prejudicar os seus alunos e as respetivas famílias”. “Nunca um aviltamento tão grande foi feito a uma classe profissional como aquele que o primeiro-ministro protagonizou”, disse no final do dia André Moz Caldas sobre este assunto.
https://observador.pt/2026/07/15/montenegro-promete-manter-reformas-na-educacao-e-saude-e-declara-guerra-a-burocracia-antes-do-debate-do-estado-da-nacao/